3 Jun 2020

Passados 20 anos da proclamação da Constituição Cidadã, sob a qual vivemos hoje, está  bem claro que chegou a hora de uma reforma, com a qual deviam se comprometer não apenas o próximo presidente como os parlamentares que formarão o Congresso Nacional.

Certa tarde de muitos anos atrás, nosso professor Joaquim Guedes, da FAU, convidou meu grupo de seminário para ouvirmos um LP “revolucionário”, posto à venda naquele dia: CHEGA DE SAUDADE. Deslumbramento geral com aquele som que lançaria a bossa nova! Elizete Cardoso cantava músicas de Vinicius e Tom Jobim, mas a característica principal da novidade era o ritmo, a batida do violão de João Gilberto, que pouco ou nenhum (não me lembro bem) crédito tinha na capa... (Jamais presenteei tantos amigos com outra prenda!).

Arruinado por incapacidade de gerir sua vida material, com a família dilacerada e morando por favor de amigo/admirador, mal posso acreditar no que leio sobre o momento desse gênio baiano, com 86 anos e lúcido, segundo seu médico. Surpreendeu-me a síntese feita por seu filho João Marcelo sobre a personalidade incompreendida do pai: ”Meu pai tem um foco muito grande em sua arte, isso lhe traz satisfação, que acho que substitui para ele outros tipos de interações sociais. Ele é uma pessoa espiritualizada, que gosta de filosofias e de se sentir integrado com as energias do Universo. Para ele, estar só é uma forma de estabelecer melhor esses vínculos”. Dimais, não?

Essas maravilhosas palavras me fizeram lembrar um dos últimos diálogos que tive com meu pai, gramático por vocação, acerca de solidão, ora confundido com estados de alma como o descrito pelo João Marcelo seu pai. “Mas, seu Genaro, (disse ao meu pai) isso não é solidão ou abandono, vejo isso no meu trabalho, em pessoas vocacionadas, isso é plenitude, é 'sozinhrez'!" E ele, rigoroso: “Mas essa palavra não existe no dicionário?!”. E eu: “Então, passou a existir!”.

Sozinhez: estado de harmonia entre o ser e o Universo.

As mais recentes pesquisas de intenção de voto confirmam o já sabido, que é a sede do eleitorado brasileiro pelo "novo". Cansado da "velha política", desnudada pela operação Lava Jato, o eleitor brasileiro se divide hoje entre os militantes do PT, somados aos ainda numerosos saudosistas de Lula, para quem não importa a corrupção, desde que se receba aquele trocado, e aqueles que querem algo absolutamente diferente de tudo o que viram nos últimos anos - a gritante maioria.

A corrida eleitoral se mostra um lento e progressivo esvaziamento da fatia de Lula. E uma disputa feroz por tudo o que se encontra do outro lado. Nesse outro pedaço, a pesquisa do Datafolha trouxe à tona o crescimento de Marina Silva, a bordo de um partido que é praticamente só ela mesma, e Joaquim Barbosa, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal que presidiu o inquérito do Mensalão. E viu-se a manutenção do bloco de Jair Bolsonaro, outra candidato que, mesmo ideologicamente oposto aos anteriores, faz parte do mesmo movimento "contra tudo que está aí".

Todos têm certa cara de "novo". Marina é bem conhecida, mas nunca experimentou o poder de verdade, desde que saiu do PT, justamente por divergir das práticas que o partido, uma vez no governo, passou a adotar. Barbosa passa a imagem de magistrado que veio do povo pobre, negro, íntegro e duro na defesa de suas posições, como foi no comando do processo do mensalão. Bolsonaro é a defesa radical contra a corrupção, o aparelhamento do Estado pela esquerda e o resgate da extrema direita, que, graças ao comportamento do PT no poder, deixou de ter vergonha e saiu do armário.

Ao mesmo tempo em que acirrou a sede pelo novo, a Lava Jato lançou um dilema político. O novo é também, em certa dose, não provado, ou desconhecido. O problema com o novo é que ele não tem as nódoas do passado, mas diz pouco sobre o futuro. O Brasil quer o novo, mas carece também de certa previsibilidade. O país precisa de manutenção da rota de crescimento econômico e de garantias de estabilidade democrática. 

É dificíl ver isso no PT que, uma vez apeado no poder, voltou a ser o que era - o pequeno partido radical que prega a guerrilha política e questiona não a regra democrática como a  própria Justiça. É difícil ver democracia, também, no seu extremo oposto, Bolsonaro, um intolerante contumaz que no passado planejou um atentado a bomba e não tem medo de atacar publicamente tanto a regra democrática como as minorias das quais diverge.

Vamos imaginar se o Brasil estará no caminho da democracia e do desenvolvimento econômico na mãos dos novos emergentes. A ex-seringueira Marina  afirma em suas entrevistas que o Estado não pode continuar como motor da economia, mas veio das hostes do PT e seu partido é quase invisível no Congresso, o que pode levá-la a sofrer na presidência da mesma necessidade de comprar votos vilmente, como aconteceu no passado com o ex-presidente Lula.

Barbosa está num partido maior, mas que não deixa de ser pequeno, e pouco se sabe o que ele pensa. Quando Barbosa se manifestou, nas raras vezes em que isso aconteceu fora dos tribunais, foi para espinafrar jornalistas que lhe faziam perguntas incômodas. É condenado em segunda instância no Distrito Federal por mandar um repórter "chafurdar no lixo".

Interlocutores de Barbosa no PSB dizem que suas ideias são de um liberal. Nesse caso, é de se estranhar o que ele faz no PSB, o partido herdeiro do velho PCB, o partido comunista. Seria mais um caso de abrigo numa legenda mercenária, que coloca um personagem populista para carregar votos para gente que está por trás do personagem de fachada, não necessariamente da mesma confiança.

O "novo" é velho

O "novo", dessa forma, se afigura como o velho - o velho populismo em que o importante não são os partidos e os programas de governo, mas o personagem carismático capaz de levantar alguma bandeira demagógica que o leve ao poder.

O novo, no caso do Brasil, não dispensa o passado recente. Como é difícil enxergar um novo presidente voltando atrás em tudo o que foi feito para consertar o caos de Dilma Rousseff, é importante certa continuidade. O descalabro nas contas públicas, a recessão econômica e o fracasso do modelo do Estado como indutor do crescimento de forma sustentada ainda estão na nossa frente.

Há projeções de crescimento econômico para este ano. Apesar disso, o atual governo participa ainda da marca da corrupção de antigas eras, de onde veio. O crescimento econômico não pode servir como chantagem para a manutenção no poder de quem o deseja para manter-se a salvo da Justiça. Isso não seria uma mudança real. O eleitor sabe disso, tanto que o presidente Michel Temer enfrenta uma rejeição de 70% do eleitorado, segundo o último levantamento do Datafolha.

O candidato do Brasil é um defensor da democracia, economicamente reformista, sem estar enlameado como seus pares, mas com um passado que garante certa estabilidade, apoiado num programa partidário que faça o governo não depender de um único lider carimático. Tem de ser um governo de um programa com ideias, tanto quanto de ideais.

Certa segurança, hoje, é tão importante quanto o "novo". O novo não garante tudo. O PT já foi o "novo", com um discurso anti-corrupção visceral, alimentado em uma sólida história de prática da oposição, e no governo deixou o país descambar para a mais desastrosa ruína moral de que se tem notícia. Ultrapassou nesse sentido outro "novo" que envelheceu rapidamente na nossa história recente: Fernando Collor.

A Lava Jato começou a mudar o mecanismo pelo qual antes todos viam a corrupção como o modo "normal" de operação. Isso, porém, ainda não se completou. É preciso defender a mudança de comportamento na política. Assim como é preciso alguém alinhado com a normalidade democrática. Ela existe no Brasil, mas só existe por conta de seus defensores. Como diz o velho ditado, atribuído a Thomas Jefferson, o preço da liberdade é a eterna vigilância.

Não se pode por princípio descartar o velho. Desde que seja um velho capaz de dar segurança ao novo - e manter o leme na boa direção.

No meio de seu discurso de despedida da liberdade, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva disse uma frase que, entre todas as outras, merece mais atenção. "Eu acredito na Justiça". "Se não acreditasse, teria feito uma revolução nesse país."

A frase, pinçada no meio do discurso entre enraivecido e desapontado, é reveladora. Para Lula, era possível mudar o regime sem violência, usando as instituições, muitas vezes contra elas mesmas.