6 Jun 2020

Saiam de casa, Bolsonaristas!

Por   Qui, 30-Abr-2020

Enfrentem como machos essa gripezinha chinesa!

Uma proposta aos bolsonaristas renitentes. Vão pra rua! Não tenham medo da gripezinha! Enfrentem o demônio como homens. Estão com medinho? Sejam machos! Vocês nadam no esgoto e não pegam nada. Não liguem pra gente.

Caminhamos rápido para 1.000 mortes ao dia. Desde o primeiro caso, levamos 40 dias para chegar a 1000 mortos. Sete dias depois, chegamos a 2000. Mais cinco dias e batemos 3000. Três dias mais, 4000. E assim, de um dia para o outro fomos indo além dos 5000 mortos e tudo indica que passaremos do dobro disso no começo de maio.

Uma catástrofe. Mas não é nada que assuste um bolsonarista raiz. Vão pra rua!

Como chegamos a tal loucura em plena pandemia? Por que essa divisão tão ampla entre povo e governo? Entre ciência e populismo? Entre evidências e especulação. Entre dados concretos e chutes irresponsáveis? E como espessas camadas sociais ainda refutam qualquer tentativa de crítica ao ferrabrás de Eldorado?

Desde o início do governo, ou mesmo até antes da posse do novo presidente, já estavam plantadas as sementes desse desatino. Foi um preço alto que boa parte do eleitorado pagou para se livrar de mais quatro anos de PT, depois de quatro mandatos encerrados melancolicamente.

La atrás, Bolsonaro já apresentava uma característica dos déspotas, que desconfiam das sombras, acham que há um conspirador em cada canto e não confiam nem na própria mãe. Trata-se de um estado que exige análise psicológica profunda. As revoluções costumam devorar seus filhos. Mas espíritos autoritários não precisam de uma revolução para entrar em alerta paranóico.

Como exatamente chegamos ao momento atual? A coisa vem de longe. O advogado Gustavo Bebianno abandonou tudo para se dedicar à campanha da eleição do presidente. Com a queda de Luciano Bivar, bombardeado pela tropa de assalto bolsonariana, Bebianno assumiu a presidência do PSL. Esteve leal ao presidente até a medula, mas foi rifado logo no inicio de seu governo.

Morreu em março deste ano, mas tempos antes enviara ao ex-amigo uma carta na qual relatava sua trajetória e suas mágoas com a ingratidão de que fora vítima. Foi só o começo. Logo Bolsonaro se livrou também do próprio PSL, o partido pelo qual foi eleito. Com a luxuosa colaboração de seus filhos e do astrólogo-filósofo de Richmond, foi botando pra fora do governo outros apoiadores.

O general Carlos Alberto dos Santo Cruz, apresentado pela imprensa como amigo de décadas do presidente, também acabou defenestrado do cargo de ministro-chefe da Secretaria de Governo da Presidência da República, depois de sofrer uma campanha feroz das hostes ideológicas do bolsonarismo nas redes sociais.

Herói de missões no Haiti e no Congo, sucumbiu à selva plantada em Brasília por Bolsonaro e sua turma. Deputados bolsonaristas foram mandados às favas. De Alexandre Frota a Joice Hasselmann.

Grupos organizados como o Vem Pra Rua Brasil e o Movimento Brasil Livre, que apoiaram a candidatura Bolsonaro desde o primeiro momento, abandonaram o barco, que se tornou um Titanic à caça de iceberg. Artistas como Lobão e Carlos Vereza sambaram fora.

No momento em que a pandemia deu as caras, prometendo dias quentes para o mundo todo, alguns líderes mundiais fizeram pouco da ameaça. Entre eles o presidente Donald Trump, o britânico Boris Johnson e Bolsonaro.

Logo os dois primeiros, assustados com o tamanho da encrenca, cederam ao poder devastador do vírus e mudaram de posição, recomendando isolamento social. Menos nosso presidente, que de olho no termômetro da economia, que poderia empedrar seu mandato, manteve teimosamente a tese de que isolamento social é bobagem.

No meio da crise, um nome se destacou. O do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Didático e em sintonia com as recomendações médicas e da Organização Mundial da Saúde, o ministro ganhou notoriedade provocando ciúme no presidente. A grande aprovação, o sucesso de crítica e de público do ministro, deu-lhe comichões.

Como se sabe, Bolsonaro não passa vontade. Puxou o tapete do homem. E não parou por aí. Depois de mandar Mandetta para casa, chutou Sergio Moro, fiador moral de seu governo, e outro que lhe bate feio nas pesquisas de opinião, e humilhou (esse merece) o Onyx Lorenzone algumas vezes. Tentou mandar para o almoxarifado o vice Mourão, mas aí o buraco é mais em cima.

Capitão não mexe com general, ainda mais general com mandato e apoio popular. Todos os que se tornam próximos dele acabam defenestrados sem dó nem piedade. Um desvario incompreensível.

Se todas essas pistas estão escancaradas, qual a razão para tanta gente ainda achar que desse mato sairá coelho? Não há o que esperar, nada com que contar, vindo do Planalto. No entanto, há uma fatia, cerca de um quarto do eleitorado, que se mantém fiel ao homem e não aceita nenhuma crítica dirigida a ele. Gente que vai se transformando num bando de radicais desesperados, prontos para tudo. Inclusive para o sacrifício.

Esta semana chocou ver mulheres enroladas na bandeira nacional prostradas diante do Palácio, orando e chorando, pedindo apoio do sagrado ao presidente. Ora, saímos do campo da racionalidade para o mágico, o irracional. Da convicção política para a fé. Já que é inevitável, não vamos contrária-los. Que saiam! Vão para fora do isolamento que tanto condenam!

É claro que muitos morrerão. Outros terão contato leve com o vírus. Engrossarão rapidamente o contingente dos imunes. Estarão, assim, fazendo algo útil, acelerando a pandemia até uma queda mais rápida da curva de incidência. Passada a desgraceira, poderemos nos juntar a esses heróis numa grande confraternização. Nós os trataremos como nossos salvadores. Vão lá! saiam de casa, voltem às atividades normalmente, como se não houvesse pandemia!

Ajam como homens e mulheres! Encarem a gripezinha e salvem os brasileiros cagões, que temem morrer depois de semanas de torturante agonia. Nós ficaremos por aqui, aguardando a tempestade passar, nos preparando para a retomada, que culminará em 2021 com um grande Carnaval, como ocorreu em 1919, vencida a gripe espanhola. Será a festa da superação.