21 Jul 2019

Uma das questões que mais intriga os analistas políticos atualmente é compreender a dificuldade que o governo está encontrando para formar uma base parlamentar que lhe garanta a aprovação de sua reforma da Previdência, já que, “segundo o empresariado, a imprensa e a maioria dos políticos, o capital só espera essa aprovação para inundar o Brasil de investimentos e criar milhões de empregos aqui”.

O presidente Jair Bolsonaro desistiu de ir pessoalmente às manifestações convocadas em defesa do governo no domingo, dia 26. Promover movimentos públicos contra outros poderes poderia lhe render impeachment, segundo foi alertado. Ainda bem que ainda há gente dentro do governo capaz de deter esses ímpetos, que vão colocando tudo a perder.

Governo democrático não põe o povo na rua para pressionar a oposição

Depois de humilhá-los por meio do franco-pensador Olavo de Carvalho, isolado de vez no governo, o presidente Jair Bolsonaro, tratou de trazer de volta para o seu lado os militares, que são colocados agora num jogo perigoso. 

Num mundo cheio das falácias do meio digital, caberia aos esclarecidos colaborar para que fossem sepultadas. E hoje o Brasil enfrenta um único e verdadeiro inimigo: o encantamento das serpentes, que é o acobertamento do crime por meio da política, turbinada pelas redes sociais.

O grande princípio que norteou e trouxe sucesso à Lava Jato, aceito pelo Supremo Federal e a Justiça de forma geral, é o fato de que o crime do colarinho branco nunca deixa digitais. Usa laranjas e outros expedientes para colocar um anteparo entre o mentor e beneficiário do crime e o crime propriamente dito.

A Lava Jato só pega essa gente graúda porque usa outros instrumentos, como a delação premiada - testemunho também é prova. Isso porque pela primeira vez na história brasileira tem o objetivo de pegar os mandantes, e não a peãozada.

Assim foi com Lula, que tinha propriedades em nome de amigos, contas em nomes de outras pessoas, e ainda usava seu poder de encantar as massas para fazer pressão sobre o poder público. Dizia que não existiam provas, porque não há as digitais, e convocava a militância para as ruas, querendo fazer parecer perseguição política o que era apenas um processo criminal.

Ao convocar a manifestação de 26 de maio, o presidente Jair Bolsonaro segue o mesmo caminho. Começa a aparecer no seu rastro um grande laranjal. Sua ex-mulher, Ana, e outros parentes foram detectados como funcionários fantasmas que devolviam o dinheiro do salário ao filho, Flávio Bolsonaro, por meio de Fabrício Queiroz - a prática da chamada "rachadinha"

O Ministério Público viu aí uma "organização criminosa", que explorava sistematicamente esse esquema para arrecadar . Investiga ainda as relações de Flávio com as milícias, pela proximidade com o Capitão Adriano e o fato de enriquecer negociando imóveis - uma das áreas onde atuava o Escritório do Crime, do capitão hoje foragido da polícia, suspeita ainda de envolvimento na morte da vereador Marielle Franco.

Pior: o presidente, que tinha a ex-mulher no esquema, além de outros funcionários que fantasmagoreavam tanto no seu gabinete quanto no de Flávio, parece indissociável da investigação sobre o filho. A "organização" dos Bolsonaro, pelo que verificou o MP, é uma coisa só.

Ao querer agora associar a investigação a um ataque político, tanto do Congresso quanto do STF, Bolsonaro faz exatamente como Lula. Procura jogar uma cortina de fumaça sobre uma investigação criminal.

"Não vão me pegar", bradou ele, ao seu estilo. Talvez mostrasse mais virilidade se fizesse passar os projetos no Congresso, em vez de se mostrar reclamando do sistema e tão preocupado com a própria sombra, atirando até mesmo nos próprios colaboradores.

O Congresso foi eleito de forma tão legítima quanto Bolsonaro. Sua resposta às iniciativas do governo tem também a legitimidadde da delegação popular. Não adianta reclamar de uma emparedamento. Se o governo Bolsonaro está parado, é mais por seus próprios erros. E não adianta culpar os outros.

Nós já sabemos como acabam essas histórias. Para a Lava Jato, não importa que o dinheiro entrou nos gabinetes dos Bolsonaro na forma de depósitos à vista de origem indeterminada. Nem que o operador seja Fabrício Queiroz. Eles têm os instrumentos, hoje em dia, para chegar ao mandante. Os Bolsonaro sabem disso, Por isso, o presidente já coloca na rua sua máquina de pressão, a pretexto de estar sendo vítima do "sistema".

O Congresso não é um ninho de anjos, é verdade. Porém, o "sistema" tambem foi feito para conter descalabros e colaborar para a investigação de crimes de um poder pelo outro. É o republicanismo, de que Bolsonaro tanto fala, e seu pleno funcionamento.

Ao acusar o Congresso de golpismo, Bolsonaro não quer contestar ou purificar o sistema, como alega. Quer apenas salvar a sua própria pele. Ou arriscar seu próprio golpe. E jogar a população contra oura Casa onde os integrantes foram eleitos, tanto quanto ele.

Um triste cenário, para um país que precisava de união e serenidade, de modo a devolver a tranquilidade necessária para a retomada dos investimentos e a volta do crescimento econômico, para não diz da paz institucional.

Quando o peão entra no rodeio ou o toureiro na arena, não pode reclamar o touro é bravo. Ou que o Centrão quer prevaricar, que o Rodrigo Maia não se deixa adestrar, que a imprensa critica e muito menos que a oposição não deixa governar. Agora marcam passeatas para exigir que o touro fique mansinho como um boi capão.

O presidente Jair Bolsonaro mandou  o franco-pensador Olavo de Carvalho "calar a boca", segundo o próprio Olavo, por estar tumultuando o governo com seus xingamentos e declarações, disparados a torto e a direito. Seria um pouco de tranquilidade, ou uma nova era? Que nada. O presidente agora se encarrega pessoalmente de disparar torpedos contra o próprio governo.

As manifestações de rua, as investigações sobre as contas da família e o destempero verbal não seriam tanta ameaça para o presidente Jair Bolsonaro se, como ocorre com Donald Trump nos Estados Unidos, a economia andasse às mil maravilhas. Pior: no caso brasileiro, a economia só voltará a andar se o governo demonstrar um pouco de equilíbrio e estabilidade - tudo o que lhe faltou em cinco meses de ação.

O que importa no mundo de hoje é a narrativa, não os fatos

Como se explica que o presidente Jair Bolsonaro venha em defesa do franco-pensador Olavo de Carvalho, mesmo depois de seu aliado intelectual ofender da forma mais aviltante os militares, a começar pelo vice-presidente, Hamilton Mourão, além dos generais da reserva que formam o mais alto escalão do governo?

Qual a justificativa para a anuência do presidente, diante de um colaborador que incendeia o próprio governo, chamado os militares de "bostas" e "covardes que se escondem atrás de um doente em uma cadeira de rodas" ? (No caso, o general Eduardo Villas Bôas, assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional, a quem o próprio Bolsonaro, na sua despedida do alto comando do Exército, já disse dever a própria eleição).

Como ele, que diz ver a maior importância nas Forças Armadas, inclusive na sua administração, não reprime um apoiador para quem a última contribuição da instituição à "alta cultura" no Brasil foi "a obra de Euclides da Cunha"?

Parece inexplicável, ou consoante com uma personalidade esquizofrênica, mas a explicação existe. E é a mais simples possível. Bolsonaro concorda com Olavo.

O presidente tem mostrado, no exercício do cargo, duas personalidades. Uma, hoje se sabe, é política. Em público, o presidente diz ter orgulho de ser militar, demonstra afeto pela sua origem e presta homenagem à instituição e seus integrantes. O outro Bolsonaro, o verdadeiro, tem razões antigas para nutrir pelos militares um ódio cujo tamanho só se enxerga agora.

Essa raiva vem de longe. Em 1986, ainda capitão do Exército, Bolsonaro escreveu um artigo, publicado na seção de opinião da revista Veja, em que reclamava dos baixos soldos. Essa aproximação com a revista fez com que ele revelasse à publicação, no ano seguinte, o plano de explodir uma série de bombas em quartéis do Rio de Janeiro - na prática um ato terrorista, com o objetivo de chamar a atenção do alto comando, em especial o ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves. Acreditava ser assim o verdadeiro defensor da causa militar.

Deu a entrevista sob sigilo - em jornalismo, o direito à proteção da "fonte". Contava a história, mediante o compromisso de seu nome não aparecer. Seu objetivo seria apenas causar alarme. "São só umas espoletas", minimizou.