17 Out 2019

Os cães vestidos como homens

Por   Ter, 09-Abr-2019
 Retrato, by Fido Croquetti Retrato, by Fido Croquetti

"Desejo toda sorte do mundo ao ministro Weintraub, e só advirto: se aparecer algum Croquetti dando palpite, esconda-se no banheiro", escreveu no Twitter Olavo de Carvalho.

O mentor intelectual da extrema direita adotado pelos Bolsonaro aconselhou assim Abraham Weintraud, que entrou no Ministério da Educação no lugar de Ricardo Vélez, olavista defenestrado após três meses de turbulências cotidianas, para fazer o mesmo papel que seu antecessor - se possível, melhor.

"Croquetti" é uma referência ao coronel aviador Ricardo Roquetti, ex-assessor especial de Vélez, que teria perseguido e afastado membros do olavismo da pasta para instalar seu próprio pessoal. E contém um trocadilho com Fido Gabriel Croquetti, pseudônimo de um artista satírico que coloca cachorros no lugar de personagens de quadros clássicos.

Carvalho refere-se a inimigos ideológicos, que para ele são como cães, mas a imagem bem poderia servir também para ele, que reveste de uma suposta erudição um comportamento de viralata, o cachorro sem estirpe, nem educação.

Carvalho se apresenta como intelectual, mas seu principal trabalho é latir pelas redes sociais, de modo a intimidar pessoas e instituições - método para constranger adversários e avançar à tomada mais completa do poder.

Apologista da intolerância, seu inimigo é qualquer um que seja diferente dele mesmo. Ataca até o empresariado e o sistema bancário, tradicionais conservadores, mas que para ele são também"comunistas", tanto quanto a esquerda em geral, e o PT de Lula, em particular.

Ataca até o próprio governo, como se não fosse parte dele, como seu mentor intelectual. Pode parecer estranho que o presidente Jair Bolsonarotenha jantado na casa do embaixador brasileiro Sérgio Amaral, em Washington, recentemente, ao lado do homem que parece querer desestabilizar seu governo. Há nisso, porém, um sentido esclarecedor.

O presidente e Carvalho não querem apenas o governo. Combatem ao mesmo tempo a esquerda e o empresariado pelo simples fato de que fazem parte do sistema. E é o sistema que eles querem mudar.

Estão de acordo no uso de dois instrumentos que visam não apenas governar, mas, assim como fazia o PT, com ideologia trocada, atacar o regime democrático, suas instituições e seus componentes. O presidente, assim como Olavo, tem hoje a possibilidade de  desmontar o sistema pelo lado de dentro.

O meio para isso é usar seu pequeno mas barulhento grupo de seguidores e mobilizar a população revoltada com a corrupção, a insegurança e a crise econômica - a massa antes manobrada antes pelo PT - com o canal das redes sociais - a "linha direta" com o povo, como gosta de chamar.

Weintraud compartilha a mesma visão. A prova de que socialistas e capitalistas brasileiros são farinha do mesmo saco, segundo afirmou em palestra recente promovida por Eduardo Bolsonaro a um grupo de sectários reunidosnum resort em Foz do Iguaçu, é que a elite brasileira apoiou Lula e teria financiado a campanha de Fernando Haddad,

Ao tirar do caminho a imprensa democrática como intermediária da informação, ou o próprio Congresso, forçando-o pela pressão das redes sociais a aprovar o que pretende, O olavismo bolsonarista na prática dribla o próprio regime democrático, não apenas para fazer passar seu programa de governo, como para instaurar um projeto de poder.

É de Carvalho a ideia por trás do método. Politicamente, Bolsonaro sabe que não tem a maioria do eleitorado, que votou nele apenas contra o PT. Assim como Fidel Castro, que mantinha a mobilização do país em discursos ao vivo pelo rádio e depois a TV, numa guerra permanente ao inimigo invisível - o "imperialismo americano" - ele precisa manter a massa mobilizada contra a ameaça da volta do petismo para continuar governando. Enquanto isso, vai ocupando a estrutura do Estado.

É a consolidação do olavismo para a tomada do poder, ideologicamente falando, em favor de uma extrema direita que, na eleição, era a minoria, mas pode aproveitar esse trampolim para manter-se no poder, à revelia dos interesses da maioria e do próprio regime democrático.

Quando ganhou a primeira eleição com Lula, o PT não partiu diretamente para a dominação ideológica. Precisava de tempo para controlar o aparelho de Estado. Comprou literalmente o Congresso, por meio do Mensalão, para ir passando pouco a pouco seu projeto. Quando o Mensalão foi denunciado, o Estado já estava aparelhado, mecanismos populistas como o Bolsa Família funcionavam e a rede de comunicação era azeitada por dinheiro público.

Com essa máquina nas mãos, foi difícil apear o lulopetismo do poder. Houve o movimento político nas ruas, depois a ação da Justiça contra o Mensalão e o petrolão, a ação do Congresso para destituir Dilma Rousseff e por fim a prisão de Lula, com a utilização de meios que por vezes tiveram de fazer certa vista grossa a rigores formais da lei.

Bolsonaro não pode fazer outro mensalão e governar na base da corrupção dos políticos porque, diferentemente do PT, primeiro, pegou um Estado sem caixa. Segundo, não vai cvorrer o risco de ver a fatia do eleitorado que ainda o apoia voltar-se contra ele.

No momento, o presidente encontra dois focos de resistência contra seu projeto. O primeiro é o Congresso, que começa a enxergar do que se trata. Outro está dentro do próprio governo. Bolsonaro mantém a seu lado os militares, que lhe emprestaram sua crebilidade institucional, formam a parte funcionante do governo, mas vêm defendendo a democracia brasileira desde que o próprio PT de Lula flertou com um golpe à venezuelana, na crise que resultou no impeacjhment de Dilma.

Bolsonaro sempre foi o enfant terrible das alas militares. Foi expulso da corporação por fugir das regras, e sempre foi considerado um pária da corporação, por conta do extremismo e da insubordinação. Saiu das Forças Armadas porque elas não o podiam controlar. Bolsonaro diz que não é político, e sim um militar, mas hoje está muito mais perto de Olavo de Carvalho que de uma farda verde-oliva.

Dessa vez, como presidente eleito, os militares não podem simplesmente expulsá-lo. Porém, sem os militares, Bolsonaro sabe que perderia ainda mais rápido o que ainda possui de credibilidade. É a única força que impede o olavismo de se espalhar como um virus em Brasília.

O grupo que gravita ao redor de Olavo é como as imagens de Croquetti. Os cães vestiram as roupas do rei e estão dentro do Palácio. Parece coisa fina, mas é gente mantida na coleira, por enquanto apenas latindo, com seu discurso de ódio, propositadamente chulo, conforme preconizado por seu mestre. Alguma hora, a coleira pode ser solta e os bichos poderão morder. É a feição de um golpe, assim como o próprio PT ensaiou, de uma forma mais sutil, ao longo do tempo. 

Na última eleição, o Brasil saiu de uma arapuca para cair em outra, do outro lado. A democracia brasileira, por meio das instituições que vêm impedindo golpes, da Justiça aos próprios militares, até agora tem funcionado para evitar a queda no alçapão.

Resta saber quando sairemos desse jogo, em que vamos sendo empurrados de um lado para o outro. E ter um governo democrático, mais preocupado com o progresso que com ideologias que, à esquerda ou à direita, têm o objetivo de  instalar uma nova moral e um Estado que, ao seu final, tem o focinho do totalitarismo.