15 Nov 2019

O espantalho de Bolsonaro

Por   Ter, 23-Abr-2019
Mourão, com Bolsonaro: o presidente afunda sozinho Mourão, com Bolsonaro: o presidente afunda sozinho

Quando escolheu para vice de sua chapa o general Hamilton Mourão, o presidente Jair Bolsonaro brincou, bem ao seu estilo, que o colocara no posto porque se eleito ninguém iria querer levantar contra ele um processo de impeachment. Todos teriam medo de ver entrar no seu lugar, como um espantalho, o então polêmico general.

A decisão foi um tiro pela culatra. Desde a campanha, e depois no governo, Mourão deixou de ser piada. Mostrou-se um político leve e desenvolto, com muito mais cintura que o próprio Bolsonaro.

Circula entre os políticos que o próprio presidente rejeita, fala sem problemas com toda a imprensa, que Bolsonaro boicota, e defende um governo mais ao centro, próximo do Congresso, técnico ou profissional, enquanto o titular do Planalto faz questão de empurrar adiante sua faceta ideológica mais agressiva, contra a maioria pacífica e mais civilizada do país.

Ao agarrar-se demais às suas antigas ideias, que se misturam às do guru Olavo de Carvalho, Bolsonaro acabou isolando-se no governo. E viu o espantalho que plantou para assustar os políticos passar a assustar ele mesmo.

Enquanto o próprio  Bolsonaro convive agora com a imagem de um governante com pouco conhecimento de causa, meio desastrado e até agora inoperante, Mourão é o homem que tenta ajudar, contrabalançando o governo com um pouco de objetividade, simpatia e bom senso.

Irritou ainda mais o presidente os termos de um convite a uma palestra proferida em 9 de abril por Mourão em Washington, nos Estados Unidos, reproduzido nas redes sociais de seu filho Carlos.

No convite, do Brazil Institute, organizado pelo jornalista brasileiro Paulo Sotero no Wilson Center, apresenta-se Murão como o contraponto à "paralisia do governo, em boa parte devida às sucessivas crises geradas pelo próprio círculo próximo ao presidente". Aponta Mourão, por esse motivo, como o homem mais procurado como interlocutor.

Carlos mostrou indignação. "Se não visse, eu não acreditaria que [ele] aceitou [o convite] com tais termos", escreveu carlos em seu Twitter.

Em vez de melhorar sua própria imagem, o "círculo mais próximo" passou a se incomodar com a percepção externa de Nourão, passando a atacá-lo. A realidade é que por esse tipo de atitude é que o general pitbull vai virando uma alternativa até suave e viável diante de um presidente capaz de criar uma crise por dia.

O governo Bolsonaro hoje patina não apenas na economia como na Educação e outros territórios transformados em meros campos de batalha ideológica. No meio dos discursos vazios, Mourão, que já foi chamado por Olavo de "comunista", no mínimo já evitou uma guerra inútil com a Venezuela, ao intervir quando o ministro olavista das relações exteriores, Ernesto Araújo, queria forçar a ajuda humanitária brasileira, enviando tropas ao território vizinho.

Com medo, e talvez ciúme, Bolsonaro tratou de alinhar-se com Olavo de Carvalho, que acusou Mourão de "golpismo" e chegou a defender seu "impeachment". Tirou poder dos militares instalados no Planalto, reduzindo sua influência sobre ministérios e nomeações. Chegou a republicar neste final de semana um vídeo de Olavo, publicado no sábado, em que o guru o aconselhava a "trancar os milicos no armário".

Dada a repercussão, o presidente implicitamente reconheceu ter ido longe demais. No domingo, retirou o vídeo das suas redes sociais. Emitiu uma tímida reprimenda a Olavo, dizendo pelo twitter que o vídeo do guru não contribuía para a "unicidade de esforços do governo".

Se Bolsonaro começa a ter medo da sombra, a razão não é a presença de Mourão, mas o seu próprio desempenho, do qual ele deveria estar cuidando. Perdido em disputas ideológicas que só criam a cizânia, ocupado com assuntos fora de sua alçada, como a moralização do carnaval, Bolsonaro depende essencialmente de melhorar a economia brasileira e trazer de volta o crescimento se quiser não apenas ficar no governo como ter um pouco de paz.

Esse é, na realidade, o grande termômetro do sucesso real de um governo. Ao atacar e boicotar a imprensa, chutar longe do governo seu próprio partido e se recusar a dialogar com o centro no Congresso, Bolsonaro vai cavando um buraco para si mesmo, pela dificuldade de passar reformas capazes de levar o país adiante. E sua vida vai virando um tormento, a ponto de no meio do feriado o presidente sair sozinho na rua de motocicleta, no Rio de Janeiro, para refrescar a cabeça.

Num governo onde o tiroteio de uns e outros é constante, e a influência de Olavo como eminência parda se tornou uma perturbação permanente, é difícil avançar. A ameaça ao presidente pode se tornar ainda mais séria na medida de acordo com o avanço das investigações no Rio de Janeiro sobre os negócios de seu filho Flávio na área imobiliária. As possíveis conexões da família com policiais ligados à milícia que controla uma série de negócios nas favelas cariocas, e as contas milionárias de Fabrício Queiroz, ex-chefe de gabinete, operador das contas nebulosas do gabinete de Flávio quando deputado estadual, são uma espada a pairar sobre a cabeça presidencial.

Mourão, claro, não tem culpa de nada disso. Bolsonaro cava seu próprio buraco. No governo, quem vai virando o espantalho é ele. O presidente precisa mudar de figura e voltar rapidamente à superfície, em vez de criar ainda mais inimigos, o que poderá levá-lo, definitivamente, ao fundo do poço.