2 Jul 2020

O último táxi da Piazza Aldrovandi

Por   Ter, 09-Jun-2020
A piazza: "momento capuccino" A piazza: "momento capuccino"

Em um momento decisivo da Segunda Guerra Mundial, após a retirada das tropas inglesas e aliadas em Dunquerque, na costa francesa, e antevendo a chegada em breve dos alemães no que seria a Batalha da Inglaterra, soaram no rádio as palavras do primeiro-ministro inglês Winston Churchill, conclamando os britânicos a lutar nas praias, campos, ruas e colinas: “Nunca nos renderemos”. Foi seu discurso mais famoso, que moldou não apenas o espírito dos ingleses como o próprio rádio, que se consolidou como instrumento político e de mobilização.

Aqui, no Burgo Panigale, passo meus dias desde a pior fase da pandemia, a Fase 1, aquela que, normalmente, antecede a Fase 2, na qual o país se encontra hoje: mobilidade com distanciamento e máscara, convívio social limitado, lugares alternados em ônibus, restaurantes e bares, fábricas da Ferrari e Lamborghini funcionando; um “momento cappuccino”, segundo os irônicos jornais ingleses – talvez sem se dar conta do temor de uma recaída que acompanha os italianos a cada saída para um café. As fronteiras com os vizinhos europeus foram reabertas, o que foi tratado como um Dia-D. 

Cada época e país têm a guerra, a mídia e o Churchill que lhes cabem – ou merecem. Os que estivemos em quarentena, e agora em convívio social distanciado, na Itália, por conta da pandemia Covid-19, ganhamos resiliência acompanhando diariamente, pela Internet, il calo – a queda – do número de novos infetados pelo coronavírus e o aumento paulatino dos curados e da oferta de leitos de UTI.

Na tela de computadores e celulares, que substituem as caixas dos rádios antigos valvulados, assistimos aos boletins da vigilância sanitária às cinco da tarde, em videoconferências transmitidas nas redes sociais.

“Estamos atravessando o rio. Estamos quase lá”, era a imagem recorrente do bravo dottor Sergio Venturi, Comissário para a Emergência Covid-19 da Emilia-Romanha, região no centro-norte da Itália, o principal porta-voz local da resistência ao vírus. Exibindo um ar jovial, aos 65 anos, Venturi destilou, por dois meses, na Internet, calma frente à tragédia, precisão informativa diante da ignorância e versões desencontradas, dimensão humana frente à ameaça econômica e um senso de orientação coletiva a milhares de italianos e não italianos atônitos que, como eu, acompanharam as transmissões.

A comparação da pandemia com o estado de guerra, frequente entre italianos e europeus, é mais do que retórica. E estabeleceu-se logo no início da pandemia: em dez dias, a partir de meados de fevereiro, data da minha chegada, as cidades italianas saíram de um estado de normalidade para o maior desafio enfrentado pelo país desde 1945.

Polícia e exército ocuparam ruas para impor a quarentena, barricadas foram colocadas entre bairros para impedir a circulação, drones fiscalizaram a movimentação imprudente nos feriados, bandeiras, cantorias, hinos e aplausos aos “médicos no front” surgiram nas sacadas dos prédios e as pilhas de caixões em Bergamo e Brescia falaram por si.

As histórias passadas de horror e escassez, relembraram, afinal, o que é o perigo de uma batalha: a morte diante de um inimigo letal. A memória, portanto, é uma arma crucial. Daí a comoção proveniente da perda desproporcional, na Itália, da vida de anciãos: “Adeus aos Nossos Avós” foi uma das manchetes inesquecíveis da crise, estampada pelo jornal La Repubblica, na Páscoa. Das 33 mil mortes oficialmente reportadas por Covid-19 até o momento, 80% são de pessoas – os heróis - de 70 anos ou mais.

O principal trunfo do invasor foi a surpresa. Como as blitzkrieg alemãs, a estratégia do vírus foi o ataque fulminante, desestruturando o inimigo – nós – em frentes paralelas, desorientando os sistemas de imunidade física e social. A crise política, por exemplo, foi simultânea à corrida aos hospitais.

Houve embates entre os governadores das regiões – principalmente os da Lombardia e Vêneto, ao norte, as mais atingidas e ricas – e o governo central italiano, por conta do fechamento da atividade comercial e industrial.

Casos pequenos, individuais, tornaram-se espetaculares. Sendo assim, posso citar o meu: surpreso com o fechamento da Universidade de Bolonha, uma semana após o início do curso que foi a razão de eu estar aqui, tive os momentos mais intensos de paúra na solidão de um Airbnb, na região central da cidade.

Bolonha, a animada capital histórica da Emilia-Romagna, com seus 40 quilômetros de pórticos, que a transformam em um labirinto e lhe dão o ar austero, medieval, é linda e inspiradora, em tempos de paz. Torna-se fantasmagórica e sombria num lockdown; uma tumba a céu aberto, me pareceu, no caso de uma contaminação.

Distante da família, que permaneceu no Brasil, fui salvo das ondas de ansiedade pelo convite de um recém-conhecido, bolonhês descendente de Ugo Bassi, religioso nacionalista que dá nome a uma das principais avenidas da cidade, para me instalar em sua residência, nos arredores do aeroporto, oportunidade surgida como um milagre no último dia antes do fechamento total (devo ter pego o último táxi da Piazza Aldrovandi, o provável título para um livro que ainda irei escrever).

Símbolos e metáforas importam porque para o achatamento da curva de contágio é necessária uma elevação de natureza moral. Noções de coletividade, compaixão, resignação, empatia e compromisso mútuo, percebi, estão ligadas ao enfrentamento de um desafio dessa natureza. Ideias, palavras e atitudes contam tanto para vencer o coronavírus quanto a compra de respiradores; segurança significa uma população ter uma única direção quanto ao que se deve fazer.

Do ponto de vista sanitário e, portanto, científico, a certa altura não houve dúvidas quanto a isso nos termos da Itália e da União Europeia (com a duvidosa, em termos de eficácia, exceção sueca). A própria noção de liberdade, tão cara ao pensamento político do continente, teve de se readequar.

Digamos que sofreu um revés: John Locke cedeu seu honroso lugar libertário a Aristóteles; liberdade, desacompanhada de sabedoria e virtude e desvinculada da participação ativa de cada um no destino da pólis, tornou-se sinônimo de contágio e estresse hospitalar - uma liberdade cloroquina, que não teve lugar aqui.

Com os índices atuais de contágio em seu patamar mínimo, o bravvo dottor Venturi não transmite mais os boletins diários. Seu posto foi retomado pela equipe sanitária convencional. Talvez seja o caso de abrir um vinho e meu anfitrião escolhe L’Innominato, tinto produzido na região de Predappio, 100 km a sudeste daqui.

Quem seria o inominável? O rótulo escuro da garrafa traz a imagem sombria do Rocca Dello Caminalle, castelo que era residência de verão de Mussolini, nascido, justamente, em Predappio; e pendurado de ponta cabeça depois de ser fuzilado, numa viga de aço de um posto de gasolina, em Milão. A história de uma guerra, a que será lembrada por um povo, pode ter um Churchill ou um Inominável. Cabe a cada nação escolher.