23 Jul 2019

Não é uma “cultura”: esse crime tem nome e sobrenome.

Passados os primeiros meses, já se podem dizer algumas coisas a respeito do governo Bolsonaro. A principal delas é que se trata de um governo politicamente fraco - ainda mais débil, em matéria de sustentação política, que o de Michel Temer.

Afastado do Congresso, do seu próprio partido e agarrado a outros aliados misóginos, como o franco-pensador Olavo de Carvalho, o presidente se isola no Palácio do Planalto da mesma forma que se isolava no Congresso Nacional.

Nos corredores dos edifícios do poder em Brasília, corre por enquanto um pacto feito aos sussurros, segundo o qual é melhor que Bolsonaro vá até o fim de seu mandato, do jeito que está: nem forte que possa sonhar em concorrer novamente à presidência, nem tão fraco que traga de volta o fantasma do lulismo.

É nesse segundo ponto que moram as grandes preocupações. Porque há muitos fatores capazes de deixá-lo pelo meio do caminho.

A entrevista do Lula lembra muito o mito retratado por Ésquilo na peça "Prometeu Acorrentado". Prometeu é o personagem principal da mitologia clássica, o titã predileto de Zeus, até que roubou o fogo sagrado do Conhecimento e entregou para os homens.

O presidente Jair Bolsonaro escreveu em seu Twitter na sexta-feira que o governo deverá abandonar as faculdades públicas de filosofia e sociologia.

O motivo seria "ficar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte, como veterinária, engenharia e medicina".

"A função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando para os jovens a leitura, escrita e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade em sua volta", escreveu.

Esses conceitos envelheceram e já não refletem com precisão o mundo real

O que se sabe até agora e o que se pode dizer do conflito armado dentro do Palácio do Planalto, que colocou de um lado o presidente Jair Bolsonaro e seus filhos, de outro o vice-presidente, general Hamilton Mourão:

Quando escolheu para vice de sua chapa o general Hamilton Mourão, o presidente Jair Bolsonaro brincou, bem ao seu estilo, que o colocara no posto porque se eleito ninguém iria querer levantar contra ele um processo de impeachment. Todos teriam medo de ver entrar no seu lugar, como um espantalho, o então polêmico general.

A decisão foi um tiro pela culatra. Desde a campanha, e depois no governo, Mourão deixou de ser piada. Mostrou-se um político leve e desenvolto, com muito mais cintura que o próprio Bolsonaro.

Circula entre os políticos que o próprio presidente rejeita, fala sem problemas com toda a imprensa, que Bolsonaro boicota, e defende um governo mais ao centro, próximo do Congresso, técnico ou profissional, enquanto o titular do Planalto faz questão de empurrar adiante sua faceta ideológica mais agressiva, contra a maioria pacífica e mais civilizada do país.

Ao agarrar-se demais às suas antigas ideias, que se misturam às do guru Olavo de Carvalho, Bolsonaro acabou isolando-se no governo. E viu o espantalho que plantou para assustar os políticos passar a assustar ele mesmo.

Enquanto o próprio  Bolsonaro convive agora com a imagem de um governante com pouco conhecimento de causa, meio desastrado e até agora inoperante, Mourão é o homem que tenta ajudar, contrabalançando o governo com um pouco de objetividade, simpatia e bom senso.

“A sociedade que coloca a igualdade à frente da liberdade irá terminar sem igualdade e liberdade.”  (Milton Friedman)

É um clássico da história política o momento em que o soberano, ao receber uma má notícia, ou para evitar que ela se espalhe, manda matar o mensageiro.

Não é fácil ser mensageiro.

A decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes de suspender reportagens dos sites Crusoé e Antagonista, sob pena de multa diaria de 100 mil reais, é desse naipe. Diante da má notícia, desconta no veículo da notícia.

Um princípio básico do regime democrático é que o governante é eleito para fazer não o que ele quer, mas o que o povo quer que ele faça.

Todo político tem seus projetos pessoais, ideais e ideias, mas não pode colocá-los na frente da vontade da maioria. Dessa forma, tende a isolar-se, perder legitimidade e, no limite, o próprio poder.

É o que está acontecendo com o presidente Jair Bolsonaro, cuja opção por seguir apenas a si mesmo colocou para andar a galope um processo de deslegitimação do governo que pode atirá-lo fora do Palácio do Planalto.