15 Nov 2019

Por que assistir ao Mundial feminino

Por   Ter, 04-Jun-2019

As garotas da seleção são o Brasil que dá orgulho

Aquela história do Nelson Rodrigues de que temos complexo de vira-latas continua atual. Os sintomas é que podem ter mudado um pouco. Somos o país dos coitadinhos, cultivamos esse rótulo como se ele nos conferisse uma aura de mártires injustiçados.

Recusamos qualquer visão da realidade, preferimos a fantasia que faz de nós eternos derrotados a despeito do talento e mérito. Essa coisa nos cega. E nos protege das cobranças, quando fracassamos. E o mundial de futebol feminino que começa nesta sexta, dia 7, é mais uma oportunidade para exercitarmos esse complexo ou darmos um basta nessa uruca.

 Etíopes e quenianos dão fundistas de primeira linha. Papam quase todas as medalhas das corridas de longa distância. E você nunca vê um medalhista de bronze desses países cabisbaixo, chorando uma terceira colocação. Eles sabem que há grande mérito em qualquer degrau do pódio. Mesmo treinando duro, se cuidando e aperfeiçoando sua técnica, eles sabem que enfrentam colegas que fazem o mesmo e contam com igual talento. Perder é normal. Chegar perto do ouro é o ideal, vencer não é obrigação.

Mas entre nós isso não pega. Aqui impera a máxima de que o segundo colocado numa disputa é o primeiro dos últimos, é o primeiro dos perdedores. O caso do futebol feminino brasileiro é bem isso. Temos agora mais um mundial da categoria e as entrevistas e reportagens com nossas atletas destacam um suposto fracasso da nossa seleção. Outro dia Marta e outras craques choravam a falta de título mundial e ouro olímpico, assunto tratado como uma grande sacanagem do destino. Ora, vamos falar sério. Futebol feminino não existe, no Brasil. É um esporte sem estrutura, sem apelo popular, sem investimentos e sem campeonatos com tradição. Está ainda engatinhando. A CBF teve de obrigar os grandes clubes a manter equipes femininas. Em geral, elas dão prejuízo.

Mesmo sendo tão pouco difundido ou praticado em alto nível entre nós, conseguimos montar excelentes equipes, que têm disputado torneios internacionais em pé de igualdade com nações nas quais a modalidade tem história. Tudo devido ao talento indiscutível das nossas atletas. Como lamentar, se mesmo nessas condições precárias temos conquistas tão memoráveis como três ouros pan-americanos, uma prata mundial e duas pratas olímpicas?

A atacante brasileira Cristiane é a maior artilheira das Olimpíadas, com 12 gols. Marta foi eleita seis vezes a melhor jogadora do mundo. Isso é motivo de orgulho e exaltação. O ouro maior não ter vindo é normal. Excepcional é tanta prata mundial e olímpica, além dos ouros continentais. A Taça Libertadores, tão cobiçada pelas equipes masculinas, começou a ser disputada em 2009 pelas mulheres. Das dez edições até agora, o Brasil venceu sete. O Santos foi bicampeão em 2009 e 2010, em seguida desmontou a equipe. Só tempos depois voltou a investir na modalidade.

No momento em que mais um mundial põe em xeque nosso complexo, precisamos ir a campo dispostos a morder como um doberman e não a ganir como um lulu de beco, correndo com o rabinho entre as pernas. Ganhar ou perder é do jogo. Choramingar sobre o leite derramado não está com nada. Joguem bola! Ganhem - ou percam - como garotas! Vocês não nos devem nada