19 Set 2019

O doutor Caligari da política brasileira

Por   Ter, 30-Jul-2019
O filme: para o louco, a loucura é normal O filme: para o louco, a loucura é normal

Já era preocupante o fato de o presidente Jair Bolsonaro estar se afastando cada vez mais da ala operacional do governo, incluindo os militares. Agora, ele se afasta da própria realidade, apegado à construção ideológica do mundo como ele o vê. Uma espécie de Doutor Caligari da política.

Para quem nunca viu o filme de Robert Wiene, Caligari é um louco, para quem o mundo distorcido pela própria loucura parece normal. Ao ver o filme pelos seus olhos, o espectador adota sua perspectiva e vai pensando que as coisas são mesmo daquele jeito, distorcidas, quase góticas. Até que se percebe que é apenas o filtro do louco que nos fazia ver assim.

Bolsonaro está ainda na fase de fazer alguns acreditarem que é normal e flerta com a ideia de ampliar sua massa de seguidores fanáticos, com ajuda das redes sociais e pendores para o fascismo. Algo também muito próximo da loucura mais delirante do poder. Mas muita gente vai acordando para a realidade.

O rei vai ficando nu. O último choque que faz acordar o eleitor brasileiro foi a declaração de que ele saberia o destino de Fernando Santa Cruz, pai do presidente da ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. 

Bolsonaro disse ter informações de que ele teria sido morto não pela ditadura, mas pela "esquerda" - uma deformação da realidade tão flagrante que seria o caso de repúdio geral, não fosse a consternação com o estado mental do presidente.

Com essa fala, que se junta a muitas outras, lançadas ao ar talvez apenas com o objetivo de chocar, mas vão revelando uma mente perigosa, Bolsonaro apenas aumenta a onda de repugnância contra ele. E que pode ainda descer da montanha como uma avalanche. 

Com sua subita entrada no mundo da investigação forense, de afirmar que não houve assassinato no caso do cacique morto no Amapá, ou agora, revirando o passado, o rpeside te só vai arrumando problema para si mesmo.

No caso do militante desaparecido na ditadura, pode inclusive ser intimado a depor. A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, órgão do Ministério Público Federal, afirmou hoje em nota que qualquer autoridade é obrigada a revelar informações que possua sobre as circunstâncias de um desaparecimento.

O presidente alimenta o radicalismo da minoria alinhada com suas ideias mais grotescas sem medir as consequências. Vive na ilusão de que poderá enganar tantos, o tempo todo. Sua legitimidade, porém, se apoia numa base bem mais ampla, formada por gente que apenas não queria o PT no governo, e não compactua com radicalismos ou ilusionismos, seja à esquerda, seja à direita.

São essas forças da sociedade que começam a ficar fartas da verborragia presidencial. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, sugeriu que o presidente passasse a usar "um aparelho de mordaça". Políticos de diferentes siglas protestaram.

“Absurdo, inaceitável, incompatível com a República democrática”, afirmou o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, que é advogado e neto de Mário Covas, que teve os direitos políticos cassados pela ditadura. "Como advogado, me solidarizo com a OAB; como cidadão me indigna comportamento que vai contra o processo civilizatório.”

Em vez de colocar a realidade a seu favor, o presidente a renega. Da mesma forma que disse que a economia "está uma maravilha" e que "não há fome" no Brasil, vai martelando a realidade sem ter aprendido com o PT a lição de que a repetição dos discursos falsos não se sobrepõe aos fatos.

No caso de Santa Cruz, é bom lembrar os fatos. Segundo a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos,  Fernando Santa Cruz de Oliveira "faleceu provavelmente no dia 23 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro/RJ, em razão de morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática e generalizada à população identificada como opositora política ao regime ditatorial de 1964 a 1985".

Em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, o ex-delegado Cláudio Guerra, do Departamento de Operações Políticas e Sociais, o Dops, confessou ter incinerado o corpo de Fernando Santa Cruz e outros nove presos políticos no forno de um engenho de cana em Campos, no Estado do Rio.

Enquanto isso, indiferente aos fatos, o presidente segue sua agenda de incendiário midiático. Nas redes sociais, vai colocando contra ele mesmo ministros e subalternos, justamente as pessoas responsáveis por fazer o governo funcionar.

Seus filhos vão se tornando parte desse indigesto pacote. Eduardo, ele quer enfiar goela abaixo do Itamaraty e dos bons costumes como embaixador em Washington. Flávio e Fabrício Queiroz, amigo histórico do presidente, conseguiram paralisar toda a Lava Jato com seus advogados para proteger-se de acusações de corrupção e da suspeita de envolvimento com as milícias que exploram o mercado imobiliário no Rio de Janeiro.

Seguindo planos do publicitário Fabio Wajngarten, Bolsonaro segue indiferente às críticas, sustentando sua posição por meio de uma agenda popular, que inclui aparições em programas pouco apropriados a um presidente da República, como o Sílvio Santos a Praça da Alegria.

Sua arma, no fim das contas, é a mesma do PT. Para acobertar as investigações contra seu filho Flávio, ou as criticas à indicação de Eduardo, ele vai martelando seu discurso, vai criando seu filme, onde a fantasia é a nova realidade. Filme, ou programa de TV: o novo Brasil, a Praça da Discórdia.