17 Jun 2019

O paradoxo de Damares

Por   Sáb, 05-Jan-2019

POR HUGO STUDART

Damares Alves se apresenta como o elo mais frágil do novo governo; paradoxalmente, ela é o combatente mais importante que até o momento entrou no front da guerra declarada por Bolsonaro e os generais para reconquistar os corações e mentes do brasileiro - a tal hegemonia ideológica.

Ela vem magnetizando atenções da grande imprensa e provocando furor nas redes sociais - prós e contras. Assim como Bolsonaro no início da caminhada, mobiliza a opinião pública de tal forma que ontem uma estrela do jornalismo da Globo, respeitável comentarista internacional, apareceu na telinha de terninho cor-de-rosa, transfigurado de titia em surto de histeria. Uma sagaz professora universitária da área de Direitos Humanos já alertou que não se deve subestimar Damares. Ao contrário, disse, "essa mulher é muito perigosa".

O grande paradoxo está no fato da ministra estar sendo subestimada e sabotada por seus próprios pares do governo. Primeiro veio Onyx Lorenzoni e desenhou seu ministério do jeito que lhe veio à cabeça, sem dar muita trela às opiniões da titular.

Ele era contra sua indicação. Aproveitou a chance para acomodar indicações políticas. Nomeou, por exemplo, um servidor evangélico indicado pelo PSL da Paraíba para a estratégica Secretaria de Direitos Humanos, aquela que vai lidar com a Justiça de Transição (violações e excessos da ditadura militar, Comissão da Verdade, indenizações, etc), tema essencial para militares e, sobretudo, para a esquerda mais aguerrida. O novo secretário pode ser preparado, um gênio, mas começar o jogo desse jeito, sem projetos e sem conhecimento da área, tem tudo para dar errado.

Na véspera da posse, veio novo golpe. Paulo Guedes mandou cortar 30% dos cargos e verbas do ministério da Damares. Até aí, tudo bem: o governo está cortando em todas as áreas. Ela então foi avisada que o Ministério da Economia estava mudando (à sua revelia) a arquitetura da pasta, extinguindo cargos e demitindo secretários escolhidos. Mantiveram duas secretarias da Juventude e esvaziaram a da Família, única promessa de campanha do Bolsonaro para a área. Coisa de tecnocrata.

O paradoxo Damares também passa por ela mesma. Parece que ela ainda não tomou a consciência da dimensão que atingiu, daquilo que, de repente, passou a representar para o governo e, sobretudo, para milhões de mulheres violentadas diariamente em cotidianos sórdidos, gente honesta e trabalhadora, que só deseja alguém que as represente. Graças à oposição, Damares tornou-se alguém maior do que a sua silhueta. Moro é idolatrado, Guedes e Heleno são respeitados, mas Damares tem encantado os eleitores de Bolsonaro na mesma proporção que incomodada os opositores.

Recentemente, em conversa com meu velho e bom professor de Ciência Política Vamireh Chacon, ele comentou: "Com a queda do PT, alguém precisa fundar um verdadeiro partido de esquerda que defenda crianças e velhos". Como assim? - indaguei. O professor lembrou que a esquerda tradicional nasceu e cresceu com essas duas causas: crianças e idosos, segmentos sociais completamente abandonados pelo PT, que abraçou tão somente causas das elites intelectuais, explicou.

Em nossa conversa, lembrei que o filósofo Walter Benjamin referia-se à legião de anônimos, excluídos, perdedores, anti-heróis, indesejados, etc, aos quais chamou genericamente de "esquecidos". E concluímos que falta no Brasil um partido (ou um grupo, ou um ministério, ou alguém) que defenda os interesses de crianças e dos idosos, das mulheres e das famílias dilaceradas, dos negros e índios, dos migrantes e favelados, dos deficientes físicos e mentais, dos mendigos e dependentes químicos.

Ainda em abril de 1964, perguntaram ao marechal Castelo Branco como ele iria acabar com o perigo comunista. Muito sereno, sempre sábio e moderado, o novo presidente explicou que a melhor forma de enfrentar os comunistas era implementar suas melhores bandeiras. Assim, o governo militar começou criando o Estatuto da Terra e a reforma agrária, a reforma do ensino e a erradicação do analfabetismo, dentre outros grandes acertos, em meio a outros erros.

Se deixarem Damares à própria sorte, se prosseguirem com o fogo amigo, como está acontecendo, ela pode se consolidar como o elo mais frágil do governo. Contudo, se Bolsonaro der a ordem de apostar em Damares, ela tem tudo para ser a protagonista de uma batalha relevante pela redenção (ou mitigação) daquela legião de excluídos e "esquecidos", fazendo o que a esquerda deveria ter feito nos oito anos de FHC e 13 anos de PT.