17 Nov 2019

O país onde o rabo abana o cachorro

Por   Qui, 22-Ago-2019

No Brasil, as últimas eleições presidenciais foram marcadas pela vitória de políticos de legendas minoritárias, com algo em comum - seja de esquerda como de direita, primam pela radicalização. Com isso, o chamado centro, ou tudo aquilo que não é radical, acaba sendo levado, geralmente a contragosto, a escolher um lado, mais por rejeição ao outro do que por opção.

É a chamada polarização, que na prática leva sempre uma minoria, seja qual for seu sinal ideológico, a governar a maioria. É o rabo - a parte menos importante, embora mais ativa e vistosa - a abanar o cachorro, e não o contrário.

O normal é o cachorro abanar o rabo, como se poderia esperar também de qualquer anatomia política, num regime democrático - teoricamente o governo da maioria, com o devido respeito às minorias, que até podem ganhar eventualmente, dentro do jogo democrático, mas como exceção, não como um padrão.

Porém, no Brasil, o cachorro - que até poderia viver sem o rabo - tem se deixado governar por ele.

Por que os extremos têm ganho seguidamente as eleições majoritárias no Brasil? Pela peculiaridade do nosso sistema eleitoral de dois turnos, e, mais relevante, pelo fato de que há uma sede tão grande por cidadania - acesso a direitos básicos como saúde, educação, emprego - que o eleitor acha precisar de soluções extremadas.

Isso favorece o discurso radical-populista, que fala às necessidades bramantes da população. Nesse sentido, Lula e Bolsonaro são a mesma coisa, dois lados da mesma moeda, dependentes um do outro para continuar existindo, pois não ganhariam nada sem um adversário que causasse tanta aversão.

A diferença da última eleição para as anteriores é que, na era do PT, a roubalheira foi tão grande que o centro - o cachorro - acabou pendendo para o outro lado, revoltado com o comportamento dos partidos e da elite política e econômica em geral.

Jogado para o lado oposto, continua sendo governado por uma fatia minoritária, que pode ser estimada nos 17% que Bolsonaro tinha genuinamente no primeiro turno. E que no segundo foi engordada pelos 35% dos brasileiros que, mesmo a contragosto, nele votaram contra o PT.

Qual o problema com o acesso contínuo do radicalismo ao poder? Primeiro, está provado que os extremos não funcionam. Não funcionam porque colocam a ideologia - entendida como todo o conjunto de utopias e de promessas irrealizáveis com que se municiam realizar um projeto de poder - na frente das boas e reais soluções.

O governo dito de esquerda, com seus aliados de ocasião, transbordou incompetência e corrupção - a situação do país está aí e fala por si mesma. Já Bolsonaro muito cedo vai chegando pelo outro lado ao mesmo lugar.

Ex-paladino da justiça, agora defende o filho Flavio contra a Lava Jato, alinhado com alguns ministros do Supremo Tribunal Federal que também andam preocupados com a investigação sobre suas contas. Vencedor com um discurso econômico liberal, seu governo já ronda soluções impopulares, anti-liberais e de ineficácia comprovada, como a recriação da CPMF.

Isso para não falar na diatribe diária com que o presidente perde tempo e dinheiro ofendendo o meio ambiente, a diplomacia, estudantes e professores, as minorias de todas as cores e, em última análise, o bom senso.

Bolsonaro ainda pode ter bons ministros e algumas boas ideias, mas é uma liderança mercurial demais para criar a tranquilidade necessária à retomada dos investimentos e devolver o país ao crescimento. Ainda que algo no seu governo dê certo, o que vai se tornando cada vez menos provável, já é possível dizer que, sem seu comportamento destrutivo, isto é, sem ele, o país andaria bem mais rápido e melhor.

Outro problema grave do poder na mão dos radicais é que os extremos sabem que são minoria. Então, para permanecer no poder, procuram tomar o aparelho do Estado. E usá-lo para permanecer no poder, mesmo à revelia da maioria.

Isso significa colocar na máquina pública funcionários escolhidos não por competência, mas por terem fidelidade às manobras por vezes espúrias do partido que se fortalece vampirizando o Estado. Dessa forma, todo partido ideológico radical é fisiológico por natureza.

O PT aparelhou o Estado, Bolsonaro dá mostras de que está fazendo o mesmo. E faz pior. A Polícia Federal investiga seu filho no Rio? Troca-se o superintendente. Outro filho pode ser ameaçado? Vai para Washington ser embaixador. A Lava Jato incomoda? Os advogados, com a complacência provavelmente cúmplice dos aliados do STF, paralisam toda a investigação.

“Não vou ser um presidente banana”, diz Bolsonaro, ao justificar atitudes imperiais das quais nem Pedro II seria capaz.

Está na hora de o brasileiro perceber que a verdadeira força está no centro. Primeiro, porque é a maioria. Segundo, porque devia estar cansado de ser passado para trás. Chegou a vez de finalmente chegar ao poder a população hoje manobrada e explorada por gente com outros interesses que não os dela, por ironia, ainda por cima, agindo em seu nome.

O que se chama de centro não é o Centrão, esse organismo suprapartidário que se reúne no Congresso em defesa de interesses fisiológicos quando convém. O centro é o lugar do cidadão comum, a grande maioria das pessoas trabalhadoras, que querem um governo limpo, que pense no bem comum, e atue de forma profissional para melhorar a renda e as condições de vida no país. Gente que espera do governante espírito público de modo a governar para a maioria com respeito à minoria, e não em função de interesses pessoais ou facções ideológicas que somente visam sua perpetuação no poder e eterna locupletação.

O Brasil vai mudar quando o centro se unir, sem se deixar se dividir pelos baderneiros históricos que vivem brigando entre si desde os primórdios do capitalismo industrial e já são tão velhos quanto a múmia de Lênin ou esse czarismo moreno que estamos vendo aí.

É hora de acabar com a primazia do rabo, que sequestrou o cachorro. E deixá-lo no seu devido lugar.