19 Set 2019

O presidente indigente

Por   Sex, 16-Ago-2019
Bolsonaro na Copa América: falta a austeridade Bolsonaro na Copa América: falta a austeridade

O presidente Jair Bolsonaro deu para se lamentar da indigência do governo, para justificar cortes e contingenciamentos. Na sexta-feira, dia 16, reclamou que não há recursos para fazer nada. "Não tem dinheiro e eu já sabia disso", afirmou. "Estamos fazendo milagre, conversando com a equipe econômica. A gente está vendo o que a gente pode fazer para sobreviver."

Depois de prometer arrumar a casa na campanha eleitoral, Bolsonaro mais se justifica que promete. Afirma ter fé de que as medidas adotadas na área da economia ainda venham a fazer efeito. A realidade, porém, é de um governo condizente com um país onde os desabrigados se amontoam nas ruas das grandes cidades e 12,8 milhões de desempregados, segundo o IBGE, já não sabem o que fazer.

Na quinta, o CNPq avisou que suspendeu as bolsas de estudo para universidades. Por falta de recursos, o presidente se encarregou ele mesmo de informar que o Exército vai reduzir sua carga horária. Não há nem comida nos quartéis - o que dirá munição.  "O Exército vai entrar em meio expediente", disse. "Não tem comida para o recruta, que é filho de pobre. Essa situação em que nos encontramos é grave, não é maldade da minha parte, não tem dinheiro. Só isso."

Seria o caso de a população solidarizar-se com o presidente que pegou um governo esfrangalhado pela última farra do boi, que não é culpa dele. Porém, as coisas não são bem assim. Por duas razões.

A primeira é que não há muita certeza sobre o sucesso do plano econômico de Bolsonaro. É certo que é preciso cortar gastos, privatizar estatais e tirar o Estado quebrado e ineficiente de cima da economia. Porém, iniciativas como as privatizações, algo já feito no passado, e a atual Medida Provisória da Liberdade Econômica parecem ainda pouco para fazer o Brasil andar.

Na prática, o desmonte das relações formais, sobretudo na área trabalhista, pode ser um tiro pela culatra. Estimula ainda mais a informalização também da economia, um dos fatores que fazem cair a arrecadação federal. Num país onde se desfazem as relações formais, a tendência é o surgimento de um grande mercado de rua, onde se paga cada vez menos impostos.

Não existe um plano inteligente do governo para lidar no curto, médio e longo prazo com as mudanças econômicas mundiais, que têm derrubado a economia global e afetam o Brasil diretamente. A substituição de negócios inteiros, como as empresas de varejo por empresas digitais transnacionais, tirando empregos e criando um mercado de difícil controle, enfraquece o poder público ainda mais. Esse é um fenômeno que aflige hoje até as grandes potências e com o qual o Brasil, envolto com problemas ainda mais elementares, nem começou a lidar.

A outra razão para não se ter pena de Bolsonaro, nem lhe dar um desconto, é o fato de que ele também não tem pena de ninguém, nem oferece exemplo de austeridade. Já defendeu publicamente o uso do dinheiro público nas viagens de família e afirmou que quer ver o filho Eduardo como embaixador brasileiro nos Estados Unidos com o argumento de que "se tem de ser o filho de alguém, por que não o meu?”.

Entre outras despesas, Bolsonaro já deixou o erário público com 201.600 reais a menos para assistir a três jogos do Brasil na Copa América de futebol. Para que o presidente pudesse ir ao estádio, o custo para o contribuinte foi de 67.000 reais por partida, gastos com transporte, segurança e alimentação. Não parece algo de alguém preocupado com o soldado que sai com a barriga roncando do quartel.

Assim, Bolsonaro vai se comportando mais como um desses ditadores de opereta, que vivem gostosamente enquanto as ambulâncias não têm dinheiro para colocar gasolina, o povo se amontoa nas calçadas e até o soldado passa fome. No tempo dos luíses, os faustosos reis da França, esse tipo de coisa levou, literalmente, cabeças a rolar.