25 Mai 2019

Um tiro na legitimidade de Bolsonaro

Por   Qua, 08-Mai-2019
O presidente: jeito de golpe O presidente: jeito de golpe

Com o decreto em favor da difusão da venda e porte de armas no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro avança na sua agenda particular sem ter avançado na agenda coletiva - especialmente a criação de empregos. É a agenda da maioria, e não a do reduzido grupo ideológico com que ele começou sua campanha eleitoral, que lhe deu os votos da eleição e a legitimidade para governar. 

Ao falhar na agenda majoritária, ao mesmo tempo em que vai abrindo brechas para implantar as ideias que compartilha com o franco-pensador Olavo de Carvalho em áreas como a Educação e a política externa, Bolsonaro na prática vai indo contra a corrente que o elegeu.

Ao desafiar a lei, como é o caso do Estatuto do Desarmamento, ainda em vigor, Bolsonaro ganha espaço na sua guerra de posição, num governo caracterizado por isso mesmo - a conquista de território por meio do conflito aberto, seja pela intimidação dos outros por meio das redes sociais, seja pela perfuração da lei.

O avanço de Bolsonaro é apresentado por ele mesmo como mero cumprimento de suas promessas de campanha, mas pode ser apenas um tiro no pé - ou mesmo no coração. A maior parte do eleitorado votou em Bolsonaro não porque ele queria liberar a arma para o cidadão ou acabar com a ideologia de esquerda nos livros escolares. E sim porque pretendia afastar do governo o PT e, com ele, seu projeto de perpetuação no poder e a corrupção.

Mais: votou em Bolsonaro para fazer a economia voltar ao trilho, com a retomada do crescimento econômico sustentável e do emprego.

O que está acontecendo, mesmo, é bem diferente. Por enquanto, a economia continua inanimada. Mesmo no combate à corrupção, o governo não avança.

O pacote anti-crime do ministro Sérgio Moro segue parado no Congresso, onde o governo, por conta da sua natureza, tem dificuldade de mover-se.

Quanto à corrupção, Bolsonaro assiste como se não fossem com ele as investigações sobre dinheiro vivo depositado na conta de um ex-assessor, Fabrício Queiroz, lotado no gabinete de seu filho Flávio, quando deputado estadual no Rio de Janeiro. A polícia do Rio colheu muitos indícios suspeitos da proximidade do clã Bolsonaro com os milicianos do Rio, não apenas por lucrar com imóveis, como empregar no gabinete de Flávio parentes de um chefe da milícia, o Capitão Adriano, morador do mesmo condomínio que o presidente.

Pode ser tudo coincidência, claro, como já afirmou o presidente, mas é muita coincidência para livrar a ele e seus filhos de um exame mais detalhado.

A indicação de que os Bolsonaro podem ter ligação com os homens que, entre outras coisas, mataram a vereadora Marielle Franco, seria fatal para um governo que já virou a cara para a grande massa do seu eleitorado. A legitimidade de um governo se deve à aliança com a maioria. Bolsonaro, porém, já demonstrou estar mais apegado às ideias que no início da corrida eleitoral lhe davam não mais que 17% das intenções de voto, o que coloca 83% do outro lado.

Ao agarrar-se à sua ligação com o franco-pensador Olavo de Carvalho, dizendo num Twitter que muito deve a ele por sua eleição, Bolsonaro tenta legitimar suas ideias mais conservadoras - para não dizer retrógradas. E que, na prática, têm o apoio da minoria da população.

Enquanto a economia permanece estagnada, o presidente expurga funcionários, corta verba de universidades, persegue adversários - incluindo os militares de seu próprio governo, alarmados pela velocidade com que a administração vai adernando para o lado direito. Impõe seu estilo autoritário, que vai desafiando a lei e, graças ao linguajar de Olavo e seus seguidores, atropela a educação mais elementar, numa truculência que não custa passar do nível verbal para o físico.

Ao abarcar as causas minoritárias, e deixar de cumprir a plataforma assumida com a maioria, Bolsonaro na prática vai perdendo a legitimidade no governo. Vai sendo não o presidente da maioria, mas dos 17%. Com o seu banho de votos no segundo turno, Bolsonaro não legitimou todas as ideias que pregava antes de cavalgar a fúria antipetista. Se acreditar nisso, não sabe o que é democracia nem está medindo as consequências do que tem feito. Vai se isolando no poder.

No fim das contas, Bolsonaro não está cumprindo promessas de campanha. Ele prometeu acima de tudo mudar a lógica segundo a qual funcionava o poder público federal, baseada na instrumentalização do aparelho de Estado, em benefício de um projeto político e da corrupção.

Em vez de bani-lo, Bolsonaro vem fazendo o reaparelhamento ideológico do aparelho do Estado, apenas substituindo o ideário do PT pelo seu próprio, sob os auspícios de Olavo de Carvalho. Falta agora apenas reinstalar a corrupção. Isso não é fazer diferente do PT. É fazer como o PT - apenas com o sinal trocado.

O governo de Bolsonaro vai se configurando assim como uma trapaça eleitoral, em que a minoria aproveita o momento para ter maioria, toma o poder e impõe um projeto minoritário a todo o país. É o mesmo que fez o PT, com mais açodamento, menos competência e uma coleção de trapalhadas.

Não basta a eleição para legitimar um presidente. Ele se legitima no dia a dia. Se ficar configurado que Bolsonaro usará o poder apenas para impor uma ideologia autoritária ao país, deixando a população ao sabor da crise, sua passagem pelo Palácio do Planalto não passará de mais um mero efeito colateral da era danosa do PT.

E estará sujeito aos mecanismos de proteção da República, useira e vezeira em recorrer a qualquer desculpa para disparar um processo de impeachment por motivo de força maior.