3 Jun 2020

Um dia depois de vasculhar a vida do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, na chamada "operação Placebo", a Polícia Federal realizou outra batida, cumprindo 29 mandados em cinco estados, como parte da investigação para o inquérito sobre as fake news, por ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes.

Foram alvo colaboradores próximos do presidente Jair Bolsonaro, como oito parlamentares, entre eles as deputadas do PSL Carla Zambelli e Bia Kicis, o ex-deputado Roberto Jefferson, Allan dos Santos, operador do blog Terça Livre, integrante da milícia digital bolsonarista, e o empresário Luciano Hang, dono da Havan, financiador da indústria de fake news de extrema direita. 

O presidente Jair Bolsonaro mandou claro sinal nesta terça-feira de que está agora no controle da Polícia Federal - e de que usará o órgão tanto para defesa própria, como denunciou o ex-ministro Sérgio Moro, como o ataque. Após mudar o superintendente da PF no Rio de Janeiro, foi realizada uma blitz na casa oficial do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, a pretexto de investigações sobre supostos desvios de dinheiro no atendimento ao coronavírus no estado. A operação teve mais efeito de  "vendetta" a um desafeto do presidente, que chamou Witzel de "estrume" na reunião de 22 de abril. Foi chamada pela própria PF de "Operação Placebo". Placebo, como se sabe, é o conteúdo inócuo, utilizado nos remédios, sem ter princípio ativo.

O presidente Jair Bolsonaro tem procurado fazer parecer natural tudo aquilo que é contra-indicado a alguém na sua posição. Depois de dizer na sexta-feira que "é normal" colocar a assinatura do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro na demissão do ex-diretor da Polícia Federal, Maurício Valeixo, sem o conhecimento e a concordância de Moro, Bolsonaro fez nesta segunda-feira uma visita de cortesia à luz do dia ao Procurador-Geral da República, Augusto Aras. É Aras quem deve decidir se segue adiante a investigação sobre a tentativa do presidente de influir em investigações da PF que lhe dizem respeito.

A divulgação da reunião ministerial de 22 de abril passado, por ordem do Supremo Tribunal Federal, não apenas mostrou  como funciona o governo porta adentro como criou um efeito colateral danoso. Cada vez que o presidente Jair Bolsonaro tenta explicar-se, piora sua situação, como alguém qeu se mexe na areia movediça e afunda ainda mais. Em meio à confusão que o deixou sem  ministro da Saúde em plena pandemia, à promoção de uma intervenção militar e a linguagem chula e insultuosa que ele transformou em seu estilo de governo, Bolsonaro acabou por admitir que sabia da operação da Polícia Federal contra os filhos antes de sua deflagração, ainda ao tempo da campanha presidencial. Segundo ele, foi alertado da "possibilidade de busca e apreensão" na casa dos filhos e afirmou que o objetivo disso seria "plantar provas" contra a família.

As investigações nas contas do gabinete do senador Flávio Bolsonaro quando deputado estadual no Rio de Janeiro podem virar outra pandemia no governo de seu pai, o presidente Jair Bolsonaro.

O gabinete de Flávio, operado por Fabrício Queiroz, amigo de longa data do presidente, já era suspeito por conta da entrada de dinheiro vivo, seja pela prática da rachadinha como por possíveis depósitos em dinheiro vivo vindo das milícias.

Para completar, a Polícia Civil fluminense descobriu que o PSL nacional repassou, a pedido de Flávio, 500 mil reais ao escritório de advocacia de um ex-assessor hoje envolvido no suposto vazamento de informações da Polícia Federal em benefício da família do presidente.

O desmanche realizado pelo presidente Jair Bolsonaro nos ministérios e demais escalões, trocando nomes que representavam alianças ou propostas de campanha, coloca não apenas novas caras no governo como muda completamente sua proposta. Empurrado pelas investigações contra sua família, por seus novos aliados do centrão e as circunstâncias da crise econômica na esteira da pandemia, Bolsonaro vai se afastando dos compromissos eleitorais originais e dá início a uma nova fase de governo que, pelos nomes e intenções, fica mais parecida com o governo de Michel Temer. E pode rumar para um descolamento completo da sua configuração inicial, ameaçando inclusive o seu último pilar mais importante - o ministro da Economia, Paulo Guedes.

No domingo, o empresário Paulo Marinho, colaborador na campanha eleitoral do presidente jair Bolsonaro, afirmou que a Polícia Federal teria atrasado a investigaçãoo hoje senador Flávio Bolsonaro teria sido avisado antes da operação por um delegado da Polícia Federal da investigação sobre as contas de seu gabinete como deputado estadual do Rio de Janeiro, instruindo que desligasse o ex-assessor Fabrício Queiroz. A operação da PF ainda teria sido adiada para não prejudicar a campanha de Bolsonaro.

A manifestação diante do palácio do Planalto deste domingo teve menos gente que as anteriores e chamou a atenção pelo fato de que os seguranças pediram a retirada de bandeiras contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro juntou parte do alto comando do governo para saudar os manifestantes, como se fosse um ato cívico - classificou-o como "pura democracia".

A pandemia aumentou a taxa de mortalidade no governo, que já era alta, mas subiu exponencialmente. A última vítima da exposição à convivência com o presidente Jair Bolsonaro foi o ministro Nelson Teich, segundo a sair da pasta da Saúde em menos de um mês. No meio disso, Bolsonaro achou tempo de livrar-se do ministro da Justiça, Sérgio Moro, abrindo uma batalha para explicar seus interesses em mudar o comando da Polícia Federal.

Teich pediu demissão por não concordar com o uso precoce de hidroxicloroquina no protocolo de tratamento do Covid-19, contra as indicações da medicina, assim como ocorreu com seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta. Bolsonaro segue com sua ideia de que os ministros não passam de meros executores de suas ideias e quem o contraria é simplesmente eliminado, ainda que esteja em defesa da vida.

No lugar de Teich, ficou interinamente o secretário executivo da pasta, o general Eduardo Pazuello, ex-coordenador da operação de acolhimento de refugiados na fronteira com a Venezuela, colocado no cargo para fazer valer as determinações do comandante, transformando o ministro num personagem de fachada.

Pazuello é mais um militar amontoado no alto escalão do governo. Corre o risco de ficar com o cargo. Bolsonaro recorre aos militares por uma simples razão. Por dever de ofício, são os únicos que se subordinam incondicionalmente, não importa qual é a ordem, treinados que são para serem comandados a ir, até mesmo, à morte. 

Os militares tocam pra maluco dançar

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