19 Mar 2019

O Dia Internacional das Pessoas Iguais

Por   Sex, 08-Mar-2019

Na véspera do Dia Internacional da Mulher, assisti tardiamente a The Wife, ou A Esposa, filme indicado para o Oscar pela atuação de Glenn Close na categoria dramática. Teria sido sua primeira estatueta, apesar das seis indicações recebidas nas quatro décadas de carreira. Mas não aconteceu: o prêmio foi concedido à atriz de A Favorita, Olivia Colman que, no palco, mostrou-se tão grata quanto estupefata e, cheia de humor, pediu desculpas a Glenn Close.

Joan, a personagem de Close, atravessa uma luta interna que tem por ignição a sua submissão ao marido, escritor contemplado com o Prêmio Nobel de Literatura, conseguido graças à fortíssima e secreta atuação da mulher na sua vida profissional. Na juventude do casal, mostrada em cenas curtas e excelentes retratando os anos 50 e 60, uma professora acadêmica desencoraja Joan a seguir sua promissora carreira de autora: “mulheres não são lidas, a não ser por seus alunos. Você vai acabar aqui, nessa estante de livros não lidos”. “Darling”.  

Hoje é Dia Internacional da Mulher, um dia controverso que nós, mulheres, amamos e odiamos. Muita estrada já foi percorrida desde a época em que uma mulher precisava se valer da exposição de um homem para manifestar a sua capacidade artística e profissional. Encampamos a ciência, a tecnologia, a política, a saúde e qualquer área que almejemos. Sim, há lutas ainda a travar: pela igualdade salarial, por segurança e integridade, talvez até por tempo. O domínio do nosso próprio tempo em casa, no trabalho, sozinhas.

Não sou feminista de carteirinha; pelo contrário, sou de criação um tanto machista, e ainda me assusto um pouco com a hostilidade da luta. Mas reconheço plenamente a necessidade de quebrar tabus com coragem e determinação e, sem hipocrisia, confesso que desfruto das conquistas heroicas do movimento. Acho inclusive que essa palavra feminismo já está pronta para mudar, passar para algo como “igualitarismo”, e finalmente aceitar que tanto mulheres quanto homens podem embarcar no propósito.

No ano passado, desmontando a biblioteca de minha avó, encontrei um manual da boa esposa, produzido por uma agência de propaganda e patrocinado por uma marca de produto de limpeza. Ali havia dicas de postura, asseio, estética, receitas culinárias, atitudes diante do marido e da sociedade, maneiras de educar seus filhos, dobrar as roupas, tirar manchas, rir comedidamente, arrumar os cabelos, costurar. Quis guardar aquilo comigo, mas tive duplo sentimento de curiosidade e repúdio, e resolvi botar na pilha da fogueira.

Não nos enganemos, minha avó nasceu em 1922, ano da Semana de Arte Moderna, e ainda hoje é uma mulher à frente do seu tempo, em plenos 97 anos que completará daqui a dez dias. Sua biblioteca tem Nietzsche, Dostoiévski, Shakespeare, Stephen Hawking, Machado de Assis, Eça de Queiroz e Chico Buarque. Aos 10 anos, entoou nas ruas a canção das sufragistas, e basta pedir-lhe para recitar no jantar para ver que ela ainda saberá todos os versos, e é capaz de chorar. Por isso, ficou bastante chateada nas últimas eleições, quando ninguém a pode levar para votar na cidade ao lado – “e nem justificar eu pude, porque, por lei, não preciso votar”, lamentou.

Mas assim como a personagem de Glenn Close, minha avó Etelvina viveu seu tempo como dava e, na vida adulta, não participou de batalhas públicas para a igualdade de gêneros, além da luta própria. Somente depois de formar oito filhos na faculdade, prestou vestibular na Fundação Getúlio Vargas e cursou Administração Pública, aos cinquenta anos de idade, o que lhe conferiu uma aposentadoria suficiente para cuidar bem da família e do meu avô, que logo teve uma sequência de episódios sérios de saúde.

Isso não significa que Dona Etelvina seja menos feminista, ou que não admire o movimento, apesar de se assustar, volta e meia, com a linguagem dos "amigxs", com as supermães que fazem passeata de peito para fora pela amamentação, ou com os beijos pansexuais cada vez mais expressos na vida e na arte.

Mulheres como Joan e Etel mostram que a batalha pela igualdade pode ter agentes de todo tipo de expressão: os da linha de frente, que montam barricadas e quebram os paradigmas, mas também as formiguinhas, que vão estruturando as novas ideias de modo que elas se fortaleçam com o tempo e não se esvaneçam como um simples rompante de ira.

Um feliz Dia Internacional da Mulher para todos nós, pessoas iguais.