14 Nov 2019

Como se explica que o presidente Jair Bolsonaro venha em defesa do franco-pensador Olavo de Carvalho, mesmo depois de seu aliado intelectual ofender da forma mais aviltante os militares, a começar pelo vice-presidente, Hamilton Mourão, além dos generais da reserva que formam o mais alto escalão do governo?

Qual a justificativa para a anuência do presidente, diante de um colaborador que incendeia o próprio governo, chamado os militares de "bostas" e "covardes que se escondem atrás de um doente em uma cadeira de rodas" ? (No caso, o general Eduardo Villas Bôas, assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional, a quem o próprio Bolsonaro, na sua despedida do alto comando do Exército, já disse dever a própria eleição).

Como ele, que diz ver a maior importância nas Forças Armadas, inclusive na sua administração, não reprime um apoiador para quem a última contribuição da instituição à "alta cultura" no Brasil foi "a obra de Euclides da Cunha"?

Parece inexplicável, ou consoante com uma personalidade esquizofrênica, mas a explicação existe. E é a mais simples possível. Bolsonaro concorda com Olavo.

O presidente tem mostrado, no exercício do cargo, duas personalidades. Uma, hoje se sabe, é política. Em público, o presidente diz ter orgulho de ser militar, demonstra afeto pela sua origem e presta homenagem à instituição e seus integrantes. O outro Bolsonaro, o verdadeiro, tem razões antigas para nutrir pelos militares um ódio cujo tamanho só se enxerga agora.

Essa raiva vem de longe. Em 1986, ainda capitão do Exército, Bolsonaro escreveu um artigo, publicado na seção de opinião da revista Veja, em que reclamava dos baixos soldos. Essa aproximação com a revista fez com que ele revelasse à publicação, no ano seguinte, o plano de explodir uma série de bombas em quartéis do Rio de Janeiro - na prática um ato terrorista, com o objetivo de chamar a atenção do alto comando, em especial o ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves. Acreditava ser assim o verdadeiro defensor da causa militar.

Deu a entrevista sob sigilo - em jornalismo, o direito à proteção da "fonte". Contava a história, mediante o compromisso de seu nome não aparecer. Seu objetivo seria apenas causar alarme. "São só umas espoletas", minimizou.

Se existe uma sabedoria popular, por qual razão não existiria uma burrice popular?

Com o decreto em favor da difusão da venda e porte de armas no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro avança na sua agenda particular sem ter avançado na agenda coletiva - especialmente a criação de empregos. É a agenda da maioria, e não a do reduzido grupo ideológico com que ele começou sua campanha eleitoral, que lhe deu os votos da eleição e a legitimidade para governar. 

Não é uma “cultura”: esse crime tem nome e sobrenome.

Passados os primeiros meses, já se podem dizer algumas coisas a respeito do governo Bolsonaro. A principal delas é que se trata de um governo politicamente fraco - ainda mais débil, em matéria de sustentação política, que o de Michel Temer.

Afastado do Congresso, do seu próprio partido e agarrado a outros aliados misóginos, como o franco-pensador Olavo de Carvalho, o presidente se isola no Palácio do Planalto da mesma forma que se isolava no Congresso Nacional.

Nos corredores dos edifícios do poder em Brasília, corre por enquanto um pacto feito aos sussurros, segundo o qual é melhor que Bolsonaro vá até o fim de seu mandato, do jeito que está: nem forte que possa sonhar em concorrer novamente à presidência, nem tão fraco que traga de volta o fantasma do lulismo.

É nesse segundo ponto que moram as grandes preocupações. Porque há muitos fatores capazes de deixá-lo pelo meio do caminho.

A entrevista do Lula lembra muito o mito retratado por Ésquilo na peça "Prometeu Acorrentado". Prometeu é o personagem principal da mitologia clássica, o titã predileto de Zeus, até que roubou o fogo sagrado do Conhecimento e entregou para os homens.

O presidente Jair Bolsonaro escreveu em seu Twitter na sexta-feira que o governo deverá abandonar as faculdades públicas de filosofia e sociologia.

O motivo seria "ficar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina".

"A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta", escreveu.

Esses conceitos envelheceram e já não refletem com precisão o mundo real

O que se sabe até agora e o que se pode dizer do conflito armado dentro do Palácio do Planalto, que colocou de um lado o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, de outro o vice-presidente, general Hamilton Mourão:

Quando escolheu para vice de sua chapa o general Hamilton Mourão, o presidente Jair Bolsonaro brincou, bem ao seu estilo, que o colocara no posto porque se eleito ninguém iria querer levantar contra ele um processo de impeachment. Todos teriam medo de ver entrar no seu lugar, como um espantalho, o então polêmico general.

A decisão foi um tiro pela culatra. Desde a campanha, e depois no governo, Mourão deixou de ser piada. Mostrou-se um político leve e desenvolto, com muito mais cintura que o próprio Bolsonaro.

Circula entre os políticos que o próprio presidente rejeita, fala sem problemas com toda a imprensa, que Bolsonaro boicota, e defende um governo mais ao centro, próximo do Congresso, técnico ou profissional, enquanto o titular do Planalto faz questão de empurrar adiante sua faceta ideológica mais agressiva, contra a maioria pacífica e mais civilizada do país.

Ao agarrar-se demais às suas antigas ideias, que se misturam às do guru Olavo de Carvalho, Bolsonaro acabou isolando-se no governo. E viu o espantalho que plantou para assustar os políticos passar a assustar ele mesmo.

Enquanto o próprio  Bolsonaro convive agora com a imagem de um governante com pouco conhecimento de causa, meio desastrado e até agora inoperante, Mourão é o homem que tenta ajudar, contrabalançando o governo com um pouco de objetividade, simpatia e bom senso.