15 Set 2019

O que se sabe até agora e o que se pode dizer do conflito armado dentro do Palácio do Planalto, que colocou de um lado o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, de outro o vice-presidente, general Hamilton Mourão:

Quando escolheu para vice de sua chapa o general Hamilton Mourão, o presidente Jair Bolsonaro brincou, bem ao seu estilo, que o colocara no posto porque se eleito ninguém iria querer levantar contra ele um processo de impeachment. Todos teriam medo de ver entrar no seu lugar, como um espantalho, o então polêmico general.

A decisão foi um tiro pela culatra. Desde a campanha, e depois no governo, Mourão deixou de ser piada. Mostrou-se um político leve e desenvolto, com muito mais cintura que o próprio Bolsonaro.

Circula entre os políticos que o próprio presidente rejeita, fala sem problemas com toda a imprensa, que Bolsonaro boicota, e defende um governo mais ao centro, próximo do Congresso, técnico ou profissional, enquanto o titular do Planalto faz questão de empurrar adiante sua faceta ideológica mais agressiva, contra a maioria pacífica e mais civilizada do país.

Ao agarrar-se demais às suas antigas ideias, que se misturam às do guru Olavo de Carvalho, Bolsonaro acabou isolando-se no governo. E viu o espantalho que plantou para assustar os políticos passar a assustar ele mesmo.

Enquanto o próprio  Bolsonaro convive agora com a imagem de um governante com pouco conhecimento de causa, meio desastrado e até agora inoperante, Mourão é o homem que tenta ajudar, contrabalançando o governo com um pouco de objetividade, simpatia e bom senso.

“A sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem igualdade e liberdade.”  (Milton Friedman)

É um clássico da história política o momento em que o soberano, ao receber uma má notícia, ou para evitar que ela se espalhe, manda matar o mensageiro.

Não é fácil ser mensageiro.

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes de suspender reportagens dos sites Crusoé e Antagonista, sob pena de multa diaria de 100 mil reais, é desse naipe. Diante da má notícia, desconta no veículo da notícia.

Um princípio básico do regime democrático é que o governante é eleito para fazer não o que ele quer, mas o que o povo quer que ele faça.

Todo político tem seus projetos pessoais, ideais e ideias, mas não pode colocá-los na frente da vontade da maioria. Dessa forma, tende a isolar-se, perder legitimidade e, no limite, o próprio poder.

É o que está acontecendo com o presidente Jair Bolsonaro, cuja opção por seguir apenas a si mesmo colocou para andar a galope um processo de deslegitimação do governo que pode atirá-lo fora do Palácio do Planalto.

Pesquisa do DataFolha indica que a maioria das mulheres não leva fé no feminismo. Os homens acreditam mais no movimento que elas.

A polêmica da hora sobre Jair Bolsonaro diz respeito a uma observação sobre a possibilidade de perdoar o holocausto nazista – “mas não podemos jamais esquecer”, ressalvou.

Há muito que os executivos descobriram a adaptação das estratégias militares para o mundo dos negócios. Vale o mesmo para o governo e a política. 

Quem navega pela internet hoje se vê diante não de fatos, entendidos como acontecimentos sobre os quais não cabe interpretação, mas de múltiplas versões sobre fatos, previsíveis de acordo com quem os descreve ou analisa.

Basta olhar os títulos das reportagens na primeira página dos portais. Mesmo com relação a fatos supostamente objetivos, há abordagens subjetivas que podem levar a conclusões opostas sobre um acontecimento ou situação.

Por exemplo, para o Globo,  “em 100 dias Bolsonaro cumpre mais promessas que Dilma e Temer no mesmo período”.

Para a Folha de S. Paulo/UOL, “Bolsonaro cumpriu apenas 13 das suas 35 propostas [nos 100 dias]”

Além do noticiário jornalístico, mais sujeito que nunca a escolhas conforme a política editorial de cada veículo, os portais  encheram seu espaço com um articulismo onde o fato é produto da opinião, e não o contrário.

Espera-se não o conteúdo, mas a versão já previamente esperada daquele conteúdo.

Exemplos:

"Governo não tem um projeto nacional para o Brasil" (de Marco Antônio Villa, comentarista da Jovem Pan).

"Falta ao Brasil política de saúde digna desse nome" (do médico Drauzio Varella).

"Infantil, a esquerda brasileira está perdida" (do ex-ministro Delfim Netto)

"Desejo toda sorte do mundo ao ministro Weintraub, e só advirto: se aparecer algum Croquetti dando palpite, esconda-se no banheiro", escreveu no Twitter Olavo de Carvalho.

O mentor intelectual da extrema direita adotado pelos Bolsonaro aconselhou assim Abraham Weintraud, que entrou no Ministério da Educação no lugar de Ricardo Vélez, olavista defenestrado após três meses de turbulências cotidianas, para fazer o mesmo papel que seu antecessor - se possível, melhor.

"Croquetti" é uma referência ao coronel aviador Ricardo Roquetti, ex-assessor especial de Vélez, que teria perseguido e afastado membros do olavismo da pasta para instalar seu próprio pessoal. E contém um trocadilho com Fido Gabriel Croquetti, pseudônimo de um artista satírico que coloca cachorros no lugar de personagens de quadros clássicos.

Carvalho refere-se a inimigos ideológicos, que para ele são como cães, mas a imagem bem poderia servir também para ele, que reveste de uma suposta erudição um comportamento de viralata, o cachorro sem estirpe, nem educação.