23 Jul 2019

A estratégia e os verdadeiros objetivos de Bolsonaro

Por   Ter, 02-Jul-2019
Bolsonaro: parece trapalhada, mas é estratégia Bolsonaro: parece trapalhada, mas é estratégia

Até aqui, o presidente Jair Bolsonaro vem sendo tratado por veículos e opinadores de mídia como um político meio desastrado, que teria um relacionamento ruim com o Congresso, dificuldade de fazer acordos políticos, e sem pulso no trato com os franco atiradores que deveriam estar ao lado do próprio governo - em especial, o guru Olavo de Carvalho e Carlos Bolsonaro, filho e mentor de comunicação digital do presidente.

Para esses detratores, Bolsonaro dá cabeçadas desde o começo, expelindo pelo caminho, sem querer, colaboradores de primeira grandeza - casos dos ex-ministros Gustavo Bebbiano e do general Carlos Alberto dos Santos Cruz. E deixaria livres os amigos da onça de maneira inexplicável.

Tudo tem explicação - desde que se aceite o fato de que o inexplicável, na realidade, é de propósito. Passados pouco mais de seis meses de governo, o que parecia  uma série de tropeços vai se configurando agora como um método político. A confusão não é resultado de incompetência. Mesmo o que às vezes parece sem lógica faz parte de uma estratégia, baseada em objetivos, que vão ficando cada vez mais claros.

Bolsonaro aprendeu com o PT. Para chegar ao governo, e também para governar, Lula optou por fazer alianças - sobretudo com a ala tradicional da política brasileira, que está por trás de todos os governos desde o de José Sarney, para não dizer desde o Primeiro Império.

Lula dependeu dessa base fisiológica para ser aceito como presidente e poder fazer maioria no Congresso, onde essa elite político-econômica se aninha em bancadas movidas por interesses próprios. Resultado: obrigado a ceder ao Mensalão, depois à corrupção generalizada, o PT viu seus líderes acabarem na cadeia e seu projeto de poder ir por água abaixo junto com o país.

Para não repetir o erro, Bolsonaro não negocia alianças. Em vez de sair para fora, ampliar seu escopo político, ele se fecha num núcleo que propositalmente fica cada vez menor. Bolsonaro vai desidratando o governo até mesmo de alianças importantes que fez durante a campanha eleitoral, como o seu partido, o PSL, e os militares, representados sobretudo pelo vice-presidente, Hamilton Mourão.

Bolsonaro já deu um piparote no PSL ao demitir Bebianno. Agora, diante do caso dos laranjas, se vê na situação de ter que se mostrar diferente do próprio partido, sem perder a bancada no Congresso. Deverá tratar o PSL como todos os outros, pressionando o partido pelas redes sociais.

Desde que assumiu o governo, Bolsonaro também vem esvaziando a ala militar. Autorizou Olavo e Carlos a distribuir pontapés em colaboradores diretos como Santos Cruz, um general respeitado até mesmo na ONU, que utiliza o manual escrito por ele como padrão para suas missões de paz.

Mourão, o único indemissível, foi forçado a silenciar diante da fuzilaria cerrada e incansável de Olavo, que não tem liturgia de cargo a respeitar. Os outros vão sendo fritados pouco a pouco. O general Augusto Heleno, militar de carreira brilhante, começa a ser tratado também aos chutes pela matilha digital do presidente. Bolsonaro o defende publicamente. Porém, mais uma vez, não faz nada para cessar o fogo dos seus atiradores de plantão.

O general Eduardo Villas Bôas, levado para o Planalto como assessor do GSI, tratado publicamento pelo próprio Bolsonaro como um salvador da pátria, no dia a dia não tem participação ativa no governo, a quem tem apenas emprestado seu prestígio, sem poder influenciar ninguém.

Com isso, Bolsonaro faz o contrário do PT, embora com o mesmo propósito. Livra-se de todo mundo e começa a colocar no governo o verdadeiro Bolsonaro - o homem de ideias reacionárias, que segue a cartilha de Olavo.

Este também tem sido tratado pela imprensa de forma errônea. Olavo não é um louco desbocado que o presidente protege como se fosse um pai débil mental. É o pensador político por trás do movimento que o presidente acredita representar, destinado a transformar o Brasil num país que, no campo moral, está mais próximo do Irã dos aiatolás que dos Estados Unidos de Donald Trump, paradigma político de Bolsonaro, segundo ele mesmo.

O guru do presidente colabora não apenas com a estratégia como o método para deixar no poder somente o núcleo real - formado pelo presidente, seus filhos e ele mesmo, Olavo. Baseia-se para isso em uma visão estratégica que segue uma interpretação muito própria e sagaz do cenário mundial. Olavo acredita que as grandes corporações ficaram tão grandes que passaram também a ser donas do Estado. Para ele, o capitalismo da era contemporânea é o novo comunismo - o grande inimigo a ser enfrentado.

Dessa forma, Olavo é um crítico não apenas do PT como de todo sistema político-econômico, para ele imoral. Para quem assiste suas aulas, fica claro que é dono de um pensamento organizado e de uma tática política de tomada do poder. Seu purismo é antigo e tem-nos mesmos defeitos do fascismo, mas usa o meio digital como instrumento moderno de comunicação direta com o eleitorado, de forma a cortar as fontes de força política tradicionais, dominadas pelas empresas e os políticos fisiológicos - cuja associação resultou no grande pantagruel da corrupção no Brasil.

Sua técnica é a intimidação, com o uso da ofensa e da agressividade nas redes sociais, de forma a ocupar espaço e inibir a liberdade de pensamento e expressão dos outros. Bolsonaro gosta de repetir que salvou a democracia do projeto de poder do PT, mas ele mesmo tem um projeto que, no polo oposto, é igualmente antidemocrático, na medida em que se baseia na exclusão das ideias conflitantes. Como o PT, Bolsonaro busca a chamada hegemonia, só que pelo seu viés mais conservador.

A expulsão paulatina dos militares do governo e a mordaça imposta a Mourão preocupam na medida em que, desde o impeachment de Dilma, têm sido os militares os avalistas da democracia brasileira, garantindo o cumprimento da Justiça, em especial o combate à corrupção, levado a cabo pela Lava Jato.

No dia em que os militares perceberem que Bolsonaro pode ser uma ameaça à democracia tão grande quanto o PT, e que foram apenas usados temporariamente e depois descartados no projeto olavista do presidente, a crise institucional estará instalada. Se perderem ainda mais espaço no governo, ficará evidente a inauguração da fase final do projeto bolsonarista.

Tirar os militares será uma cartada decisiva para o presidente, que ele vai preparando aos poucos, com o ardil dos conspiradores. E, como peça chave desse jogo, caberá aos militares resolver o que farão depois.