6 Jun 2020

O Brasil desce a ladeira da civilização

Por   Sáb, 23-Mai-2020

No final da semana passada, quando a curva das contaminações pelo Covid começava a baixar nos Estados Unidos e na Rússia, o Brasil se tornou o único país com superpopulação a ver o número de contaminações e mortes ainda subindo como um foguete - e figurou no discurso da OMS como o novo "epicentro" da pandemia mundial.

Não podia dar outra, porque na periferia das metrópoles e em muitas cidades pelo interior do país a população permanecia na rua, infensa aos apelos das autoridades estaduais e municipais para manter o isolamento.

Em São Paulo, estado com maior população e contaminações, os cidadãos isolados variavam entre 47 e 51% do total, número insuficiente para cortar a proliferação do vírus - e ameaçador, considerada a capacidade do atendimento público de saúde, já no limite.

A pandemia expõe mais as mazelas de quem tem mais mazelas. O Brasil consagra-se como o exemplo mundial de que como a falta de educação pode ser fatal para um país. Enquanto os cidadãos de países civilizados contribuem para o bem coletivo, a maior parte da população brasileira permanece entre a necessidade pura de sair para trabalhar e a selvageria do simples boicote a medidas fundamentais para o bem comum.

Em São Paulko, as autoridades não decretam o lockdown pela descrença no seu cumprimento pela população - e a impossibilidade de autuar todo mundo.

Pior é que esse comportamento silvícola da população se mescla à natureza predatória da nossa gananciosa elite. E aos governantes atrabiliários, que chegam ao poder graças ao voto combinado de ricos e pobres, ambos altamente inconsequentes e manipuláveis.

O nível da elite brasileira é tão rasteiro, comparado a outros países do mundo, quanto o da tavolagem. Não é preciso exemplo outro que a gravação da reunião ministerial liderada pelo presidente Jair Bolsonaro no dia 22 de abril como sinal de que o país tem o governo que merece - e vice-versa.

Não é só o Executivo. Uma parcela importante do Congresso é notória por confundir política com chantagem, perseguindo benefícios pessoais e interesses de grupo, em vez de trabalhar pelo bem comum. E é a esses que o presidente recorre para sustentar-se no poder, quando aquilo que faz nas sombras começa a aparecer e a lei se lembra de ameaçá-lo.

O comportamento das mais altas autoridades revela bem por que  o Brasil não sai da miséria. O problema não é econômico, dada a nossa exuberante fartura de recursos. Estamos, isso sim, muito embaixo na escala da civilidade. E, nas crises como a atual, descemos ainda mais a ladeira civilizatória.

Não é acaso que os países socialmente mais desenvolvidos do mundo, como a Noruega e a Finlândia, estão também na escala dos países mais democráticos do planeta, de acordo com o Democracy Index, produzido pela revista Economist. O nível educacional, associado à eficiência conquistada por meio da renovação democrática no poder público, é a base para a solidariedade, o fortalecimento do corpo coletivo, as boas escolhas de governo e, ao mesmo tempo, a criação de valor econômico.

O Brasil faz o percurso contrário., Na crise, flerta com as velhas ditaduras de opereta, arbitrárias e inoperantes, de um autoritarismo inaceitável da Sociedade de Informação, onde o sucesso é resultado não do controlacionismo, mas da liberdade.

Nosso governo reflete nossa penúria econômica, educacional e civil. Na reunião de 22 de abril, assim como nas entrevistas sobre o tema, vimos um presidente que discursa aos palavrões, amaldiçoando a imprensa e a vida, insultando autoridades da República desbocadamente, e reclamando que ninguém o respeita, sem saber por que.

O nível do ministério também não poderia ser mais baixo. Tem general (Heleno) ignorante da lei, afirmando que presidente não pode ser investigado, e que se acha no dever de ameaçar a democracia, como meio para proteger o crime.

Tem ministro propondo passar projetos "infralegais" ao arrepio do Congresso (Salles), enquanto a imprensa supostamente se distrai com a pandemia.

Tem ministra (Damares) dizendo que mandou prender governadores. Bravata.

Sem falar num presidente envolvido com as denúncias mais baixas, como de produzir mentiras em série, coagir ministros para trocar funcionários públicos que o investigam, e que lidera um movimento camicase contra o isolamento sanitário, ao mesmo tempo em que ataca as instituições da República, promove e comparece a manifestações de militantes defensores do golpe de Estado.

Deveria ser uma vergonha estar numa reunião desse nível, ou num governo desse, mas os ministros agem como se aquilo tudo fosse muito natural e acompanham o tom da banda. Demonstram uma profunda indiferença com o povo brasileiro e fazem um silêncio gritante em relação ao único assunto que deveria estar pedindo a atenção de todos - a pandemia.

Some-se a isso o empresariado comodista, corruptor, argentário e rapinante, herdeiro da tradição dos capitães do mato, e eis o Brasil. O conjunto da obra, resumido na incivilidade do povo e da sua classe dirigente, faz deste país um triste e vexatório espetáculo para o mundo, assim como uma tragédia para si mesmo.

Mais, nos dá a certeza de que, enquanto não melhorar a qualidade do povo, que é a grande riqueza de uma Nação, não teremos uma elite melhor, nem governos melhores. Estaremos destinados a permanecer como o território rico de recursos e carente de progresso, que vem servindo historicamente, desde o primeiro dia, ao saque do colonizador em troca da subordinação e um punhado de espelhinhos.