23 Jul 2019

O presidente incendiário

Por   Qui, 23-Mai-2019

O presidente Jair Bolsonaro desistiu de ir pessoalmente às manifestações convocadas em defesa do governo no domingo, dia 26. Promover movimentos públicos contra outros poderes poderia lhe render impeachment, segundo foi alertado. Ainda bem que ainda há gente dentro do governo capaz de deter esses ímpetos, que vão colocando tudo a perder.

O Brasil hoje precisa de paz e estabilidade. Sem o mínimo de previsibilidade, não retornarão os investimentos - tanto estrangeiros quanto nacionais. É o que a economia mais precisa para voltar a crescer: a reposição no mercado do dinheiro entesourado após os anos de governo do PT, que promoveu uma imensa bolha de consumo às custas do erário.

O capital é um animal sensível. Não aparece quando se sente ameaçado. O empresariado ajudou a eleger Bolsonaro porque este prometia um ambiente mais estável do que o país estatizado, empobrecido e turbulento deixado pelo PT. Porém, como bombeiro, Bolsonaro vai saindo ainda mais incendiário.

Criador de uma crise por dia, o presidente poderia ter aprendido algo com seu antecessor. Talvez contido pela consciência de que assumiu o cargo num processo meio bastardo, Michel Temer aparecia pouco. Gostava de ser presidente e da liturgia do cargo. Mesmo abalroado por denúncias de corrupção, conseguiu produzir uma certa estabilidade que permitiu a transição até a eleição seguinte. O silêncio atrás da mesa foi sua grande virtude.

Um bom presidente devia ser como um juiz de futebol: as coisas estão indo bem quando ele aparece pouco. Já Bolsonaro está em toda parte. As manchetes diárias são sobre a última proeza do Bolsonaro. Pouco se sabe sobre o que acontece nos ministerios ou o que está sendo feito de concreto no governo. Já Bolsonaro está lá, no Twitter e na repercussão do Twitter.

Disse que formava um ótimo time de governo, especialmente com Paulo Guedes na Economia e Sérgio Moro na Justiça. Porém, no seu time, parece que só ele pode jogar. Como equipe, o governo é um desastre. As ações do presidente são motivo de surpresa mesmo para seus colaboradores. Como Moro, que ficou sabendo do decreto das armas pelos jornais.

Alimentando a polarização com o PT, ou apagando incêndios com gasolina, Bolsonaro vai se consumindo nas próprias chamas. A superexposição gera desgaste, ainda mais quando cercada por tantos desacertos.

Convocar uma manifestação política contra os poderes constituídos é mais uma dessas manobras engendradas pelo diabo. A ideia de governar as massas pelas redes sociais soa como uma tentativa de driblar as instituições republicanas, tem o cheiro de golpe, contraria o discurso democrático do presidente e tem alta probabilidade de dar errado.

No Congresso, de onde veio, Bolsonaro tem pouco respeito. Como candidato a ditador, devia ter a seu lado pelo menos os militares, que no Brasil hoje em dia são democratas, equilibrados e se mostram bem mais abertos ao diálogo que ele. Bolsonaro pode descobrir que está sozinho e ser a única vítima dele mesmo.

Certamente hoje está bem mais fácil o Brasil mudar Bolsonaro de lugar que Bolsonaro mudar o Brasil. E o dia 26 bem pode ser um  episódio decisivo no processo de convencer a sociedade brasileira de que a democracia às vezes comete erros crassos, como já dizia Platão da velha Atenas.