23 Jul 2019

Por que Moro ficou sozinho no caso do Coaf

Por   Qua, 29-Mai-2019
Moro, com Guedes: todos contra Moro, com Guedes: todos contra

A razão pela qual o ministro da Justiça Sérgio Moro queria ficar com o Controle de Atividades Financeiras (Coaf), hoje no Ministério da Economia, é a mesma pela qual ninguém mais queria. Com o Coaf, ele poderia fiscalizar melhor as atividades do governo, incluindo as do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do chefe, o presidente Jair Bolsonaro, que não apenas deixou Moro sozinho nesta briga, como trabalhou em silêncio para que ele saísse perdendo.

O caso do Coaf é um bom exemplo de como Bolsonaro sabe negociar com os políticos no Congresso, quando lhe interessa. A tal "coordenação política" entrou em ação na surdina, para não parecer que o presidente agiu contra uma medida de saneamento da corrupção, mas não foi menos política, nem menos eficaz.

Com ajuda do líder do governo, Fernando Bezerra (MDB-PE), Bolsonaro obteve no Senado um acordo por meio do qual a votação da Medida Provisória 870 nesta terça-feira foi feita com voto secreto. Resultado, o Coaf foi mantido na Economia.

Após a votação, apenas 30 senadores afirmaram publicamente ter votado contra a transferência. Isso significa que, se o voto fosse nominal, isto é, os senadores fossem obrigados a anunciar seu voto publicamente, o Coaf provavelmente teria ido para a Justiça, como Moro desejava.

Essa manobra do próprio governo contra Moro, assim como dos políticos em geral, é sintomática. "O presidente nunca teve interesse em que o Coaf ficasse na Justiça", disse ao UOL o líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP). "Moro foi o grande derrotado nessa história. Devia pedir demissão."

Dentro do Ministério da Economia, o Coaf fiscaliza seus próprios chefes - o que, por motivos óbvios, é um inibidor. Caso fosse para as mãos de Moro, o órgão fiscalizaria o ministério por onde circula o dinheiro sem receio de represálias. E fiscalizar o governo como se deve não interessa a Bolsonaro. Nem ao titular da Economia, Paulo Guedes.

Cada qual tem suas razões. Bolsonaro já viu o estrago que um órgão desse gênero pode fazer. Foi o Coaf da Assembleia do Rio de Janeiro, órgão análogo ao Coaf federal, que desnudou o esquema operado no gabinete do seu filho, o hoje senador Flávio Bolsonaro.

Além de identificar operações estranhas de recolhimento de dinheiro depositado à vista para esconder sua origem, o Coaf mostrou que o maniulador do dinheiro do gabinete de Flávio, Fabrício Queiroz, mandava dinheiro ao próprio presidente, por meio da conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. E destrinchou um vasto esquema de "rachadinha" que, entre quase uma centena de pessoas, envolve uma série de parentes da ex-mulher do presidente Bolsonaro, Ana.

Paulo Guedes também tem razões próprias para manter sob suas ordens o cão de guarda da própria casa. Seu banco, o BTG Pactual, é um dos operadores no Chile do sistema de capitalização da previdência privada, que ele pretende implantar aqui no Brasil. Atividades de um ministro que parece atuar em causa própria são sempre fontes de suspeita. Para Guedes, melhor o cachorro do Coaf ficar na coleira do que nas mãos de Moro, que pode soltá-lo na sua perna.

Há ainda um terceiro motivo que une Bolsonaro a Guedes e muitos congressistas para tirar o Coaf de Moro. Há muita gente que receia a sombra do ministro da Justiça, pela simples suspeita de que ele tem a ambição de se tornar um dia presidente da República.

Dar a Moro um instrumento capaz de detonar o próprio governo onde se encontra - e sair no final literalmente como o paladino da Justiça, acima de Lula e também de Bolsonaro -, é o pior dos pesadelos do presidente. Bolsonaro já vê gente puxando seu tapete em toda parte, a começar pelo seu vice, o general Hamilton Mourão. Moro é outra figura que puxa seu pé enquanto dorme.

Bolsonaro quer que Moro fique onde está: emprestando o nome de combatente da corrupção ao seu governo, sem se transformar na nêmesis do próprio governo, nem num gigante imbatível na próxima eleição. É política. E, como sempre, contra os interesses do combate à corrupção e, portanto, do povo brasileiro.