14 Nov 2019

No Brasil, as últimas eleições presidenciais foram marcadas pela vitória de políticos de legendas minoritárias, com algo em comum - seja de esquerda como de direita, primam pela radicalização. Com isso, o chamado centro, ou tudo aquilo que não é radical, acaba sendo levado, geralmente a contragosto, a escolher um lado, mais por rejeição ao outro do que por opção.

É a chamada polarização, que na prática leva sempre uma minoria, seja qual for seu sinal ideológico, a governar a maioria. É o rabo - a parte menos importante, embora mais ativa e vistosa - a abanar o cachorro, e não o contrário.

Jovens, inexperientes e arrogantes

Tirania, despotismo, absolutismo, totalitarismo, ditadura... o Leviatã é insaciável em sua sede de poder. É criativo, genial, luciferiano, sempre a encontrar subterfúgios para abusar das nossas liberdades. No Brasil, tornou-se uma hidra. Tem policial que prende (ou atira) a esmo, jornalista que destrói reputações sem checar, juiz que sentencia sem ler, político que aprova leis em proveito próprio, o funcionário público que prevarica...

O presidente Jair Bolsonaro deu para se lamentar da indigência do governo, para justificar cortes e contingenciamentos. Na sexta-feira, dia 16, reclamou que não há recursos para fazer nada. "Não tem dinheiro e eu já sabia disso", afirmou. "Estamos fazendo milagre, conversando com a equipe econômica. A gente está vendo o que a gente pode fazer para sobreviver."

As manifestações de rua na última terça-feira, com a bandeira da Educação à frente, mostraram uma novidade de marketing nos movimentos de esquerda: a substituição das bandeiras vermelhas dos partidos como o PT e congêneres pelas bandeiras verde-amarelas, uma marca das manifestações pró-Bolsonaro. Com isso, pretendeu-se tomar literalmente a identificação do bolsonarismo com as causas nacionais e procurar atrair o cidadão comum, o não ativista, deixando para trás o negativismo associado ao desempenho do PT no governo federal.

Funcionou? Nem tanto.

Mais uma vez: a Amazônia não é o pulmão do mundo

O ex-deputado e ex-ministro da Fazenda Delfim Netto já patrocinou outras desgraças econômicas quando esteve no governo, mas é inegável sua vasta experiência e o fato de que se tornou o mentor de gerações seguidas de economistas brasileiros. É, portanto, uma autoridade quando se trata de pontificar sobre problemas nacionais, o que ainda faz, com espantosa lucidez para um nonagenário.

O presidente Jair Bolsonaro sacou do coldre logo no início da semana duas medidas típicas de governos arbitrários: o revanchismo e a perseguição.

O revanchismo é contra  a imprensa. Em um evento numa indústria farmacêutica em São Paulo, Bolsonaro anunciou que assinou na segunda-feira uma medida provisória por meio da qual isenta empresas com ações em bolsas de valores da obrigação de publicar seus balanços por meio da imprensa. "Quero ver se o [jornal] Valor sobrevive a essa", afirmou.

Mais impróprio que interferir por uma decisão autocrática numa norma do mercado de ações, foi o motivo: assumidamente castigar a imprensa, cortando uma de suas fontes de receita. 

"No dia de ontem eu retribuí parte do que grande parte da mídia me atacou", afirmou o presidente. Disse que o empresariado poderá publicar seus balanços no Diário Oficial a custo zero. E ironizou: "Tenho certeza de que a imprensa vai apoiar essa medida."

Já a perseguição se deu em outra área. Nesta terça-feira, a Petrobras enviou um comunicado ao presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, cancelando um contrato de prestação de serviços na área trabalhista que a empresa tinha com seu escritório de advocacia. Santa Cruz já tinha sido alvo na semana passada de declarações impróprias por parte do presidente, que sugeriu saber como seu pai, Fernando, teria morrido no tempo da ditadura militar.

Jornais, revistas e sites informam, ao seu modo, as boas notícias do governo

Já era preocupante o fato de o presidente Jair Bolsonaro estar se afastando cada vez mais da ala operacional do governo, incluindo os militares. Agora, ele se afasta da própria realidade, apegado à construção ideológica do mundo como ele o vê. Uma espécie de Doutor Caligari da política.

Para quem nunca viu o filme de Robert Wiene, Caligari é um louco, para quem o mundo distorcido pela própria loucura parece normal. Ao ver o filme pelos seus olhos, o espectador adota sua perspectiva e vai pensando que as coisas são mesmo daquele jeito, distorcidas, quase góticas. Até que se percebe que é apenas o filtro do louco que nos fazia ver assim.

Bolsonaro está ainda na fase de fazer alguns acreditarem que é normal e flerta com a ideia de ampliar sua massa de seguidores fanáticos, com ajuda das redes sociais e pendores para o fascismo. Algo também muito próximo da loucura mais delirante do poder. Mas muita gente vai acordando para a realidade.

O rei vai ficando nu. O último choque que faz acordar o eleitor brasileiro foi a declaração de que ele saberia o destino de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. 

Bolsonaro disse ter informações de que ele teria sido morto não pela ditadura, mas pela "esquerda" - uma deformação da realidade tão flagrante que seria o caso de repúdio geral, não fosse a consternação com o estado mental do presidente.