17 Out 2019

Raoni da Paz é um tapa na cara de Bolsonaro

Por   Qui, 10-Out-2019
O chefe: o botocudo agora simboliza a paz O chefe: o botocudo agora simboliza a paz

Como narro no meu livro A Conquista do Brasil, quando os primeiros portugueses e espanhóis começaram a chegar, no Século XVI, o Brasil era ocupado pelos tupinambás, com uma cultura e economia mais sofisticadas, e índios nômades, belicosos e rudes, considerados uma raça inferior, que os primeiros chamavam de tapuias - em tupi, os "escravos". Enquanto os tupinambás fizeram uma guerra para se defender dos portugueses, e acabaram massacrados, os guerreiros tapuias fugiram para o sertão, onde mais tarde se confrontariam com os bandeirantes. Caçadores e pescadores, ficaram conhecidos pelos portugueses como os "botocudos", pelo uso do botoque, prancha de madeira usada para esticar o lábio inferior e as orelhas, que lhes dá aspecto ainda mais feroz.

É a essa vertente à qual pertence a tribo caiapó, do cacique Raoni, que chegou a ser cotado este ano pela academia sueca como candidato ao Nobel da Paz. 

Parece ironia que um chefe botocudo, líder de um povo de guerreiros atávicos, possa ser símbolo de paz. Raoni surgiu como personagem nacional há três décadas, empunhando uma borduna, à frente de índios que ameaçavam de morte garimpeiros que cruzavam a fronteira de seu território. De lá para cá, foi incorporado ao mundo das celebridades nacionais. O cantor britânico Sting virou seu amigo. Agora percorre a Europa falando com a autoridade de quem vem de uma longa linhagem de ancestrais combatentes do progresso predatório.

De guerreiro impiedoso, que vivia num mundo onde não havia prisioneiros de guerra, pois os que havia eram devorados ritualmente pelos vencedores, o índio brasileiro se tornou um símbolo do mundo ocidental na luta contra ele mesmo - a selvageria capitalista que ultrapassa os limites da Humanidade, ameaçando a natureza e, portanto, a si própria. O velho tapuia é ainda hoje a resistência ao avanço da máquina do progresso, que, na sua marcha sem freios, se transformou numa jornada também de autodestruição.

Raoni já disse que o presidente Jair Bolsonaro "não tem bom coração". O desprezo do presidente pelos índios já foi manifestado fartamente, assim como pelos quilombolas e outras minorias. Para ele, os indígenas são coisa do passado, um grupo de gente privilegiada sentada em cima de riquezas que o Brasil deveria explorar comercialmente para engrandecimento da nação - o que em geral significa na realidade o enriquecimento de alguns poucos.

No mundo indígena, o cacique é um chefe de Estado. É tratado como tal e se comporta como tal. No seu giro pelo mundo, Raoni conversou com outros chefes de Estado, como o presidente francês, Emannuel Macron, de igual para igual. Ele representa uma nação, com seu território, que está para o Brasil assim como Mônaco está para a França - circunscreve-se num país, mas tem leis e regime próprios. Tem direito a isso, garantido na própria Constituição brasileira, em reconhecimento à importância cultural do índio, até para nos lembrar justamente que o mercantilismo tem limites.

Raoni nãolevou  o Nobel, que foi para o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed Ali, intermediador da paz com a Eritreia. Sua simples indicação ao prêmio, porém, representa um tapa da comunidade internacional na cara de Bolsonaro. "Eu vou continuar defendendo o direito dos povos indígenas, defendendo o meio ambiente, defendendo a Amazônia, defendendo a vida", disse ele.

O presidente tem razão em querer o desenvolvimento, mas não pode desprezar o que o índio representa ainda hoje, não só para o Brasil como para o mundo. Um aviso de que não podemos ir longe demais, e que o preço do progresso não pode ser a destruição do ambiente, da harmonia entre os povos e, em última análise, da própria Humanidade.