23 Jul 2019

Os fatores que podem derrubar um presidente

Por   Seg, 29-Abr-2019
A pobreza na rua: retrato do momento A pobreza na rua: retrato do momento

Passados os primeiros meses, já se podem dizer algumas coisas a respeito do governo Bolsonaro. A principal delas é que se trata de um governo politicamente fraco - ainda mais débil, em matéria de sustentação política, que o de Michel Temer.

Afastado do Congresso, do seu próprio partido e agarrado a outros aliados misóginos, como o franco-pensador Olavo de Carvalho, o presidente se isola no Palácio do Planalto da mesma forma que se isolava no Congresso Nacional.

Nos corredores dos edifícios do poder em Brasília, corre por enquanto um pacto feito aos sussurros, segundo o qual é melhor que Bolsonaro vá até o fim de seu mandato, do jeito que está: nem forte que possa sonhar em concorrer novamente à presidência, nem tão fraco que traga de volta o fantasma do lulismo.

É nesse segundo ponto que moram as grandes preocupações. Porque há muitos fatores capazes de deixá-lo pelo meio do caminho.

Déficit desastroso

A maior dessas preocupações é com a economia. Caso Bolsonaro não reative o Brasil, e logo, sofrerá inevitavelmente as mesmas pressões que Dilma Rousseff.

Alguns indícios são alarmantes. Tendo como compromisso número 1 resolver o problema das contas públicas, o governo federal registrou em março um desastroso déficit de 21,1 bilhões de reais, segundo dados divulgados pelo Tesouro Nacional.

Esse resultado foi o segundo pior da série histórica, que começou em 1997, vinte anos atrás.

Com isso, o déficit no primeiro trimestre da atual administração, de 9,3 bilhões de reais, só não foi pior graças ao mês de janeiro, quando houve um saldo positivo de 30,2 bilhões. Significa que o esforço de austeridade empreendido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, ainda está longe de se traduzir em resultado. 

Outro fator que pode levar Bolsonaro a ser emparedado é sua relação com o Congresso. Caso não consiga fazer passar o pacote anti-crime ou a reforma previdenciária, cujo efeito nas contas públicas se dará somente no longo prazo, o presidente terá na prática perdido o poder de governar.

Caso o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, resolva bloquear os projetos do Executivo, Bolsonaro será mero espectador, na cadeira que ocupa. E candidato a cair dela, na primeira oportunidade.

Outro fator de desestabilização é a desmoralização da figura do presidente. Bolsonaro sofre com as idas e vindas da sua administração, que fazem seu discurso de durão ir virando uma desfile de bravatas. Decisões que o presidente tem de invalidar no dia seguinte alimentam a sensação de que ele quer mandar em tudo e no final não manda tanto assim.

Essa falta de confiança dá razões ao próprio Bolsonaro de suspeitar do vice, o general Hamilton Mourão, apontado por seu filho Carlos e Olavo de Carvalho, sob o manto protetor do pai, como um "conspirador".

De tanto acreditar que Mourão quer o seu lugar, Bolsonaro colabora para que a paranoia vá se tornando realidade. Seu método de atacar o vice e outros usando o filho Carlos nas redes sociais faz com que seus próprios colaboradores passem menos a temê-lo que a detestá-lo.

Caso os militares se cansem de enfrentar o método tortuoso de comando e as inclinações do presidente para o olavismo galopante, uma saída coletiva do Planalto seria um sinal inequívoco de que o governo não tem jeito. Isso poderia derrubar o resto de credbilidade do governo e disparar uma reação em cadeia contra Bolsonaro que pode ser fatal.

Ameaça na rua

Outra ameaça a Bolsonaro, não menos importante, é o que acontece na rua. O presidente correu para tirar da frente a nova greve preparada pelos caminhoneiros porque sabe não ter a força nem mesmo de Temer para enfrentar uma situação desse tipo, agora.

Paira também sobre o presidente a incômoda proximidade da família com as milícias do Rio de Janeiro. Até agora, isso foi tratado por ele e seus filhos como coisa sem importância, nem fundamento. Contudo, basta crescer a impopularidade do presidente para que uma faísca de suspeita qualquer se transforme em incêndio.

Caso as investigações tragam algo mais preciso sobre a proximidade de Bolsonaro e seus filhos com os membros das milícias, sugerindo algo mais que a simples vizinhança no mesmo condomínio da zona sul, a crise seria fatal. Vindo de milicianos cariocas ou funcionários fantasmas, o dinheiro vivo depositado nas contas do assessor Fabrício Queiroz se tornou a evidência que pode decidir a direção da República.

Colocado ao lado do crime que ele combateu para se eleger, não adiantará o discurso pró-armamento e de que violência se combate com violência. A morte de Marielle Franco por milicianos deixou bem claro de que lado está a maior parte da sociedade brasileira.

A sorte de Bolsonaro será decidida, contudo, nos indicadores econômicos. No Brasil, quando a economia vai bem, perdoa-se até os maiores males. Quando as coisas vão mal, qualquer desculpa fajuta serve para apear um governante. Haja visto o caso de Dilma, defenestrada sob o pretexto das "pedaladas fiscais".

A pobreza flagrante nas ruas das grandes metrópoles é o melhor retrato do Brasil de Bolsonaro. Caso o resto da população vá também para a rua, protestar contra a crise econômica ou as vãs promessas de moralização da política, Bolsonaro verá como é possível estar sozinho diante de milhões de pessoas.

O presidente recebeu um grande voto de confiança. Porém, tem colaborado fortemente para, depois da glória máxima, experimentar o lado oposto, o do opróbrio - a mais extrema rejeição.