6 Jun 2020

Um golpista eleito pelo povo

Por   Seg, 20-Abr-2020

As vivandeiras voltam a rondar os bivaques e recebem o afago de um presidente destemperado

Quer dizer que o presidente compareceu a uma manifestação que pedia a intervenção militar? Um apoio explícito ao golpe de estado? Um auto-golpe que obviamente o mantivesse, megalomaníaco, no comando com poderes totais.

Não é preciso ser expert em Constituição para saber que há crime nesse cenário. E o valente que dá moral às vivandeiras a rondar os quartéis pedindo golpe na democracia, retira a faixa presidencial e desce ao rés do chão para babar contra as instituições que jurou defender.

Os paus-mandados do bolsonarismo atacam os poderes da República. STF, Senado e Câmara são corruptos e deveriam ser fechadas, e seus integrantes presos. São todos corruptos? Acontece que não são. Nefastos os há por lá como em todos os setores da sociedade. Inclusive nas Forças Armadas. Há muitos defeitos, muitos não passam no teste da farinha da retidão. Mas todos têm legitimidade. Assim como o pateta-mor, deputados, senadores e governadores, alvos das doidivanas bolsonaristas, foram eleitos pelo povo. E o voto é sagrado.

A democracia padece de fraquezas em países de pouco desenvolvimento cultural e educacional. Mas é o único caminho. E é o caminho justo. Como conviver com uma democracia falha, cheia de escândalos de corrupção? Da forma como vimos vivendo. Investigando, processando e condenando os corruptos. O Mensalão e o Petrolão mostraram o caminho. Figurões do meio empresarial foral presos, de cambulhão com estrelas dos partidos envolvidos. Até ex-presidente e governadores dançaram bonito.

No entanto, o que pregam os golpistas de agora? Uma intervenção militar que acabe com a corrupção. Ou seja, que oprima todos os que se neguem a dizer amém ao poltrão no comando, pois é claro que corrupção é só uma desculpa, já que ela vem sendo combatida por uma Polícia Federal investigativa, um Ministério Público dedicado e uma Justiça séria. E essas instituições tem atuado sob os mais diversos governos e mesmo à revelia desses.

Ainda que o problema fosse o combate à corrupção, quem disse que uma ditadura militar garante o seu fim? Nos 23 anos que durou a última, se solidificaram algumas das oligarquias mais corruptas deste país. Sem contar ministros dos 10%, que obrigavam os fundos de pensão dos trabalhadores de estatais a investir em papéis podres de empresas falidas. Isso tudo sob barbas reiunas. Então, não me venham de chorumelas!

Se não se trata da corrupção, o que querem esses energúmenos? Impedir que o comunismo tome conta do país? É um dos mantras dessa gente. Mas qual comunismo? Esse regime vetusto foi para o beleléu no mundo todo. Só sobrevive como resquício em Cuba e à vera na Coréia do Norte.

Nem a China comunista é comunista. É uma ditadura de partido único e esse partido, por acaso, é o comunista. Mas há muito a China se converteu ao capitalismo, que a tirou das trevas do atraso maoísta para o posto de segunda maior potência econômica mundial. Então, tirante a paranóia de alguns arautos da ditadura, não há quem julgue razoável uma intervenção militar no Brasil.

O que fazer diante do despautério representado pelo endosso do presidente à movimentação dessas vivandeiras que voltam a rondar os bivaques? Só uma coisa: abrir processo para sua responsabilização por participação num movimento golpista contra a democracia. A única intervenção militar que a nação e a Constituição aceitam é a do general vice-presidente, em substituição ao titular caso este seja cassado por crime contra a democracia. Tudo dentro da lei e em respeito à Carta.