19 Set 2019

Revanchismo, perseguição, arbitrariedade

Por   Qua, 07-Ago-2019

O presidente Jair Bolsonaro sacou do coldre logo no início da semana duas medidas típicas de governos arbitrários: o revanchismo e a perseguição.

O revanchismo é contra  a imprensa. Em um evento numa indústria farmacêutica em São Paulo, Bolsonaro anunciou que assinou na segunda-feira uma medida provisória por meio da qual isenta empresas com ações em bolsas de valores da obrigação de publicar seus balanços por meio da imprensa. "Quero ver se o [jornal] Valor sobrevive a essa", afirmou.

Mais impróprio que interferir por uma decisão autocrática numa norma do mercado de ações, foi o motivo: assumidamente castigar a imprensa, cortando uma de suas fontes de receita. 

"No dia de ontem eu retribuí parte do que grande parte da mídia me atacou", afirmou o presidente. Disse que o empresariado poderá publicar seus balanços no Diário Oficial a custo zero. E ironizou: "Tenho certeza de que a imprensa vai apoiar essa medida."

Já a perseguição se deu em outra área. Nesta terça-feira, a Petrobras enviou um comunicado ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, cancelando um contrato de prestação de serviços na área trabalhista que a empresa tinha com seu escritório de advocacia. Santa Cruz já tinha sido alvo na semana passada de declarações impróprias por parte do presidente, que sugeriu saber como seu pai, Fernando, teria morrido no tempo da ditadura militar.

O governo poderia alegar que o contrato foi fechado na era do PT para beneficiar um simpatizante de governos passados, já que Santa Cruz chegou a se candidatar a vereador pelo partido no Rio de Janeiro.

Ocorre que o escritório vinha se desempenhando bem em favor da empresa - e, diga-se, contra os trabalhadores. No ano passado, ganhou para a Petrobras uma ação que lhe poupou 5 bilhões de reais, evitando o pagamento de horas extras reivindicadas por funcionários de plataformas off shore.

"Eu salvei a empresa na causa trabalhista mais grave que ela já enfrentou", afirmou Santa Cruz à jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo. "Há claramente uma perseguição política em curso", diz ele, que promete entrar na Justiça agora em defesa própria, com uma ação de reparação de danos.

Bolsonaro nem se deu ao trabalho de disfarçar suas intenções."Eu havia falado já, nem era para ter esse contrato", disse. "Não é porque era ele, é porque a Petrobras não precisa disso: dar dinheiro para um cara da OAB que recebe recursos bilionários e não é auditado por ninguém." De acordo com um WahtsApp que circulou com uma imagem do Portal da transpar~encia, o conrato estava na casa de 1 milhão de reais.

O presidente vem distribuindo sinais de que está tomando gosto pelos pequenos poderes e de que começou a confundir seus interesses pessoais com os interesses do Estado. Na semana passada, afirmou que pode perfeitamente colocar o filho, Eduardo, no comando da embaixada do Brasil nos Estados Unidos.

"Tem de ser o filho de alguém, por que não o meu?" - perguntou. E lembrou que Eduardo sempre quis uma "oportunidade" para morar nos Estados Unidos.

A exaltação do presidente sugere que o poder rapidamente lhe subiu à cabeça. "A imprensa tem que entender que eu, Johnny Bravo, ganhei, p...!" disse Bolsonaro, usando à vontade o palavrão, durante visita à usina solar de Sobradinho, na Bahia, na segunda-feira.

Para quem não sabe, Johnny Bravo é o personagem musculoso e egocêntrico do desenho animado que foi sucesso na década de 1990. Apesar dos seus atributos, é meio infantil e não consegue ser correspondido pelas mulheres nas tentativas de arrumar uma namorada.

Assim como Bravo, Bolsonaro anda com a autoestima elevada até demais. E, dessa forma, provavelmente colherá os mesmos resultados.