24 Abr 2019

O fim da objetividade

Por   Qua, 10-Abr-2019
Dr. Caligari: a loucura parecendo normal Dr. Caligari: a loucura parecendo normal

Quem navega pela internet hoje se vê diante não de fatos, entendidos como acontecimentos sobre os quais não cabe interpretação, mas de múltiplas versões sobre fatos, previsíveis de acordo com quem os descreve ou analisa.

Basta olhar os títulos das reportagens na primeira página dos portais. Mesmo com relação a fatos supostamente objetivos, há abordagens subjetivas que podem levar a conclusões opostas sobre um acontecimento ou situação.

Por exemplo, para o Globo,  “em 100 dias Bolsonaro cumpre mais promessas que Dilma e Temer no mesmo período”.

Para a Folha de S. Paulo/UOL, “Bolsonaro cumpriu apenas 13 das suas 35 propostas [nos 100 dias]”

Além do noticiário jornalístico, mais sujeito que nunca a escolhas conforme a política editorial de cada veículo, os portais  encheram seu espaço com um articulismo onde o fato é produto da opinião, e não o contrário.

Espera-se não o conteúdo, mas a versão já previamente esperada daquele conteúdo.

Exemplos:

"Governo não tem um projeto nacional para o Brasil" (de Marco Antônio Villa, comentarista da Jovem Pan).

"Falta ao Brasil política de saúde digna desse nome" (do médico Drauzio Varella).

"Infantil, a esquerda brasileira está perdida" (do ex-ministro Delfim Netto)

No mesmo dia, mesma hora, mesmo minuto, se pode ler três artigos de pessoas diferentes, que têm apenas uma coisa em comum. Tratam não do fato, mas dirigem-se a um público que já sabe mais ou menos o que esperar do que seus autores dirão sobre o fato, a partir de uma posição já relativamente conhecida.

A multiplicação do articulismo faz com que hoje o autor se torne mais importante que o assunto, construindo uma “persona“ capaz de adequae sempre a realidade ao seu “seguidor”.

Caso o leitor se identifique com a versão, ou seu auto, o conteúdo é replicado, com foros de verdade. Caso o leitor não se identifique com ele, trata-o como "fake news".

Na prática, o mundo da internet se torna uma competição por espaço, em que prevalece o ditado segundo o qual uma mentira repetida mil vezes ganha foro de verdade. Deixa de haver o fato objetivo, para existirem apenas as múltiplas versões sobre o fato, em permanente choque.

A crise da imprensa vem se dando na era digital pelo encolhimento do espaço dado para a notícia - a informação nova, com objetividade jornalística, isto é, destituída de interpretação. "Músico morre alvejado por 80 tiros disparados por militares no Rio de Janeiro" é uma notícia - um fato objetivo. Interpretações desse fato podem ser dadas pelo próprio leitor.

A indução do leitor a uma conclusão por meio de versões da notícia ou articulismo opinativo é ilusória. O que ocorre é a simples diferenciação pelo leitor daquilo com que ele simpatiza ou não, para decidir se aquilo é verdade ou o que deseja seguir.

Dessa forma, o mundo digital se afasta do racionalismo e se aproxima da religião, no sentido em que o conteúdo se transforma mais numa questão de fé - seja religiosa, moral, ou política.

O interessado acredita naquele conteúdo porque isso o satisfaz, seja esse conteúdo real ou não, e a partir dali qualquer discurso se torna real.

O confronto dos diferentes discursos sobre um mesmo assunto no meio virtual promete ser a grande guerra do Século XXI, onde posições tentarão prevalecer umas sobre outras. Não haverá ganhadores e perdedores, pois cada um terá uma boa explicação para garantir que já venceu. O meio digital será o reflexo da multiplicidade da própria sociedade.

Realidades cabais - como a morte, os cataclismas, ou as mudanças sociais - tendem a ser ideologizadas, transformadas em versões, que hoje colocam o mundo como um grande Gabinete do Doutor Caligari - o filme de Fritz Lang no qual a visão do médico louco parece ser a linguagem normal.