17 Nov 2019

Soberania internacional sobre a Borgonha

Por   Ter, 27-Ago-2019
Roquefort: esse queijo é nosso Roquefort: esse queijo é nosso

Caro presidente Macron,

Em reunião extraordinária, o G10 considera que os vinhos da Borgonha são patrimônio universal, indispensável para a Humanidade. E portanto a França deve aceitar uma soberania relativa desse território, de importância que vai além de suas fronteiras.

O G10 considera que Paris é também patrimônio de todo o mundo, incluindo seus edifícios, monumentos e instituições, como o Louvre, a Notre Dame e a Torre Eiffel. São marcos civilizatórios cuja proteção cabe a toda Humanidade.

A França não tem cuidado tão bem de obras que pertencem à civilização universal. A Notre Dame, recentemente, foi devastada por um incêndio. Este não se deveu às estações do ano, nem foi numa floresta distante. Aconteceu ali, na Île-de-France, graças ao descaso dos franceses na preservação da catedral, obra que pertence aos católicos de todo o mundo e agora conta com ajuda mundial para ser restaurada.

Não é da França o queijo Roquefort: é de todos nós. Assim como o Panteão. Sartre é do mundo. E a Cote d’Azur? Deve ser preservada a qualquer custo.

Achamos que os franceses devem aceitar a ingerência internacional naquilo que é estratégico. Duvidamos da capacidade francesa de proteger um patrimônio que não pode ser exclusivamente seu - e que frequentemente não é mesmo.

Picasso, por exemplo, era espanhol. A Mona Lisa, de Da Vinci, nasceu italiana. A França já teve que devolver a Veneza os cavalos originais da catedral de San Marco, roubados por Napoleão, para enfeitar com eles seu arco do triunfo.

E o obelisco egípcio na Place de La Concorde? Também roubado. Ou os franceses o devolvem ao templo de Luxor ou terão de aceitar a internacionalização da praça, assim como a ingerência multilateral em toda Paris.

Proclamamos soberania internacional ainda sobre o Bois de Bologne, que colabora para o mundo respirar. Sobre a Provence, que dá trufas e vinhas indispensáveis para o globo. Catherine Deneuve e Gerard Depardieu não têm pátria, são globais.

Senhor Macron, G10 é meu grupo de confrades, que se reúne uma vez por mês para beber vinho há quase vinte anos. Gostamos da França provavelmente tanto quanto o senhor, razão pela qual oferecemos nossa ajuda para administrar isso daí. Muitos de nós, brasileiros, incluindo eu, fomos à França mais vezes que à Amazônia, onde só tem mato, papagaio e jacaré. E cada um fala mais sobre o que conhece, não é?