6 Jun 2020

Vai dar m...

Por   Sáb, 23-Mai-2020

A política brasileira vira briga de cortiço 

Quando criança, eu ficava impressionado com as brigas que estouravam nos vários cortiços do meu bairro. Vinha rádio patrulha e não raro os meganhas eram obrigados a descer a borracha para conter os ânimos. Tudo isso ilustrado por um festival de impropérios e palavrões cabeludos. Parecia uma reunião ministerial de hoje.

Dessa época, me lembro dos embates entre janistas e ademaristas. Famílias inteiras eram janistas. Porteira fechada. Outras eram ademaristas. Não importavam as denúncias de improbidade contra Adhemar de Barros. Seus fiéis seguidores se defendiam com um “rouba, mas faz”. Não pesavam nada as maluquices janistas. Proibição do biquíni nas praias paulistas e da abertura de supernercados, que segundo ele misturava secos com molhados. Como se os arnazéns e vendinhas de esquina já não praticassem isso desde sempre. Seus eleitores logo assumiam suas sandices como se fossem as medidas mais sensatas.

Essa paixão política, que nos últimos tempos tem-se verificado na devoção a Lula e a Bolsonaro, lembra muito a paixão futebolística. Nem uma goleada, um rebaixamento de divisão, a ausência de conquistas diminuem a paixão do torcedor. Há torcidas fanáticas de times que nunca ganharam um campeonato. Mas, ainda assim, a paixão política supera a dos torcedores de futebol.

Estes, quando o time vai mal, vaiam, abandonam os estádios, exigem a cabeça do técnico, a venda de jogadores, a cassação do presidente. O fanático político-ideológico não. Votou no sujeito, então não há crime que ele cometa que convença essa gente a criticá-lo. Eis a verdade patética: o eleitor fanático faz o torcedor de futebol parecer inofensiva macaca de auditório. 

Esse comportamento alienado está por trás da insanidade que mina nossa vida democrática. Sob o petismo, não foram poucos os casos de intolerância e agressão física e verbal a opositores e à imprensa. Os barracos aconteciam com alguma frequência, bem como ameaças de todo tipo.

Sob o bolsonarismo assistimos a repetição disso. Com a agravante de que setores mais radicais portam armas, tramam ataques à autoridades e às instituições. Fomentam abertamente o golpe, sempre colocando suas fichas nas portas da caserna. É uma gente estranha, que reúne de setores evangélicos ao lúmpen, este sempre pronto a aderir a alguma causa que mascare sua vida fracassada. E passando por uma elite ignorante que usa o fantasma do comunismo para exaltar seu irmão de sinal invertido, o fascismo.

Durante muito tempo, petistas e aliados mais radicais promoviam uma guerrilha na internet contra quem pensava diferente. Com fake news em grande volume, perseguição nas redes sociais ou ataques a manifestantes da oposição, os bolsonaristas estão superando em selvageria os militante das esquerdas. Interferem em conversas alheias no Facebook, fazem ameaças no privado e tumultuam debates sérios com palavrões e seus indefectíveis erros gramaticais. Uma marginália desqualificada, que se julga melhor que a esquerda pelo simples fato de ser de direita.

As instituições estão funcionando, a despeito das tentativas de controle do Planalto. Promotores de eventos que pregam golpe de estado estão sendo investigados pela Polícia Federal. Bolsonaristas que fizeram manifestação ofensiva em frente à casa de ministro do Supremo foram indiciados.

No início do mês de maio, um comando de militantes com roupa camuflada exortava o povo a invadir o Congresso e o STF. A polícia está verificando. Por esses dias, a Polícia Federal estourou um “aparelho” de subversivos direitistas com variado material de pregação golpista e proselitismo político radical. Essa gente tem provocado confrontos e já começa a atrair sectários do outro lado para embates de rua.

Há duas semanas vimos torcedores organizados de um time de futebol confrontando e impedindo manifestação direitista na Avenida Paulista, em São Paulo. Seria comédia de pastelão, se não anunciasse uma tragédia. O que deveria ser um confronto de ideias ameaça virar uma briga de marginais dos dois lados.

A história do Brasil está cheia de casos de insurrecionalismo e golpismo. Revolução e golpe. E os resultados costumam ser sangrentos. Mas há hoje um componente especial, que rebaixa o nível ideológico, mas pode incrementar a virulência da disputa. Trata-se do ingrediente lúmpen na receita.

Nesse pormenor, as torcidas organizadas, embora representativas do segmento social, aparece apenas como traço estatístico (pelo menos por enquanto). O elemento marginal mais perigoso nesse confronto de insanidades passa pelas milícias, por comandos de bandidos comuns e grupos políticos radicais. E não se pode minimizar a influência de reacionários de grossos óculos que moram com a mãe, não pegam ninguém e postam vídeos na internet prometendo matar opositores do capitão. E malhadinhos de academia que agridem até trabalhadores da saúde que cuidam de pacientes da Covid-19.

Pandemia e a crise econômica profundamente agravada por ela criam o cenário perfeito para o surgimento cada vez mais perigoso desse desarranjo social que pode descambar em ruidosa e generalizada pancadaria. Estão sendo criadas as condições objetivas, o caldo de cultura, para dar merda.

Tapem o nariz e corram para as montanhas!