6 Jun 2020

Regina em um papel para se esquecer

Por   Qua, 20-Mai-2020

Ícone da dramaturgia nacional, a atriz Regina Duarte, na sua passagem dos 72 para os 73 anos, resolveu fazer uma incursão na política, talvez o único papel que lhe faltava. Demorou a entrar, demorou para sair. Nesse meio, seu desempenho foi dos poucos da carreira na medida exata para se esquecer.

Depois de longo "noivado", como chamou o presidente, e muitos afagos para as fotografias, Regina aceitou a Secretaria da Cultura, cargo já ocupado por outros artistas, como Gilberto Gil. Pouco ou nada fez, num lugar onde claramente pouco podia fazer.

Arrumou briga com os afiliados ideológicos do presidente. Atrapalhou-se em entrevistas, como a da CNN, em que tentou justificar a tortura, a ditadura e outras bandeiras mais de seu novo chefe, num esforço empático ou interpretativo que causou espanto nacional. Disse que não homenagearia artistas mortos pelo covid para não transformar a secretária em "obituário". 

Forma dois meses espasmódicos, mas a realidade é que, na prática, Regina não mandava. Apenas emprestava o brilho da fama a um governo já tão desfalcado de titulares de primeira linha que parece um time de várzea. Nem ministro da Saúde tem, no meio da pandemia do coronavírus. Só mais um militar interino, ali colocado para bater continência aos desejos mais insensatos do presidente.

A Cultura, no Brasil, está como a Educação - outra área onde Bolsonaro faz questão de meter seu bedelho ideológico. O governo quer produzir documentários edificantes sobre a história nacional, odes aos militares e coisas do gênero. Quer tirar da arte a liberdade, sobretudo a da crítica. O projeto de Bolsonaro para a Cultura, assim como para a Educação, é obscurantista.

Dentro disso, não havia a menor chance para alguém que vem do ambiente artístico, criativo e comprometido com o verdadeiro sentido desse trabalho, que, pela sua natureza questionadora, sempre se aproxima da crítica social.

Em vez de simplesmente pegar a bolsa e sair, mesmo cordialmente, Regina aceitou ficar com a direção da Cinemateca Brasileira, cargo que recebeu, em suas palavras, como um "presente". Saiu do governo, mas não saiu. Continua lhe emprestando a imagem. Talvez fosse melhor ter saído de uma vez, mesmo sem brigar, se é o que ela quer. Poderia, pelo menos, dissociar-se de vez do que já não deu certo.

Cada um tem o direito de fazer suas escolhas, mesmo as deliberadamente erradas. Certa vez, quando perguntado, ao fim da vida, o que gostaria de feito mais, o escritor Jorge Luis Borges respondeu: "Queria ter tomado mais sorvete e cometido mais erros".

Regina Duarte cometeu o erro que lhe faltava e está feito. Continua a ser Regina Duarte. Não será, porém, uma Fernanda Montenegro, também uma atriz grande e popular, que igualmente se coloca ao lado da arte, da liberdade, do brasileiro - porém, dignamente, infensa a cargos e experimentos, não esquece o seu lugar.