2 Jul 2020

A esperança vence o medo, mas muda de lado

Por   Qui, 25-Out-2018
Bolsonaro: facada e ascensão Bolsonaro: facada e ascensão

Neste domingo, ao dar a vitória a Jair Bolsonaro nas urnas, por 55,1% dos votos válidos contra 44,9% de Fernando Haddad, o eleitorado brasileiro deu mais uma demonstração de fé em si mesma e no regime democrático. Na primeira eleição de Lula, no já distante ano de 2002, o ex-presidente assinalou sua vitória com a frase: "a esperança venceu o medo". O medo era o terrorismo eleitoral, segundo o qual o PT radicalizaria o país e o levaria a um projeto de poder estatizante e autoritário de esquerda. A esperança era de que, em vez disso, Lula conduzisse o país de forma democrática ao progresso com mais justiça social. Lula ganhou, contra os maus prognósticos, e teve a sua chance de mudar o país.

Depois de praticamente dezesseis anos de gestão petista, que quase quebrou o Estado e montou um esquema de corrupção estendido aos países vizinhos, num projeto de poder internacional, a esperança vence novamente o medo. O medo agora é do radical oposto, usado para apear o lulopetismo do poder: tem um discurso reacionário, pendores autoritários e ares militarizados, que também podem ir longe demais. Para aueles que acham que o eleitor brasileiro não sabe votar, ele respondeu com um remédio forte, contra uma doença grave. A esperança vence novamente o medo, mas mudou de lado.

A vitória de Bolsonaro foi recebida nas ruas de São Paulo e outras capitais com rojões, buzinaço e festa, como se fosse vitória de Copa do Mundo. Para o brasileiro farto do PT, foi um desabafo. Por ironia, a maior parte do eleitorado de Bolsonaro, ironicamente, é a mesma que tinha Lula na época: o cidadão de baixa renda, que não quer ver gente roubando no governo, e sim atendendo a população mais carente, traída pela gestão do PT, após um breve período de ilusão.

No passado, esse grupo de eleitores agregou-se ao núcleo de esquerda do PT, quando este lhe prometeu uma vida melhor, sem olhar para a ideologia. Agora, novamente não se importa em bandear-se para o lado oposto do espectro ideológico, se este promete varrer o petismo, corrigindo o rumo moral da política e melhorando novamente sua vida.

Marcada pela campanha bizarra, a partir da facada em Juiz de Fora que o deixou entre a vida e a morte e o manteve no hospital boa parte do tempo de campanha, a eleição de Bolsonaro é um tapa na cara não só do PT e do ilusionismo delirante de Lula como de toda a política brasileira que frequentou o poder nas duas últimas décadas. Incluindo o PSDB, pulverizado nesta eleição, e o MDB de Michel Temer, que se apresentou como o salvador da gestão de Dilma Rousseff, mas cujo candidato à presidência, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, teve menos votos que o cabo Daciolo, o histriônico missionário do Patriota.

Somente a reação ao lulopetismo explica a eleição de Bolsonaro, um político que jamais calculou o que pensa e o que diz em busca de votos. Fiel a si mesmo, não se interessou em sequer ao menos contemporizar em temas como a tortura, que já chegou a elogiar publicamente.

Simpático à ditadura, que já viu como um regime virtuoso, crítico das minorias, onde vê mais hipocrisia que necessidades reais, dispensou o discurso politicamente correto até mesmo para agradar nichos eleitorais importantes, como o Nordeste, grande reduto eleitoral do PT, graças ao assistencialismo, que beneficou sobretudo a região.

"Coitadismo"

Ao buscar votos entre os nordestinos, Bolsonaro não deixou de ser ele mesmo. Em plena reta final da campanha, afirmou à TV Cidade Verde, do Piauí, que pretende acabar com o "coitadismo" das minorias  Segundo ele, as políticas voltadas para as minorias apenas reforçam o preconceito. “Você não tem que ter uma política para isso", disse. "Isso não pode continuar existindo. Tudo é coitadismo, coitado do negro, coitada da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino, coitado do piauiense.”

As políticas afirmativas assumidas pelo Estado em tese deveriam ser temporárias, para eliminar ou diminuir desigualdades históricas e garantir igualdade de oportunidades. Para Bolsonaro, a voz da maioria deve ser ouvida novamente, no sentido de acabar com a perenidade de políticas que, em nome da igualdade, acabam criando uma rede de privilégios.

Todas as vezes em que foi atacado por suas ideias reacionárias, Bolsonaro cresceu. Assim como ao tomar a facada na rua, em Juiz de Fora, que o fez vítima, baixando sua rejeição. Cresceu também quando manifestações com milhares de pessoas tomaram as ruas nas principais cidades do país, por iniciativa de movimentos feministas, com o slogan #elenão.

Depois de uma era de quase fanatismo ao redor de Lula, surgiu uma força inversa do mesmo tamanho, que minimizou as ideias apontadas pelo adversário como "fascistas" em nome de um propósito: alijar do poder o fascismo de esquerda, ilustrado pela resistência do PT em aceitar a determinação da Justiça e o jogo democrático. Depois de instalar a crise no país, o PT viu seu projeto de poder barrado, não pelo juiz Sérgio Moro, que colocou seus principais líderes na cadeia, ou pela imprensa, sempre culpada no lugar dos seus erros, mas pelo próprio povo, por meio do voto.

"Volta pra base"

Enquanto o ex-presidente Lula manifestava incredulidade pela extensão do "ódio ao PT" manifestado nessa eleição, por meio de uma carta, o único com mais lucidez entre as fileiras petistas, que evitava os velhos bordões do partido, foi o rappper Mano Brown. Convidado a falar no Ato da Virada, na presença de outros artistas da esquerda ilustre, como Chico Buarque, e do próprio Fernando Haddad, Brown foi o único a mostrar consciência de que o eleitor do PT virou de lado, deixando o partido isolado em seu discurso. "A cegueira que atinge lá, atinge a nós também", disse Brown. "O que mata a gente é a cegueira e o fanatismo."

Diante da plateia consternada, Brown cravou uma estaca no peito da campanha. "Não consigo acreditar que pessoas que me tratavam com tanto carinho, que me amavam, me serviam café de manhã, lavavam meu carro, atendiam meu filho no hospital, se transformaram em monstros", afirmou, falando como a elite autodenominada defensora do trabalhador. "Se a comunicação do pessoal daqui falhou, vamos pagar o preço. A comunicação é a alma. Se não está conseguindo falar a língua do povo, vai perder mesmo." (Veja íntegra do discurso aqui.)

A franqueza que faltou ao PT sobrou a Bolsonaro, que acabou passando a imagem de patriotismo e integridade, por mais desagradáveis que possam ser algumas de suas ideias. E a integridade, na atual conjuntura, é um elemento poderoso, diante da população que viu o PT transformar-se de um partido de discurso antes purista para uma bandeira mergulhada na bandalheira, em escândalos como o do Mensalão e do Petrolão. Para o eleitor que mudou de lado, o PT é apenas mais um partido que prometeu dar dinheiro ao povo e o utilizou em proveito próprio. Contra isso, só um capitão com cara de general linha dura.

Bolsonaro light

Quando viu que abocanhou um eleitorado maior do que jamais podia ter imaginado, Bolsonaro manteve a mao pesada, mas, assim como Lula inventou o "Lulinha paz e amor", cuidou de apresentar também o Bolsonaro light: o homem de família, afável, bem humorado e até emotivo, preocupado com o futuro do Brasil e individualmente com as pessoas. Deixou para mostrar sua mulher, Michelle, no último dia da campanha eleitoral. ´"É o meu amor", disse ela do marido, depois de se apresentar como uma ativista da causa dos deficientes físicos. 

A sinceridade de Bolsonaro se estende para o terreno econômico. Sem diplomacias, durante a campanha, atacou os investidores chineses, ao afirmar que não estão "comprando no Brasil, estão comprando o Brasil". Com 75 bilhões de dólares em negócios bilaterais  no ano passado, empresários brasileiros e seus parceiros chineses ficaram em polvorosa. "Estamos um pouco preocupados com suas opiniões extremas", afirmou um executivo chinês, sem ser identificado, à agência Reuters.

Não caiu bem igualmente a visita de Bolsonaro a Taiwan, considerada pelos chineses como uma província separatista. Foi o primeiro candidato a presidente do Brasil a visitar Taiwan desde que o país reconheceu Pequim como o único governo da China. A embaixada chinesa produziu uma carta em que classificou a viagem como a "afronta à soberania e à integridade territorial da China". "O Brasil não pode se dar ao luxo de abrir mão de seu maior parceiro comercial e de investimento", afirmou ao UOL o ex-secretário de Relações Exteriores do Ministério do Planejamento, Jorge Arbache.

Austeridade

Bolsonaro prefere que o Brasil explore suas próprias riquezas - e os chineses têm investido em petróleo, mineração e energia, áreas consideradas pelos mais conservadores como de segurança nacional. Cortou as asas também de seu homem supostamente forte na economia, o economista Paulo Guedes, quando disse inadvertidamente a um grupo de empresários que pensava em reeditar a CPMF. Cortou também as ambições de privatização radical de Guedes, afirmando que não permitirá a venda de boa parte do setor elétrico nem do "cerne" da Petrobras.

Manifestou também, em seus vídeos, dar ouvidos a setores da economia, que lhe pediram, entre outras coisas, para não fundir o Ministério da Indústria e do Comércio com a Fazenda e o Planejamento.

O que Bolsonaro quer, na realidade, em consonância com toda a sociedade, é instalar em Brasília um clima de austeridade. Uma missão tão complexa quanto erradicar a violência urbana e recolocar o país no trilho do desenvolvimento sustentável - a grande missão sem a qual, daqui a quatro, o eleitorado certamente estará clamando por outro salvador.