17 Out 2019

Villas Bôas fica sem voz

Por   Qui, 10-Out-2019

Principal ideólogo de centro no governo e reserva moral do meio militar e da defesa da democracia no Brasil, o general Eduardo Villas Bôas foi submetido a uma traqueostomia em consequência do agravamento da disfunção respiratória provocada pela ELA, doença degenerativa terrível que vinha, a galope, consumindo os movimentos do corpo - mas aguçando as luzes da razão. A tecnologia tem avançado. Contudo, certamente ficará mais difícil sua atuação na vida pública.

Vinha enfrentando o calvário com extrema coragem, sabedoria e serenidade. Foi o homem mais corajoso e sereno que conheci. E também dos mais gentis e bem humorados, um chevallier. Sorridente, irradiava carisma e magnetismo.

Todos os dias, invariavelmente, sob imenso sacrifício pessoal, ia trabalhar no 4º andar do Palácio do Planalto como assessor do GSI. Sua sala transformou-se em um confessionário da República (talvez consultório psiquiátrico), com agenda sempre lotada. A romaria era multifacetada: iam consultar-se com ele desde líderes empresariais que não estavam conseguindo ser ouvidos pela equipe econômica a artistas e intelectuais de esquerda com demandas sensatas (ou não) junto ao governo.

VB, como os amigos o tratam carinhosamente, leva para seu novo estágio de vida duas grandes preocupações com o futuro do Brasil. Uma é o assédio internacional sobre a Amazônia. A outra diz respeito à hegemonia marxista sobre a Cultura e a Educação. Sobre a Amazônia, sei que começou a organizar um instituto que reúne pessoas de dentro e de fora do governo. Quanto à Cultura, parece que Bolsonaro optou por não lhe dar ouvidos.

Conheci VB na virada do impeachment de Dilma, com a ascensão de Temer. O general Sérgio Etchegoyen um dia me pediu um exemplar do meu livro "A Lei da Selva" (sobre as estratégias dos militares na Guerrilha do Araguaia), a fim de presentear seu comandante. Mais uns dias e meu telefone celular tocou: "Studart, é o Villas Bôas". Queria agradecer pelo livro, já havia lido tudo. Convidou-me para um café.

Também leu meu livro "Borboletas e Lobisomens" em agosto do ano passado, assim que foi publicado. Parece que também gostou. Tanto que, em entrevista coletiva em Porto Alegre, diante de cerca de 150 pessoas, citou-o como exemplo de "verdade histórica" que aceitaria encarar diante de uma eventual nova Comissão da Verdade. "O livro é extremamente crítico ao Exército, mas também relatou verdades sobre o partido que tem deixado a esquerda atônita", explicou. Daí, um novo encontro.

Em janeiro de 2019, depois da posse de Bolsonaro, Villas Bôas convidou-me para visitá-lo em sua residência. Revelou-me que iria trabalhar no Palácio. Pediu para que eu lhe apresentasse intelectuais e jornalistas. Queria pensar um projeto de Cultura para o Brasil.

Com alguns, como Augusto Nunes, apresentei apenas por telefone. Outros, em encontros pessoais, quase sempre em sua residência, em diálogos com tamanhas luzes que pareciam o Reveillon de Copacabana. Assim, tiveram a honra de dialogar com VB desde comunistas juramentados como o historiador Luís Mir, liberais clássicos como os cientistas políticos Antonio Testa e Paulo Kramer, diplomatas como Paulo Roberto de Almeida e Carlos Henrique Cardim, jornalistas-intelectuais como Jorge Henrique Cartaxo e Thales Guaracy. Daí, passaram a ter agenda própria com VB.

Ontem VB foi silenciado pelos bisturis de uma equipe médica que avaliou este como o único caminho para que possa prosseguir respirando. Sei que, com alguns amigos, vai continuar se comunicando por meio de códigos com os olhos, previamente combinados. Soube apenas de dois. Se piscar o olho direito, é "eu te amo". Quando piscar o esquerdo, é "vá tomar no cu".

Eis o que sei de VB.