30 Mar 2020

Sete refeições por um cafezinho

Por   Qua, 27-Nov-2019

Um programa que parece enredo de Carnaval: bom, bonito e barato

Parado no trânsito diante do Bom Prato, em Santana, vi uns sem-teto namorando a fachada do outro lado da rua. O letreiro dizia 1 real o almoço e 0,50 o café da manhã.

Eu levava 7 reais em moedas de um real para facilitar o pagamento do cafezinho na Ofner (mais de 6 reais). Chamei um dos cidadãos “em situação de blá blá blá” e perguntei-lhe se iam almoçar. Queriam, mas estavam duros.

Dei-lhe as moedas, ele chamou outros seis companheiros de dureza, atravessaram a rua em direção à fila do restaurante, onde dividiriam um bom rango com desempregados, ambulantes, pequenos funcionários do comércio e casais de aposentados, todos sobrevivendo daquele benefício que custa um sétimo do meu espresso.

Um real. Se fosse de graça, os sem teto lá estariam da mesma forma. Mas os aposentados provavelmente teriam vergonha de entrar na fila. Um real não paga nem a energia do prédio e é um preço que se mantém desde de a inauguração do serviço, em 2000. Não alivia a conta do governo do Estado. Mas tem uma função importante. E um recado: não existe almoço grátis.

Dentre os programas sociais, esse, do governo estadual paulista, é um que mexe comigo. O objetivo é beneficiar “moradores de rua, população de baixa renda, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade social”.

 É bom e barato, praticamente de graça. E viabiliza a vida de pessoas que de outro modo comeriam mal ou comprometeriam quase todo o orçamento com alimentação. O pagamento mínimo serve para lembrar que tudo tem um custo e que alguém paga pela diferença.

O cardápio é balanceado, com arroz, feijão, saladas, legumes, um tipo de carne, farinha de mandioca, pão, suco e uma sobremesa. O café da manhã tem café com leite ou achocolatado, iogurte, pão com margarina, requeijão ou frios e uma fruta da estação.

São 52 unidades no Estado, 22 delas na capital. Além de internet gratuita, algumas delas contam com cursos de qualificação e outros serviços. Ainda é um programa relativamente pequeno, mas já atende a perto de 100 mil pessoas por dia. Até aqui, já foram servidas cerca de 200 milhões de refeições a um custo de 500 milhões de reais, incluindo nesse gasto a instalação e revitalização das instalações. O equivalente ao que três ou quatro corruptos devolveram em acordos com a Lava Jato.

O problema da pobreza extrema pode ser cotejado com programas desse tipo, mormente em tempos de crise e desemprego. Precisa ser descentralizado e em sintonia com produtores locais. Poucos países tem uma rede de proteção e atendimento social da extensão do brasileiro.

A começar pelo sistema público de saúde, que tem muitos defeitos mas compõe uma rede de atendimento que muito país de porte econômico superior não tem. Programas sociais são necessários, e são uma prova de que o sistema tem falhado em oferecer trabalho para todos e que o ideal é chegar ao ponto em que se tornem desnecessários.

Programas como o Bom Prato vão se espalhando pelo país, sob patrocínio de prefeituras e governos estaduais. Infelizmente, muitas vezes servindo para que vivaldinos se locupletem. Não são poucos os desvios de finalidade, do eleitoreiro à roubalheira. O que não invalida nem diminui sua importância.