15 Set 2019

Na Bíblia, os reis magos eram três, aqueles que seguiram a estrela-guia e encontraram Jesus recém nascido na manjedoura, início de uma nova era. No Brasil de 2019, eles são quatro, mas também são magos, porque acham que estão acima das instituições que representam e que podem decidir no lugar delas.

A razão pela qual o ministro da Justiça Sérgio Moro queria ficar com o Controle de Atividades Financeiras (Coaf), hoje no Ministério da Economia, é a mesma pela qual ninguém mais queria. Com o Coaf, ele poderia fiscalizar melhor as atividades do governo, incluindo as do ministro da Economia, Paulo Guedes, e do chefe, o presidente Jair Bolsonaro, que não apenas deixou Moro sozinho nesta briga, como trabalhou em silêncio para que ele saísse perdendo.

Essa moçada que acha o Sistema tirano cumpre seu papel de sonhar com o paraíso. Mas não tem a menor ideia de que seus antepassados venceram na vida em pleno purgatório.

Comparada com a de seus avós, sua vidinha mimada deveria ser comemorada e não motivo de revoltinha regada a shot de vodka.

Uma das questões que mais intriga os analistas políticos atualmente é compreender a dificuldade que o governo está encontrando para formar uma base parlamentar que lhe garanta a aprovação de sua reforma da Previdência, já que, “segundo o empresariado, a imprensa e a maioria dos políticos, o capital só espera essa aprovação para inundar o Brasil de investimentos e criar milhões de empregos aqui”.

O presidente Jair Bolsonaro desistiu de ir pessoalmente às manifestações convocadas em defesa do governo no domingo, dia 26. Promover movimentos públicos contra outros poderes poderia lhe render impeachment, segundo foi alertado. Ainda bem que ainda há gente dentro do governo capaz de deter esses ímpetos, que vão colocando tudo a perder.

Governo democrático não põe o povo na rua para pressionar a oposição

Depois de humilhá-los por meio do franco-pensador Olavo de Carvalho, isolado de vez no governo, o presidente Jair Bolsonaro, tratou de trazer de volta para o seu lado os militares, que são colocados agora num jogo perigoso. 

Num mundo cheio das falácias do meio digital, caberia aos esclarecidos colaborar para que fossem sepultadas. E hoje o Brasil enfrenta um único e verdadeiro inimigo: o encantamento das serpentes, que é o acobertamento do crime por meio da política, turbinada pelas redes sociais.

O grande princípio que norteou e trouxe sucesso à Lava Jato, aceito pelo Supremo Federal e a Justiça de forma geral, é o fato de que o crime do colarinho branco nunca deixa digitais. Usa laranjas e outros expedientes para colocar um anteparo entre o mentor e beneficiário do crime e o crime propriamente dito.

A Lava Jato só pega essa gente graúda porque usa outros instrumentos, como a delação premiada - testemunho também é prova. Isso porque pela primeira vez na história brasileira tem o objetivo de pegar os mandantes, e não a peãozada.

Assim foi com Lula, que tinha propriedades em nome de amigos, contas em nomes de outras pessoas, e ainda usava seu poder de encantar as massas para fazer pressão sobre o poder público. Dizia que não existiam provas, porque não há as digitais, e convocava a militância para as ruas, querendo fazer parecer perseguição política o que era apenas um processo criminal.

Ao convocar a manifestação de 26 de maio, o presidente Jair Bolsonaro segue o mesmo caminho. Começa a aparecer no seu rastro um grande laranjal. Sua ex-mulher, Ana, e outros parentes foram detectados como funcionários fantasmas que devolviam o dinheiro do salário ao filho, Flávio Bolsonaro, por meio de Fabrício Queiroz - a prática da chamada "rachadinha"

O Ministério Público viu aí uma "organização criminosa", que explorava sistematicamente esse esquema para arrecadar . Investiga ainda as relações de Flávio com as milícias, pela proximidade com o Capitão Adriano e o fato de enriquecer negociando imóveis - uma das áreas onde atuava o Escritório do Crime, do capitão hoje foragido da polícia, suspeita ainda de envolvimento na morte da vereador Marielle Franco.

Pior: o presidente, que tinha a ex-mulher no esquema, além de outros funcionários que fantasmagoreavam tanto no seu gabinete quanto no de Flávio, parece indissociável da investigação sobre o filho. A "organização" dos Bolsonaro, pelo que verificou o MP, é uma coisa só.

Ao querer agora associar a investigação a um ataque político, tanto do Congresso quanto do STF, Bolsonaro faz exatamente como Lula. Procura jogar uma cortina de fumaça sobre uma investigação criminal.

"Não vão me pegar", bradou ele, ao seu estilo. Talvez mostrasse mais virilidade se fizesse passar os projetos no Congresso, em vez de se mostrar reclamando do sistema e tão preocupado com a própria sombra, atirando até mesmo nos próprios colaboradores.

O Congresso foi eleito de forma tão legítima quanto Bolsonaro. Sua resposta às iniciativas do governo tem também a legitimidadde da delegação popular. Não adianta reclamar de uma emparedamento. Se o governo Bolsonaro está parado, é mais por seus próprios erros. E não adianta culpar os outros.

Nós já sabemos como acabam essas histórias. Para a Lava Jato, não importa que o dinheiro entrou nos gabinetes dos Bolsonaro na forma de depósitos à vista de origem indeterminada. Nem que o operador seja Fabrício Queiroz. Eles têm os instrumentos, hoje em dia, para chegar ao mandante. Os Bolsonaro sabem disso, Por isso, o presidente já coloca na rua sua máquina de pressão, a pretexto de estar sendo vítima do "sistema".

O Congresso não é um ninho de anjos, é verdade. Porém, o "sistema" tambem foi feito para conter descalabros e colaborar para a investigação de crimes de um poder pelo outro. É o republicanismo, de que Bolsonaro tanto fala, e seu pleno funcionamento.

Ao acusar o Congresso de golpismo, Bolsonaro não quer contestar ou purificar o sistema, como alega. Quer apenas salvar a sua própria pele. Ou arriscar seu próprio golpe. E jogar a população contra oura Casa onde os integrantes foram eleitos, tanto quanto ele.

Um triste cenário, para um país que precisava de união e serenidade, de modo a devolver a tranquilidade necessária para a retomada dos investimentos e a volta do crescimento econômico, para não diz da paz institucional.

Quando o peão entra no rodeio ou o toureiro na arena, não pode reclamar o touro é bravo. Ou que o Centrão quer prevaricar, que o Rodrigo Maia não se deixa adestrar, que a imprensa critica e muito menos que a oposição não deixa governar. Agora marcam passeatas para exigir que o touro fique mansinho como um boi capão.

O presidente Jair Bolsonaro mandou  o franco-pensador Olavo de Carvalho "calar a boca", segundo o próprio Olavo, por estar tumultuando o governo com seus xingamentos e declarações, disparados a torto e a direito. Seria um pouco de tranquilidade, ou uma nova era? Que nada. O presidente agora se encarrega pessoalmente de disparar torpedos contra o próprio governo.