19 Set 2019

O populismo em alta

Por   Qui, 25-Jul-2019

Boris Johnson, o populista, é o novo primeiro-ministro britânico. O populismo, entendido em seu sentido mais raso, continua em alta no mundo ocidental. À esquerda, sofreu um solavanco na Argentina, e na Venezuela. Mas espreita ainda por toda a América Latina.

À direita, vem acumulando vitórias, graças aos faniquitos do esquerdismo histérico que lhe empresta combustível. A que se deve esse fenômeno? Sei lá. Mas tenho cá uma ideia. O desenvolvimento econômico, com a inclusão das massas populares na vida moderna, travestidas de consumidores, eleitores, cidadãos com direitos, variados canais de participação, como nunca antes na história deste hemisfério, tem muito a ver com isso.

Chamada a votar, a massa escolheu os políticos que lhes prometiam uma vida melhor. Alguns venceram eleições prometendo o paraíso na Terra. Outros, mais modestos, prometeram o fim do desemprego, o corte dos impostos e o combate à corrupção. Ou seja, acenando com a solução dos problemas mais prementes do momento a atormentar o eleitor. Mesmo sabendo que a solução passava ao largo do seu poder e envolvia muito trabalho e medidas impopulares.

Incluída no mercado de trabalho, a massa virou consumidor paparicado pelo comércio, indústria e serviços. Sentiu seu poder e acabou se impondo. Instada a opinar, valeu-se dos recursos da tecnologia da informação e comunicação para fazer-se ouvir, o que não significa que sabia o que dizer.

Empoderou-se, como dizem os frescos. Já não é a inocente, que sofre calada. Mas nem por isso sabe o que está pegando e às vezes embarca em canoas furadas que se apresentam a ela como se fossem navios de cruzeiro. Na crise, se desespera e se apega à primeira jangada que lhe lança uma boia. Os demagogos e populistas pescam nessas águas.

Num momento de crise, com o enfraquecimento do emprego, até os povos mais civilizados caem nesse desamparo e se tornam um pouco bárbaros. É o que se vê nos EUA e Europa com relação aos imigrantes. Ao ver seu emprego em risco, mesmo que por outros motivos, o nativo tende a culpar o de fora pela situação.

Na verdade, o imigrante tende a ocupar vagas desprezadas até por desempregados locais. Mas é preciso encontrar um bode expiatório. A coisa se agrava quando parte do contingente imigrante dá razões para a xenofobia ao se apegar e tentar impor valores conflitantes com a cultura local.

Essa coisa não é nova e afeta até sociedades mais avançadas. Décadas atrás, a Suécia viu horrorizada o surgimento de um tipo de crime racista extremo. Era a caça aos cabeças pretas. Franco atiradores miravam emigrantes.

Mas o populismo não viceja somente na política e na xenofobia dos povos. Ele é um fenômeno amplamente difundido na vida cultural dos países. Na educação, são conhecidos os processos de rebaixamento da qualidade do ensino como saída para a inclusão da crescente massa de educandos.

Da aprovação automática ao empobrecimento dos currículos, tudo se faz para facilitar o trânsito dos menos aptos e evitar a evasão.

Nas artes ocorre o mesmo. Do pintor que faz quadros decorativos de péssima qualidade artística que se torna sucesso num mercado de novos ricos sem capacidade crítica ao músico brega que vira cult pelas mãos de formadores de opinião lavados na demagogia mais rastaquera.

Na música, a massificação do consumo faz um estrago notável. Basta comparar o que era popular na primeira metade do Século XX com o que vai pelas ondas do rádio no mundo. Aqui não é preciso citar exemplos, dar nome aos bois. Todos sabem do que estou falando.

A educação e a música popular se associam para nos dar um exemplo genérico, no nosso caso. Nos anos 60, com os festivais de música, surgiu o fenômeno da MPB. A música popular brasileira, que era excelente desde os anos de ouro do rádio, ganhou um selo, um rótulo. E também seus arautos e ídolos.

O interessante é que esses astros da música popular eram novatos. Numa época em que ainda andavam sobre a terra Pixinguinha, Ismael Silva, Orlando Silva, Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim, Altamiro Carrilho, Valdir Azevedo, Carlos Galhardo, Luiz Gonzaga, Roberto Silva e uma infinidade de cantores, compositores e instrumentistas, coube a jovens de nível universitário, muitos deles recolhidos a apartamentos da Zona Sul, encarnar o movimento. Como se aquela legião de artistas que encantaram os brasileiros até então não fosse de astros da música popular.

Mas foi sobre a música dessa geração que se fez a nova MPB. Desprezando a Bossa Nova, considerada muito jazzística, elitista e uma americanização do samba, essa turma veio forte e com talento substituindo a velha e sortida música brasileira pela MPB, que nada mais era que a nossa música na versão universitária.

Eram jovens talentosos com formação superior fazendo baião e frevo, sem ser nordestino. Compondo samba sem ser sambista. Foi o primeiro caso do fenômeno da música “universitária”, que chegou aos nossos dias com extremos de má qualidade que tornou o termo pejorativo.

Se a MPB era a nossa música pelo talento de artistas mais intelectualizados, a versão universitária chegou até nós na forma, primeiro, do pagode universitário, com garotos brancos de classe média aderindo ao samba. Depois, o forró universitário, emulando o pé de serra tradicional. Por fim, o sertanejo universitário, que do caipira só herdou os erros de português. A decadência que ocorreu dos fundadores da MPB dos anos 60 para os recentes rótulos universitários é o retrato fiel dos efeitos do populismo na simbiose educação-cultura.

O que gera esse fenômeno certamente é algo incontrolável: a massificação. A cultura de massas introduz no mercado um público menos exigente e menos crítico. A imprensa, até então formadora de opinião, começa a ser pautada pelo mercado, na medida em que passa dos cinco ou dez mil exemplares de tiragem, os jornais com mais de uma edição por dia, para a casa das dezenas de milhares até milhões, no caso de revista. Para conquistar e manter um naco tão grande do mercado, a imprensa também se rebaixa. Fofoca de famosos passa a ser pauta permanente e obrigatória, com editoria própria. É o império das celebridades. Em geral gente vazia, ignorante e sem talento.

Na medida em que as tiragens aumentam, o dead line das edições encurta. Se antes o industrial dependia do redacional para rodar uma edição, agora era a indústria que definia os prazos de fechamento, para viabilizar a distribuição de tiragens crescentes. Tudo isso não se deu sem prejuízo da qualidade editorial. É a quantidade se impondo à qualidade pela necessidade da distribuição e da venda em massa.

No cinema, os argumentos cederam lugar aos efeitos especiais, explosões e perseguições alucinantes. Os filmes intanto-juvenis passaram a ser feitos para o público adulto, atendendo a exigência dos novos mercados pouco propensos a digerir histórias mais complexas.

Contra esse fenômeno estamos praticamente indefesos. São fruto de algo bom: a inclusão de levas cada vez mais amplas proporcionada pelo desenvolvimento da economia de mercado. Um efeito colateral.

Espera-se que a educação e o desenvolvimento social e político possam colocar qualidade na cultura de massas. Mas com essa política que aí está e com a educação decadente, é pouco provável que isso ocorra no curto ou médio prazos. Ao dizer isso, vou pagar de elitista. Mas a cada crise nos sentimos mais perdidos que cachorro que caiu da mudança.

Notadamente quando se vê na política que os extremos, na radicalização dos nossos dias, são ambos cultores do mais tacanho populismo. A cada populista de esquerda que defeca sobre a foto de um adversário em plena via pública, um populista de direita sobe preciosos pontos nas pesquisas pré-eleitorais. Se gentileza gera gentileza, radicalismo atrai radicalismo. E populismo.