23 Jul 2019

Era uma vez um presidente que se elegeu com promessas de acabar com a corrupção no Brasil. Entrou no governo com enorme apoio popular. Governava mandando recadinhos informais para politicos e colaboradores do governo, preterindo a imprensa e os meios oficiais de comunicação. Sem conseguir passar nada no Congresso, onde bateu recordes de rejeição, seu governo ficou paralisado.

Você pode achar tudo isso muito contemporâneo e familiar, mas estamos falando de Jânio Quadros, no ano de 1961. Dono de um estilo controverso, com seus famosos bilhetinhos, a versão da época do Twitter, Jânio conseguiu rapidamente construir uma parede de oposição no meio político e dentro da sua  própria administração, criando desafetos por todos os lados.

Acabou renunciando, na esperança de que o clamor popular o fizesse voltar de novo ao governo e com mais força para impôr-se diante do Congresso.

São 8:15 da manhã da segunda-feira, dia 24, e há bastante movimento ao redor da longa mesa de café da manhã na Figueira Rubayat, restaurante dos Jardins, em São Paulo, onde a fina flor come os melhores bifes da cidade sob a gigantesca árvore que lhe dá o nome. Ao fundo do restaurante, a mesa do café da manhã está cercada pelos profissionais de relações governamentais, reunidos pela sua entidade, a Abrig, para um encontro com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ele mora ali perto e chega para o compromisso a pé.

Com o fenótipo de um Clark Kent à brasileira, óculos de aro de tartaruga que dão mais leveza, Salles conversa com os lobistas sem pressa, até a hora de entrar no salão de eventos. Entronizado numa área do governo sujeita ao constante patrulhamento político de ONGs e outras forças mercuriais, e dentro de um governo marcado pela forte oposição ao seu posicionamento ideológico, ele faz um discurso na medida para colocar a ideologia de lado.

A crise política instalada em Brasília, com o impasse entre o Executivo do presidente Bolsonaro e o Legislativo do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é o resultado de uma peculiaridade da política brasileira, na qual a esquerda ou a direita vêm ganhando as eleições majoritárias, mas somente o Centro é quem governa, não importa o lado vencedor.

Há quase 90 mil brasileiros morando em Portugal atualmente. Em 2017, o Brasil representava 20% da população estrangeira de Portugal, número que cresceu e ultrapassou 25% em apenas dois anos. Além da facilidade do idioma, há outros motivos que atraem as famílias brasileiras a emigrar, como a proximidade cultural e histórica, o clima, o regulamento nacional para imigrantes e a própria existência de comunidades já formadas por brasileiros que tomaram essa iniciativa.

Bondade demais o santo desconfia

A popularidade do presidente despencou 15 pontos percentuais em apenas três meses. Em relação à população, significa que cerca de 30 milhões de brasileiros estão, digamos... menos animados com os rumos do governo. Em relação ao eleitorado, são 22 milhões de novos desanimados. 

É preciso um certo cuidado com o catastrofismo, mas, num país em que aconteceu um Brumadinho logo depois de Mariana, é preciso prestar mais atenção nos detalhes que levam aos desastres.

E há hoje muitos sinais de um grande desabamento que não devem ser desprezados.

Por vezes ocorrem grandes movimentos históricos internacionais, e o atual pende para a direita. Nos Estados Unidos, deu Donald Trump; no Brasil, Jair Bolsonaro; na Grã Bretanha, o Brexit; e por aí vai. Esses grandes movimentos por vezes passam por cima da lógica e até das leis, quando necessário. Viram até revoluções.

A proximidade do presidente Jair Bolsonaro e seu filho Eduardo com Steve Bannon, ex-guru no marketing digital de Donald Trump, é tão significativa quanto a de Olavo de Carvalho, o aiatolá da direita, incensado pelo filho do presidente e que nutre com o governo uma relação de amor e ódio, conforme sua ciclotimia.

Um velho ditado da política diz que o poder é como o violino: se toma com a esquerda, mas se toca com a direita.

O presidente Jair Bolsonaro fez o caminho inverso de Lula para chegar ao Planalto: tomou o poder com a direita. E deveria agora governar com a mão esquerda, para também ampliar sua base de apoio no Congresso, aproximar-se da média no espectro político, azeitar a passagem de seus projetos e ganhar mais legitimidade, como o presidente não apenas da fatia do eleitorado que o elegeu, como de todos os brasileiros.