25 Mai 2019

Brasil: o que somos e o que queremos ser

Por   Seg, 11-Mar-2019
Bandeira em São Bento do Sapucaí: esperança e realidade Bandeira em São Bento do Sapucaí: esperança e realidade

Na entrada da cidade de São Bento do Sapucaí, sobre um mastro de ferro em um antiquário semiabandonado, tremula hoje em trapos uma bandeira do Brasil. Esquecida por quem a colocou ali, ignorante da lei, que não permite o uso de uma bandeira desfigurada, ela é mais do que um símbolo: é o retrato bem atual daquilo que somos, em vez daquilo que queríamos ser.

O pedaço que falta nessa bandeira é a o que deveria ter sido realizado pelo Brasil ao longo dos últimos séculos. Nos quinhentos anos que nos separam da chegada dos portugueses à costa brasileira,  Nações ricas foram construídas com maior rapidez e durabilidade.

Os Estados Unidos se tornaram a Nação mais rica do planeta. Países como a Austrália e o Canadá possuem um nível de vida muito superior ao nosso. Os países do Velho Mundo, se bem que inicialmente às custas da colonização, se transformaram em países ricos, com um padrão de vida mais equilibrado entre todos os cidadãos, dentro de modelos democráticos que se sustentam há muito tempo, apesar das crises eventuais.

O Brasil também nasceu com grandes ambições. Dos bandeirantes que avançaram continente adentro, desde o tempo em que a dominação de Portugal pela Espanha parecia lhes abrir as portas para a conquista de todo o continente, a ambição da elite aristocrática consolidada na colônia brasileira anteviu as possibilidades do Gigante, então em nascimento.

Como vai contado no meu mais recente livro, A Criação do Brasil, o brasileiro foi o precursor histórico do capitalismo, com o desenvolvimento da indústria açucareira, a primeira feição da manufatura em larga série por meio da exploração da mão de obra (então, escrava).

O açúcar brasileiro era distribuído pelo mundo, com preços baseados no mercado internacional, sem concorrentes à altura. O aristocrata pernambucano se tornou uma elite potente e orgulhosa. Não se abalou sequer com a invasão da Holanda, que tratou de invadir o Nordeste brasileiro e as colônias de onde vinha a mão de obra africana, como agressão ao império filipino e projeto ultramarino, que visava controlar o monopólio mundial do açúcar antes português.

A retomada no Nordeste pelos brasileiros, em nome da coroa portuguesa, das colônias da África, devolvidas a Portugal pelo então governador das capitanias do Sul, Salvador Correia de Sá e Benevides, foram o prenúncio da retomada desse grande império, português na assinatura, mas brasileiro em sua construção.

Foi Correia de Sá quem colocou Raposo Tavares na missão da chamada Bandeira dos Limites, que estenderia a influência paulista do território das missões até a Amazônia, e serviria de base para o tratado, no século XVIII, que daria ao Brasil 5 dos seus mais de 8 milhões de quilômetros quadrados.

A ideia do Brasil grande, porém, aos poucos se tornou a do Gigante Adormecido. A aristocracia brasileira, acostumada à riqueza fácil e à exploração selvagem da mão de obra, acomodou-se à sombra do Estado, desde o tempo em que somente os "homens bons' governavam nas Câmaras que regiam a vida nas vilas coloniais e privilegiavam dali seus próprios negócios.

De líder do comércio internacional nos tempos do açúcar, o Brasil foi ficando para trás, com uma economia agrária e uma simbiose preguiçosa entre o empresariado e o Estado que perdura até os dias de hoje.

O choque de industrialização após a injeção de capital em São Paulo, na era de ouro do café, com a chegada do imigrante europeu como força de trabalho, foi o único impulso progressista em um país que, de resto, fez a opção pelo atraso.

O crescimento da população, que se tornou um grande mercado, e as riquezas do país permaneceram como um grande recurso inexplorado. O baixo nível da educação, a falta de competitividade das empresas e a a disseminação da corrupção permanecem como os grandes desafios históricos, até hoje não superados por diversas tentativas de poder.

Foi isso o que buscaram os militares no regime de 1964, que realizaram o efêmero "milagre econômico", com grandes investimentos estatais na infra-estrutura e programas educacionais de base como o Mobral. Essa estrutura se tornou pesada e, na hora de pagar a conta, o sistema faliu.

Consolidar esse novo Brasil, em bases democráticas e de uma economia mais dinâmica, foi a proposta da Nova República. Reconstrução ideológica da Nação brasileira, ela procurou depurar a gestão pública e levar o país às suas antigas ambições de grandeza pela reimplantação do estado de direito (Tancredo Neves), a redemocratização (Fernando Collor), a estabilização econômica (Fernando Henrique) e a justiça social (Lula).

Esses são os quatro pilares definidores do caráter do Brasil, num projeto que no entanto tem sido fraudado e obstruído pelas velhas práticas de uma elite que procura mais conservar o passado que construir o futuro.

O resultado é a disseminação da corrupção, o atraso competitivo da indústria na era global e o empobrecimento de um povo que hoje se encontra num estágio análogo ao do Brasil colonial. No cenário globalizado, não há mais como viver comodamente do Estado brasileiro, nem como criar reservas de mercado, derrubadas por negócios que hoje surgem literalmente por via virtual. Essa nova realidade apanhou o Brasil despreparado para o futuro e nos lança numa crise sem precedentes.

Mudar esse cenário não requer apenas uma reforma econômica. Se a elite não abre mão de privilégios, está na hora de mudar a elite. Uma mudança de gente e mentalidade, que nos tire do caminho da corrupção e do atraso para nos colocar na rota do progresso.

Se a história de um país é a história de suas elites dirigentes, precisamos de uma voltada mais para a globalização, que abandone a defesa de barreiras nacionais, hoje ineficazes ou inexistentes no mundo da internet e da globalização, para sermos competitivos no mundo.

É essencial formar uma elite convencida e praticante da ideia de que a administração pública voltada para o interesse público, e não para encher a burra de corruptores, constrói uma Nação melhor. E que isso será bom para todos e, sendo bom para todos, será também para a elite, de uma forma duradoura e sustentável para as gerações futuras.

Só assim poderemos deixar de viver de espasmos de crescimento  e crise, E recolocarmos na bandeira brasileira a grande parte que lhe falta, dando a este país o desenho que sonhou.