19 Set 2019

O lugar onde nasce outro futuro do Brasil

Por   Qua, 11-Set-2019
Hack Town: semente de esperança Hack Town: semente de esperança

No fim de semana do feriado de 7 de setembro, a pequena cidade de Santa Rita do Sapucaí, no sul de Minas Gerais, foi pela quinta vez cenário do Hack Town - evento que reuniu mais de 600 palestrantes e um público de cerca de 6 mil pessoas para assistir palestras, debater inovação, tecnologia, comportamento e, por que não, se divertir.

Nerds e jovens de todas as tribos se misturavam em vários lugares da cidade para discutir tanto a economia digital como a comida vegana e o documentário La Planta, sobre a experiência da maconha medicinal no Uruguai, dirigido pelos cineastas Beto Brant e Yael Steiner.

É um sopro de vida na economia e na sociedade brasileira, ignorado pelo governo federal, assim como pela mídia nacional. Como se fosse um evento de importância local, contou apenas com a cobertura regional da TV Globo, e a participação do governador mineiro Romeu Zema, que, na abertura, disse que a tecnologia está entre as suas prioridades.

Não se trata de acaso. Enquanto em Brasília o ministro da Economia, Paulo Guedes, deblaterava sobre a reintrodução da velhíssima CPMF, e o presidente Jair Bolsonaro tuitava do hospital que não haveria aumento de impostos, sem qualquer solução fora da mais arcaica ortodoxia econômica, em Santa Rita, sem sequer uma testemunha de Brasília, se discutia o que pode levar o Brasil para a frente de verdade.

Em Santa Rita, se encontravam os que estão em sintonia com o mundo, interessados na nova economia compartilhada e o impacto das tecnologias e das tendências mundiais de comportamento na sociedade contemporânea. Um tema que não deveria interessar apenas a Minas, mas ao Brasil, nem ao governo estadual, mas a todos os governos do país.

Não é por acaso que o governo federal e a grande imprensa sequer tomaram conhecimento do lugar onde fervilham as ideias que podem colocar o país no rumo do desenvolvimento. A internet nasceu mesmo como movimento livre e cresceu à revelia dos governos. A mentalidade da economia digital é da liberdade, fora dos planejamentos econômicos. 

O governo, porém, assim como boa parte da iniciativa privada, que fica esperando do Planalto soluções que já não funcionam, parece não se dar conta de onde está o futuro. É certo que é preciso fazer um ajuste das contas públicas, ou recolocar o país na rota do crescimento, mas a receita brasileira hoje aponta para a  manutenção de um país de economia agrária, exportadora de produtos de baixo valor agregado - o velho "celeiro do mundo". É o papel de eterna colônia, que passou a ser chamada de "Terceiro Mundo".

No Brasil, setores inteiros da economia produtiva vão virando sucata. Do comércio varejista, vitimizado pelo e-commerce, à paralisada indústria nacional, que vai perdendo competitividade a olhos vistos diante da crescente invasão da competição internacional, com a facilitação do meio digital para entrar no mercado brasileiro.

Não existe hoje solução encontrável na economia ortodoxa para os desafios econômicos da era contemporânea. Para novos tempos, é preciso novas soluções. Isso parece estar sendo percebido em todo o mundo, menos no Brasil.

Essa mudança profunda na própria essência do capitalismo afeta não só a  Economia como a própria estrutura dos Estados nacionais. O meio digital hoje vai substituindo a noção de Nação, baseada em territórios e culturas locais,  por comunidades de interesses que são tão transnacionais quanto os negócios, num mundo cada vez mais globalizado.

Num país como o Brasil, onde as empresas não somente deixaram de investir no seu próprio território como jamais se arriscam à internacionalização, o destino é ser engolfado pelos gigantes - especialmente americanos e chineses - que perceberam o vasto planeta de oportunidades proporcionado pela queda das barreiras tradicionais.

No capitalismo contemporâneo, a maior riqueza já não vem da exploração da terra, onde se fincam os Estados nacionais, nem da indústria de massa, base do capitalismo analógico. Pela sua capacidade de geração do novo valor econômico dentro da era digital, as empresas de tecnologia representam uma riqueza muito maior, porque justamente não possuem limites delineados por cercas de arame farpado e atravessam como paredes invisíveis as barreiras alfandegárias.

Enquanto fervilha o mundo da tecnologia e se debate a sociedade do século XXII, o governo brasileiro permanece olhando para o próprio umbigo, sem entender como o empresariado não volta a investir e não conseguimos sair da marca dos 13 milhões de desempregados.

O Brasil continua sendo um país de miseráveis no meio da riqueza. E pode perder o bonde da História, antes mesmo de vê-lo passar. Porque a riqueza hoje já não é a extração de minério e outros bens naturais, dos quais estamos fartos, mas da capacidade de produzir inteligência.

Nesse aspecto, o modelo de Santa Rita é um oásis no deserto - e um exemplo do que poderia ser a esperança de um outro futuro. Para quem nunca ouviu falar de Santa Rita, como eu, até a semana passada, a cidade está ligada à tecnologia e à inovação desde a década de 1960, quando foram criadas ali a ETE, o Inatel e a FAI, instituições que a transformaram num polo educacional e tecnológico que atrai e produz mentes inovadoras.

Em Santa Rita, se encontram atualmente 160 empresas de tecnologia, gravitando na pacata cidade interiorana, com ares de campus estudantil. Ali se criou o Hack Town, uma espécie de Flip da tecnologia e do comportamento, inspirada na SXSW, a mais importante feira de tecnologia e comportamento do mundo, que acontece todos os anos em Austin, nos Estados Unidos.

Enquanto a indústria e os serviços procuram renovar-se no mundo inteiro, a iniciativa privada do Brasil se acostumou a viver dos favores do setor público, fugindo da realidade competitiva, vivendo à sombra do Estado. Desconectou-se do mundo e hoje, numa era em que todos os países procuram entender os efeitos disruptivos das novas tecnologias, nos encontramos mais perto do atraso absoluto que nunca.

O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, o que na época representava sair de um modo produtivo retrógrado para um capitalismo mais moderno, que precisava menos de escravos que de cidadãos consumidores. Hoje, provamos mais uma vez nossa vocação para o anacronismo em relação à realidade mundial.

Mais que tecnologia, o Hack Town envolve toda sua comunidade com as discussões que estão associadas a uma nova mentalidade, voltada para o crescimento sustentável, a preservação do meio ambiente e a liberdade dos costumes. Enquanto perdurar no Brasil a cultura do atraso, será difícil espalhar a semente de Santa Rita. 

Ela, porém, é a única coisa capaz de fazer o Brasil novamente dar frutos. Porque ser o "gigante adormecido", no mundo tecnológico global, já não quer dizer grande coisa.  O futuro está na educação, na inteligência, na capacidade de ser global. Basta aprender com Santa Rita - e fazer a semente frutificar.