19 Set 2019

O maior perigo para Bolsonaro

Por   Qua, 07-Ago-2019
Delfim: lucidez Delfim: lucidez

O ex-deputado e ex-ministro da Fazenda Delfim Netto já patrocinou outras desgraças econômicas quando esteve no governo, mas é inegável sua vasta experiência e o fato de que se tornou o mentor de gerações seguidas de economistas brasileiros. É, portanto, uma autoridade quando se trata de pontificar sobre problemas nacionais, o que ainda faz, com espantosa lucidez para um nonagenário.

Pois é Delfim, em sua coluna no UOL, quem definiu melhor a situação em que nos encontramos.

"A solução será muito mais rápida se o presidente entender que pode muito, mas não tudo, e que sua política diversionista, que coloca a cada dia falsos problemas (como o do clima) e recusa toda diversidade, atrapalha a solução dos problemas reais e dificulta o trabalho de alguns ministros que têm se revelado excelentes", escreveu ele.

E seguiu:

"Mesmo sendo deselegante, o comportamento de Bolsonaro pode ser franco a ponto de ser abusado, mas não é esse o problema. O seu problema é ignorar, sistematicamente, as evidências empíricas na formulação das políticas públicas destinadas a atender aos seus propósitos."

Resumindo, o maior problema de Bolsonaro é ele mesmo. Em vez de encarnar o papel do juiz de futebol - aquele que vai bem justamente quando menos aparece - contraria o princípio anunciado por ele mesmo de deixar os ministros trabalharem. E não faz isso inadvertidamente. É de propósito. Acha que assim está moralizando o Brasil.

Por ironia, o homem que venceu a eleição é  justamente a grande pedra no sapato deste governo, especialmente para o bom sucesso da dupla encarregada de tornar mesmo realidade as esperanças lançadas na campanha - o ministro da Justiça, Sérgio Moro, com a missão de combater a corrupção e o crime organizado de forma geral, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre quem recai a tarefa de produzir o crescimento.

Para os empresários que apostaram num Bolsonaro diferente na presidência do deputado que desempenhou um papel burlesco durante quase trinta anos na Câmara Federal, o desapontamento não poderia ser maior. O presidente e o deputado, a cada dia, se mostram mais e mais uma pessoa só.

Com sua compulsão por falar o que vem a cabeça e, pior, fazer despudoradamente o que lhe dá na telha, o quanto Bolsonaro pode estragar o próprio governo

Bastante, porque a volta do crescimento econômico depende do ambiente de tranquilidade que dá certeza ao empresariado de que o futuro está seguro e pode voltar a investir. É a única forma de fazer de novo jorrar o dinheiro num mercado antes irrigado com o recurso público. E que acabou, justamente, por ter passado ao caixa de empresas privadas, que se aproveitaram da bolha artificial de consumo criada na era do PT para locupletar-se.

A boca de Bolsonaro, como a dos peixes, é o maior perigo para ele mesmo. Por sorte, com lembra Delfim, com consciência disso ou não, o presidente não pode tudo. E o trabalho de contenção de danos tem de ser na mesma medida em que ele, com seus rompantes de imperador de republiqueta, cruza a linha do bom senso, quando não da lei.