23 Jul 2019

Saída para a crise depende de estabilidade

Por   Qui, 16-Mai-2019

As manifestações de rua, as investigações sobre as contas da família e o destempero verbal não seriam tanta ameaça para o presidente Jair Bolsonaro se, como ocorre com Donald Trump nos Estados Unidos, a economia andasse às mil maravilhas. Pior: no caso brasileiro, a economia só voltará a andar se o governo demonstrar um pouco de equilíbrio e estabilidade - tudo o que lhe faltou em cinco meses de ação.

O ministro da economia, Paulo Guedes, se concentrou na elaboração de uma reforma previdenciária cujo efeito, caso aprovada, somente se dará a longo prazo. O que pode reverter a mais curto prazo o quadro da economia brasileira, cujo crescimento foi reduzido para menos de 2% e pode acabar em mais séria recessão, vem de outro lugar.

O governo pode fazer cortes, mas estes se tornam cada vez maiores na medida em que a arrecadação cai junto com a atividade econômica, aumentando um buraco que se só traz mais recessão.

Só existem duas ações capazes de reverter esse círculo vicioso. Uma delas é trazer de volta os investimentos privados, tanto do empresariado nacional quanto dos investidores estrangeiros.

O setor privado brasileiro, apesar da crise, está altamente capitalizado desde que os governos do PT promoveram com dinheiro público o consumo das classes de renda mais baixa, criando uma gigantesca transferência de renda do Estado brasileiro para o bolso do empresariado.

Para trazer o dinheiro de volta, o governo só tem duas saídas. A primeira delas é oferecer um mercado atrativo ao investimento. Para isso, é necessário criar um ambiente de tranquilidade, que sugira menor risco. Razão pela qual Bolsonaro vem se tornando a maior ameaça à sua própria administração.

Caso não consiga se controlar, o presidente estará mesmo arriscado a sofrer uma dessas manobras que a elite político-empresarial sabe fazer tão bem para atirar fora presidentes inconvenientes.

Outra medida inescapável para tirar o Brasil do buraco é reduzir os juros e taxar os bancos, algo que ninguém até hoje se atreveu a fazer. É inaceitável que um país cujo Estado se encontra em frangalhos e onde a população se espalha faminta pelas calçadas tenha um pequeno grupo de bancos registrando lucros recordes ano atrás de ano.

A conta mais importante que sufoca as finanças do Estado brasileiro hoje não é a da previdência, e sim os juros da dívida pública. Reduzir os juros e chamar os bancos a dividir conosco a realidade brasileira é tarefa imperiosa.

Ocorre que o ministro Paulo Guedes, oriundo do sistema financeiro, talvez não seja a pessoa mais indicada para atacar um setor onde estão seus negócios privados. É um conflito de interesses no qual Bolsonaro deveria ter pensado antes de colocá-lo no cargo.

Com juros menores, o governo terá de novo recursos para suas atividades essenciais, incluindo áreas que não podem ser prejudicadas, como as Forças Armadas, que sofreram um contingenciamento de 44% de seus recursos para este ano, e a Educação, que perdeu 30%.

Com estabilidade, Bolsonaro poderia atrair novamente o dinheiro que voou para o exterior e convenceria o empresariado que o apoiou contra Lula de que não haverá riscos num país pacificado e vacinado contra o lulopetismo.

Infelizmente,o mais simples é neste momento o mais complicado. Parece ilusório pedir ao presidente que se comporte. Bolsonaro queria o poder, claro, para tomá-lo e exercê-lo. Melhor faria, porém, se ele se se tornasse uma rainha da Inglaterra, surgindo apenas para acenar à multidão em carro aberto.

Caso ele insista em achar que vai levar adiante suas ideias mais extravagantes, e ficar atraindo ódio, os holofotes jogados sobre ele, inclusas as contas bancárias e as relações de sua tropa familiar com os milicianos do Rio de Janeiro, farão o trabalho de queimá-lo.