15 Nov 2019

Sou de direita ou de esquerda?

Por   Sex, 26-Abr-2019

Esses conceitos envelheceram e já não refletem com precisão o mundo real

Expressões surgidas na Revolução francesa de 1789, direita e esquerda já foram termos que expressavam claramente os dois polos do espectro político de qualquer sociedade moderna. Mas hoje se tornaram vetustos conceitos que pouco explicam.

Durante mais de século, a direita era identificada com o capital e a burguesia, a esquerda com o trabalho e a classe operária. Mas hoje a coisa está bem embaralhada.

Alguns dos colecionadores de capital mais poderosos são fundos de pensão de trabalhadores. E algumas das maiores corporações capitalistas tem sua posse pulverizada em milhares de acionistas, alguns deles pequenos investidores, que não podem ser chamados de burgueses.

Na França revolucionária, eram esquerda os jacobinos, radicais que se sentavam nesta posição na Assembléia Nacional, enquanto a ala direita era reservada aos girondinos, liberais. De lá para cá, os Josés Dirceus da história, jacobinos, carregaram a pecha de esquerdistas, enquanto os liberais como Roberto Campos ficaram marcados como direitistas.

A esquerda queria fazer a revolução social e destruir o conceito de propriedade privada, que para a direita era sagrada. Para a esquerda, a conquista do Estado era necessária para impor as mudanças rumo ao socialismo, que começava pela estatização da propriedade privada. A esquerda tinha o Estado como condutor dos destinos dos povos. A direita tinha o mercado como centro dinâmico do desenvolvimento.

O projeto da esquerda era uma elaboração teórica, voluntarista, criado por cabeças supostamente iluminadas, do socialismo utópico ao socialismo científico dos marxistas. A direita não tinha um modelo pré-fabricado no qual enquadrar as nações.

Ela acreditava no mercado como fator dinâmico no desenvolvimento da sociedade que, ao contrário do preconizado pela esquerda, não era fruto de um modelo idealizado pelos homens, mas resultado natural das relações sociais num ambiente de liberdades individuais, livre iniciativa e respeito à propriedade.

O grosso das correntes de esquerda abriu mão da revolução pela violência política e adotou o caminho da luta ideológica no âmbito da educação e da cultura. Nesse sentido, deslocada e multifacetada, a esquerda dividiu a preocupação em relação às classes sociais com um sem fim de frentes de luta.

Já que a velha classe operária se diluiu num mar de novas tecnologias, focaram em grupos sociais, implementando uma pauta identitária. Defesa do feminismo, combate ao racismo e à homofobia, incentivo à formação de coletivos de todo tipo, de escritores de classe média a rappers da periferia (é bom destacar que são os coletivos que recebem dinheiro e armas para defender a ditadura venezuelana).

Com essa estratégia cooptou do intelectual de classe média ao lúmpen, desprezado pela velha classe revolucionária.

Mas ser de esquerda ou de direita não se resume a apoiar ou não essa luta identitária. Há outras causas causas, como o aborto, o desarmamento, a maioridade penal, a liberalização das drogas e a doutrinação política em sala de aula.

A patrulha ideológica não perdoa. Rotula de direitista não apenas quem defende o capitalismo liberal, mas também quem é contra a legalização do aborto, defende o acesso do cidadão a armas, a proibição das drogas etc. Mas será que as coisas são simples assim?

Eu sou liberal em economia, em política e nos costumes. Acho que o cidadão deveria ter o direito de se envenenar com a droga que quisesse se responsabilizando pelos estragos que ela pudesse causar a si mesmo e a terceiros. Com relação ao aborto, acredito que se possa ser contra o ato e a favor de sua descriminalização. Ou simplesmente ser a favor da descriminalização.

Cada mulher que decida segundo suas crenças e convicções. E só a ela deveria caber a decisão, nem o marido deveria ser ouvido, obrigatoriamente. Sou radical. A mulher é quem vai carregar a barriga inchada e vai encarar as dores do parto. E será a ela que a criança estará ligada para o resto da infância e adolescência, pelo menos. Ela que decida.

Com relação ao racismo, à homofobia e à violência contra a mulher, leis duras e proteção às minorias e maiorias (mulheres) vulneráveis. Quanto às armas, acho razoável que o cidadão tenha o direito de manter em casa uma para defesa de sua família e de seu lar. Mesmo sob risco de dar um tiro no próprio pé.

Agora, me respondam! Sou de esquerda ou de direita?