23 Jul 2019

Uma babel política

Por   Qui, 16-Mai-2019
Manifesto pela Educação: boa causa, números enganosos Manifesto pela Educação: boa causa, números enganosos

O que importa no mundo de hoje é a narrativa, não os fatos

A pesquisadora brasileira que foi badalada por ter saído das camadas mais pobres da população para um pós-doutorado em Harvard foi desmascarada pela reportagem do Estadão.

Além de mentir, ela havia mandado para o jornal um diploma falso para comprovar sua passagem pela conceituada universidade localizada em Cambridge, Massachussets, onde teria vivido por dois anos. Outro delírio da moça.

Pega na fantasia, admitiu tudo, mas não chamou o que fez de mentira: “A gente se empolga e acaba falando demais”, tergiversou a química brasileira. Sua vida era digna e sua carreira admirável mesmo sem o bafo de boca fantasioso que nela introduziu. Mas em vez de botar o galho dentro, ou seja, assumir o erro, criou uma narrativa para amenizar a barra.

Não foi empolgação, foi empulhação no atacado e no varejo, incluindo a conversa fiada de que entrou na universidade aos 14 anos. Mas ela construiu sua narrativa, até para seguir em frente em meio ao vendaval.

Promotores do movimento contra o contingenciamento de verbas da educação calcularam em 100 mil o número de manifestantes nas ruas de Fortaleza. A polícia calculou a massa em 2 mil. Os manifestantes e parte da imprensa falam em cortes na Educação, mesmo sabendo que o que houve foi um necessário contingenciamento, não de cerca de 20%, mas de menos de 4%, dos recursos destinados ao setor no orçamento.

A parte do orçamento destinada à educação é definida pela Constituição. Logo não é possível haver cortes nessa conta. O que está por trás da disparidade no cálculo de manifestantes e no rótulo da medida do governo é a tal da narrativa, um treco que tomou lugar dos fatos, entre nós.

Não importa a realidade, mas as versões. Assim, governistas e oposicionistas tentam convencer a opinião pública de que eles é que dizem a verdade. Quando cada um tem a sua verdade, é bem provável que ela não esteja com ninguém.

Lula foi condenado em três instâncias do Judiciário, mas seus defensores insistem na tese da falta de provas. Eles sabem que Lula se corrompeu. Fundadores do PT, como o cientista político Cesar Benjamin, o sociólogo Francisco de Oliveira e o jurista Hélio Bicudo, já haviam denunciado o desvirtuamento do partido sob comando do sapo barbudo, rendido às tentações do dinheiro farto e fácil. Mas os partidos e militantes avulsos de esquerda mantêm a narrativa da falta de provas. Até tucanos, que hoje se sabe de plumas enlameadas, deram para defender a mesma chorumela. Os fatos se tornaram meros detalhes.

Foi-se tempo no qual havia o certo e o errado, o feio e o belo, o bom e o mal, a arte e a garatuja. A regra já não é clara. Estamos precisando de um VAR ( Video Assistant Referee), o tal árbitro de vídeo, para checar as notícias que pululam nas redes.

Emissoras de TV, jornais e revistas já investem no recurso, que chamam de caça às fake news. Mas muitas vezes o que conseguem é uma nova narrativa, na qual acreditará quem quiser ou for por ela favorecido. Foi-se a época do preto no branco.

Isso só é possível porque os formadores de opinião, que funcionavam como balizadores da veracidade dos fatos, perderam a função. Desistiram em nome de uma pluralidade de opiniões, como se fatos estivessem sujeitos às interpretações prêt à porter.

Alguns o fizeram como estratégia de sobrevivência. Numa época distante, papagaio, barrilete, quadrado, cafifa, pandorga eram empinados pela garotada de norte a sul do país. A Globo, em rede nacional, impôs o termo pipa. O nome fluminense para o brinquedo. Era assim na moda, na música, em tudo que a rede poderosa de televisão tocasse, para o bem e para o mal.

Por esta razão, foi acusada de alienar a massa e atentar contra os costumes. Hoje, a TV não pode mais ser acusada de desvirtuar as coisas. Pelo contrário. A moda, a música e as polêmicas abordadas pela emissora na programação são achadas nas ruas. É preciso estar em sintonia com a massa. Notadamente numa época em que o público mais sofisticados abandonou a TV aberta.

A imprensa escrita foi pelo mesmo caminho. O povo agora só fica de fofoca nas redes? Vamos ganha-lo com fofocas. A pauta que faz é o freguês. Ele é que forma a opinião da imprensa. O que explica a debandada da imprensa conservadora para a canhota.

As redes sociais, num mundo de inclusão digital massificada, ajudou a diluir a influência dos formadores de opinião nos quais os menos informados iam buscar uma luz para clarear os caminhos. O achismo finalmente prevaleceu. Qualquer idiota opina sobre os assuntos mais complexos. Nesse caldo de incultura, tudo é válido, cada qual com sua narrativa.

Qualquer zebedeu pode ostentar um ponto de vista sobre o tema que quiser, mesmo sem dominar o assunto. A Terra é plana, vacina provoca a gripe e quem me incomoda é comunista ou fascista, mesmo que seja um budista. Opinião é como bunda, cada um tem a sua. Até eu. O resultado é isso daí, tá oquei?