19 Nov 2019

O que acontece no Brasil com Lula livre

Por   Qua, 16-Out-2019

A possibilidade bastante real de Lula sair logo da cadeia, uma vez que já lhe foi oferecido pelo próprio Ministério Público o regime semiaberto, promete mudar radicalmente o cenário político nacional. Porém, mudar como? Para onde? Para que?

A situação do Brasil hoje é bastante diferente do Brasil das eleições, quando o PT apostou até último momento na libertação de Lula para colocá-lo diante de Jair Bolsonaro no segundo turno. Naquela época, a maior parte do eleitorado queria qualquer coisa menos Lula, elevando os 17% iniciais de Bolsonaro à maioria que o colocou no Palácio do Planalto. Hoje, a grande massa de brasileiros que se moveu para o lado de Bolsonaro contra Lula começa a pensar que até Lula pode ser melhor Bolsonaro.

Quem está produzindo essa reviravolta nos humores é o próprio presidente. Em vez de caminhar para o centro, Bolsonaro se recolheu no seu nicho de extrema direita, expulsou moderados do seu entorno e trabalha conforme as ideias de Olavo de Carvalho, o mesmo que, pelo Twitter, escreveu agora que "a coisa que pode salvar o Brasil é a união indissolúvel do povo, presidente e das Força Armadas". Bolsonaro não é Olavo, mas frequentemente o franco-pensador da extrema direita fala justamente o que o presidente pensa ou ainda vai pensar.

A pregação olavista mostra uma estratégia organizada na direção de um golpe. Visa mobilizar a população por meio da milícia digital do bolsonarismo e obter apoio para passar por cima do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, quando for a hora.

Depois de colaborar para expurgar do governo os militares moderados, que ainda por cima sofreram a baixa do general Villas Boas, tirado de cena pela sua doença degenerativa, Olavo apela aos militares, especialmente os da ativa. Sobretudo se o Congresso impuser obstáculos para as reformas, paralisando o país - e, catalisador dos conservadores de todos os matizes, Lula ficar livre.

Essa conspiração que começa a ser escancarada ganharia mais força se as coisas andassem bem na economia - mas elas demoram a andar. Mesmo a ditadura militar dependeu do "milagre econômico" para ganhar alguma legitimidade. E acabou se liquefazendo quando a economia, inflada por empréstimos internacionais, caiu em depressão sob o peso da dívida externa e da ineficiência da burocracia estatal nacionalista, levada ao extremo pelos sucessivos governos militares. O brasileiro viu que não havia milagre, muito menos em qualquer tipo de centralismo, e pressionou pela redemocratização.

Lula ainda pode ser o espantalho para justificar um golpe de direita, mas o que faria Lula, uma vez fora da cadeia, de fato? Ele seria o Lulinha "paz e amor" que cevou ao virar presidente no primeiro mandato, ou a besta-fera que vem para se vingar do sistema que o aprisionou e venezualizar o Brasil, como prega o bolsonarismo?

Quem conhece o ex-presidente sabe que, diante de dilemas políticos, ele é sempre surpreendente. Mas está claro seu objetivo: limpar seu nome e fazer a roda do Brasil andar, para glória de seu próprio nome.

Um sinal disso é o fato de Lula não querer sair da cadeia agora - ou melhor, não quer sair parecendo que recebe uma concessão do Judiciário, cuja imparcialidade ele questiona. Quer sair, isto sim, livre e inocentado. Possibilidade que as artimanhas dentro do STF já tornaram mais real.

Seria sua remissão - e uma monumental reconsagração política. Historicamente, ainda mais gloriosa que a de Getúlio Vargas, que foi primeiro ditador e depois voltou ao poder pelo voto popular.

Seria o capítulo final de uma extravagante novela que faria dele o político mais extraordinário da história do país. Agora, não só pela sua trajetória de ex-pau de arara que virou  presidente popular e liderança de expressão mundial, como pelo drama shakespereano que o fez conhecer sucessivamente o paraíso e o inferno, do qual sairia como um Virgílio imaginado ao mesmo tempo por Dante e Maquiavel.

Lula livre provavelmente será um pacificador, primeiro das Forças Armadas, como já foi no passado. Voltará a acenar para as multidões como o novo pai dos pobres. E, secretamente, como já fez antes, irá reimplantar seu projeto de poder, dessa vez sem deixar pontas soltas, de modo a não ser mais apeado.

Dessa forma, o Brasil se encontra diante de dois candidatos a implantar duas ditaduras - uma de direita, outra de esquerda. E, a menos que as Forças Armadas continuem a agir como garantia da democracia, ao lado das cabeças progressistas da sociedade civil, desencantadas com os extremos ou enfim conscientes de que a polarização ideológica somente nos levará ao desastre, é bem isso o que pode acontecer.