23 Jul 2019

O estupro coletivo de Neymar

Por   Sex, 07-Jun-2019
Neymar se explica, em vídeo Neymar se explica, em vídeo

O Brasil adora queimar seus ídolos.

Não é de agora, nem só porque Neymar se envolveu com uma acusação de estupro.

Quando surgiu a historia do cai-cai, o brasileiro apoiou. Jogou suas frustrações sobre o jogador. Parecia que era de Neymar, na Copa anterior, a culpa por ter levado uma joelhada nas costas de um adversario que lhe quebrou uma vértebra. Ou que é culpa dele ser parado pelos defensores na base da paulada.

O brasileiro adora falar mal de seus ídolos e de queimá-los. Neymar é joem, rico, meio abusado, dentro e fora de campo. Para os adversários, isso é desrespeito. Para o brasileiro, é soberba. NO Brasil, um país frustrado, ter sucesso, talento, felicidade, é crime.

Neymar é vítima cada vez mais do maior esporte nacional: a maldade. A espiral da midia se alimenta da maledicêndia e não tem punição. É um esporte livre. Qualquer um pode bater no judas, como faziam as crianças, antigamente.

Como no caso da moça que ele levou para o hotel em Paris.

Ela diz que não quis extorquir o jogador, mas a primeira coisa que aconteceu foi o nome dele aparecer em todo lugar, sob a acusação de estupro.

Antigamente, não se expunha pessoas envolvidas em acusações tão graves até que isso fosse a julgamento. Agora, é a primeira coisa que acontece. E, no começo, só apareceu o nome de Neymar. O da moça, a suposta vítima, era preservado.

Quando acontece um crime, ainda mais dessa gravidade, a vítima procura a polícia. Em vez disso, a moça mandou seus advogados negociarem dinheiro com o pai de Neymar.

Ela afirma agora que foi deles a iniciativa de pedir dinheiro, e não dela. É difícil dizer de quem foi a ordem. Mas eram os advogados dela. Para quem não quer parecer que estava procurando extorquir alguém, foi um mau começo.

"Suspeitas de fraude ou abuso de direito pela parte 'mais vulnerável' devem ser apuradas com rigor, sob pena de deslegitimar as demais situações de efetiva vulnerabilidade", afirmou o juiz marcelo Bretas, da Lava Jato, em seu perfil no Twitter. "Nem sempre a vítima é a parte mais fraca da relação."

A modelo contou no início, claro, com a ajuda do público, que de saída condenou o jogador. Claro que Neymar errou, a convidar uma desconhecida para fazer o que provavelmentes seria melhor com alguém da sua intimidade. Mas isso não justifica o pré-julgamento, nem o massacre moralista, que no fim acabou caindo sobre os dois.

Expôr a privacidade de duas pessoas nessa situação, com ampla circulação de vídeos íntimos, faz de cada um se torne criminoso. A privacidade, vão dizer, já não existe mais. No mundo pirotécnico dos ídolos, que se aproveitam dessa publicidade nos bons momentos, ainda mais. Mas isso não pode justificar a falta de limites.

Dar vazão a esse linchamento público é o único crime comprovado até aqui. Neymar, e agora também a moça, se tornaram vítimas de um estupro coletivo.

É um prejuízo irreparável. E aqueles que submetem Neymar a tal pressão são os mesmos que depois exigem que ele, como atleta, tenha uma cabeça boa.