17 Out 2019

Todos tentam desqualificar a imprensa

Por   Seg, 16-Set-2019
Greenwald e Bolsonaro: algo em comum Greenwald e Bolsonaro: algo em comum

O dono do site The_Intercept, Glenn Greenwald, que publicou material gravado ilegalmente por hackers dos celulares de promotores da Lava Jato, agora vitupera contra a imprensa, por cobrir as suspeitas movimentações de dinheiro nas contas de seu companheiro, o deputado federal do PSOL David Miranda.

Greenwald disse saber "exatamente quem são os corruptos" no caso. "Não é David Miranda, são os procuradores do Ministério Público e os repórteres e editores de O Globo, que publicou um artigo lixo”, afirmou.

Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, encaminhado ao Ministério Público do Rio de Janeiro, David Miranda teria movimentado 2,5 milhões de reais num curto período - dinheiro vindo em grande parte de depósitos feitos em dinheiro vivo.

É o mesmo tipo de operação colocada sob investigação no gabinete do senador Flávio Bolsonaro quando deputado estadual do Rio de Janeiro, e que os Bolsonaro também classificam como uma fantasia da imprensa em conluio com a Justiça, igualmente tendenciosa.

Greenwald não estava preocupado com a maneira pela qual a informação foi obtida quando começou a publicar as conversas grampeadas de promotores da Lava Jato. Quando a TV Globo mostrou o caso sobre seu companheiro, porém, questionou a origem do material e acusou a emissora de "parcialidade".

Resta saber o que significa, para ele, imparcialidade. The_Intercept nunca fez uma reportagem sobre a corrupção na era do PT. Ao contrário, dedica-se apenas a investigar seus investigadores, incluindo membros do Judiciário.

A postura unilateral não invalida o material sobre a Lava Jato. Mostra, porém, que Greenwald não é exatamente um defensor da liberdade de imprensa, como alega em seu próprio favor.

“Nenhum jornalista deve ser acusado sem provas por realizar seu ofício de divulgar informações", afirmou em nota a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. "Lamentamos que um jornalista lance mão de expedientes dos quais ele próprio é vítima frequente — acusações e descredibilização — contra outros colegas, ultrapassando o limite da crítica ao trabalho feito.”

"É jornalista?"

O presidente Jair Bolsonaro aproveitou a discussão para também desqualificar o The_Intercept e seu dono. "O Greenwald é jornalista?", disse o presidente. "Ele é militante." Bolsonaro tem razão ao criticar a parcialidade do The_Intercept - mas também tem procurado negar a realidade, atribuindo as más notícias com seu sobrenome a uma falsificação da imprensa.

Tem como alvo sobretudo a investigação sobre as contas de seu filho Flávio e de seu ex-assessor, Fabrício Queiroz, que gerenciava as contas do gabinete e é amigo e colaborador do presidente desde os tempos de Bolsonaro como capitão paraquedista.

"Enquanto lutamos entre nós o inimigo se fortalece", escreveu o presidente no Twitter, da sua cama de hospital, na última quinta-feira, dia 12. "Não temos como agradar a todos, vasculham minha vida e de minha família desde 1988, quando me elegi vereador."

É mesmo obrigação da imprensa vasculhar a vida de ocupantes de cargos públicos, seja o presidente, seja um deputado, como David Miranda, independentemente de partido ou posição política. Bolsonaro, porém, assim como Greenwald, acha que imprensa boa, ou patriótica, é aquela que atira para um só lado - desde que seja para o oposto.

"Nossa inimiga: parte da GRANDE IMPRENSA", escreveu, assim mesmo, em letras maiúsculas. "Ela não nos deixará em paz. Se acreditarmos nela será o fim de todos".

O presidente reclamou mais uma vez da "imprensa sem limites" depois que a revista Época publicou uma reportagem sobre Heloísa Wolf Bolsonaro, sua nora, mulher de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro. Relata conversas entre Heloísa e um repórter, que se inscreveu no seu curso como suposto cliente. Heloísa é psicóloga e coach de carreira. "O que deveria ficar apenas entre os dois, por questão de ética, agora vem a público”, reclamou o presidente.

É comum a reportagem ludibriar restrições para mostrar a realidade, qualquer que seja o caso. Graças a essa imprensa inconveniente para muitos que se descobre o que as autoridades não gostam de ver à luz. Para Bolsonaro, porém, com ela o "Brasil vai chegar à situação da Venezuela. É isso que a grande parte da grande imprensa brasileira quer. E fica o tempo todo de picuinha, fazendo campanha contra o Brasil."

É bom lembrar que na Venezuela não há liberdade de imprensa, sobretudo a investigativa. E que imprensa patriótica não é a que defende o presidente, e sim a liberdade democrática.

Fiscalizar o governo, tarefa que lhe valeu o epíteto de “o quarto poder”, é um princípio inerente da imprensa livre, mantido por garantias constitucionais que fazem a diferença entre uma ditadura como a venezuelana e uma democracia, como o Brasil.

Talvez seja duro, tanto para Bolsonaro quanto Greenwald, entender que a imprensa tendenciosa, que olha para um lado só, é justamente o que está por trás de ditaduras, seja de direita ou de esquerda. E também lidar com os erros da imprensa, que às vezes realmente acontecem. 

Claro, a imprensa também erra. Quando erra, porém, admite o erro. Foi o que aconteceu com Época, que emitiu um pedido de desculpas público, por apenas expor Heloísa Bolsonaro, numa reportagem que acabou não trazendo qualquer informação de relevância  pública. Num processo mais rigoroso de edição, teria sido engavetada.

Essa é a diferença entre a imprensa profissional e a imprensa tendenciosa, que nunca está errada, e só vê como acerto aquilo que se alinha com seu filtro ideológico ou projeto de poder.

Uma regra de ouro do jornalismo profissional é a de que todos devem ser investigados, sem distinção de partido ou ideologia. Mesmo dos bons, ou daqueles que prestam algum tipo de serviço valioso à Nação, o que não lhes dá o direito de escapar às regras, incluindo as da democracia.

Reconhecer o erro e respeitar o diferente é sempre um exercício de democracia e tolerância. Infelizmente para os intolerantes, a liberdade, no final, é a única tendência que sempre vence. Dessa forma, quanto mais gente acusa a imprensa livre de injustiça ou abuso, mais se tem a certeza de que ela está fazendo o seu trabalho.