21 Jul 2019

O ódio de Bolsonaro às Forças Armadas

Por   Sex, 10-Mai-2019
O artigo em Veja: raiva da imprensa e dos militares O artigo em Veja: raiva da imprensa e dos militares

Como se explica que o presidente Jair Bolsonaro venha em defesa do franco-pensador Olavo de Carvalho, mesmo depois de seu aliado intelectual ofender da forma mais aviltante os militares, a começar pelo vice-presidente, Hamilton Mourão, além dos generais da reserva que formam o mais alto escalão do governo?

Qual a justificativa para a anuência do presidente, diante de um colaborador que incendeia o próprio governo, chamado os militares de "bostas" e "covardes que se escondem atrás de um doente em uma cadeira de rodas" ? (No caso, o general Eduardo Villas Bôas, assessor especial do Gabinete de Segurança Institucional, a quem o próprio Bolsonaro, na sua despedida do alto comando do Exército, já disse dever a própria eleição).

Como ele, que diz ver a maior importância nas Forças Armadas, inclusive na sua administração, não reprime um apoiador para quem a última contribuição da instituição à "alta cultura" no Brasil foi "a obra de Euclides da Cunha"?

Parece inexplicável, ou consoante com uma personalidade esquizofrênica, mas a explicação existe. E é a mais simples possível. Bolsonaro concorda com Olavo.

O presidente tem mostrado, no exercício do cargo, duas personalidades. Uma, hoje se sabe, é política. Em público, o presidente diz ter orgulho de ser militar, demonstra afeto pela sua origem e presta homenagem à instituição e seus integrantes. O outro Bolsonaro, o verdadeiro, tem razões antigas para nutrir pelos militares um ódio cujo tamanho só se enxerga agora.

Essa raiva vem de longe. Em 1986, ainda capitão do Exército, Bolsonaro escreveu um artigo, publicado na seção de opinião da revista Veja, em que reclamava dos baixos soldos. Essa aproximação com a revista fez com que ele revelasse à publicação, no ano seguinte, o plano de explodir uma série de bombas em quartéis do Rio de Janeiro - na prática um ato terrorista, com o objetivo de chamar a atenção do alto comando, em especial o ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves. Acreditava ser assim o verdadeiro defensor da causa militar.

Deu a entrevista sob sigilo - em jornalismo, o direito à proteção da "fonte". Contava a história, mediante o compromisso de seu nome não aparecer. Seu objetivo seria apenas causar alarme. "São só umas espoletas", minimizou.

Na redação de Veja, porém, por considerar aquele um ato criminoso, que precisava ser prevenido, foi tomada a decisão, de responsabilidade do então diretor de redação José Roberto Guzzo, de se abrir o sigilo da fonte.

Em 1987, na edição de 25 de outubro, VEJA publicou a reportagem “Pôr bombas nos quartéis, um plano na Esao", mostrando os planos de Bolsonaro com outro militar, Fábio Passos. Dava nome aos bois, quebrando o sigilo da fonte.  Bolsonaro negou a autoria do plano, mas exames grafológicos demonstraram que a letra e os desenhos conferiam com sua caligrafia.

Bolsonaro foi julgado pelo Superior Tribunal Militar, que tomou uma decisão salomônica. Por 8 votos a 4, colocando em dúvida os exames grafológicos, considerou Bolsonaro “não culpado” dos planos terroristas. Porém, puniu o capitão com 15 dias de prisão pelo artigo publicado com seu próprio nome pela revista, no ano anterior. Bolsonaro foi afastado da corporação, mas preservou o posto.

Está bem claro hoje que Bolsonaro nunca engoliu o que aconteceu. Considerou-se traído duas vezes. A primeira, por Veja - traição esta da qual herdou e transferiu uma raiva não apenas contra a revista como contra toda a grande imprensa, que, por sinal no seu papel, nunca lhe deu nem daria trégua.

A outra raiva, mais surda, é em relação à instituição que ele adorava, mas o enjeitou, quando pensava justamente defendê-la - ainda que a seu modo.

O convite aos militares para integrar primeiro sua chapa e depois o governo causou por um momento a ilusão de que Bolsonaro tinha passado por cima dessa história e estava disposto a reescrevê-la de um jeito conciliador. Hoje, sabe-se que não. É vingança.

Bolsonaro certamente tira prazer do fato de que hoje é o chefe dos generais. Não se importa de espezinhá-los, ainda que seja por meio da voz de Olavo de Carvalho.

Com seu suporte a Olavo, o presidente enxovalha a instituição que um dia o enxotou. Para as Forças Armadas, ele sempre foi o filho mal comportado, que tomou o seu castigo e foi mandado para fora de casa. Tê-lo agora no comando, como civil, já bastaria como ironia do destino. Mas Bolsonaro tem feito de tudo para mostrar que deu a volta por cima, é o chefe e que agora os militares devem suportar o enxovalhamento calados. Procura constrangê-los, inclusive de responder em público. Usa, para isso, a metralhadora verbal de Olavo e o poder das suas campanhas nas redes sociais, de forma a denegri-los perante a opinião pública. 

A história se repete, mas dessa vez Bolsonaro não pode ser simplesmente mandado embora  por mau comportamento, com um piparote. É o presidente eleito. Como no passado, ele não tem coragem de dizer diretamente o que pensa. Mas manda falar em seu nome. E, como um terrorista, vai levando a animosidade ao seu redor a um ponto crítico.