6 Jun 2020

O bobão e a súcia

Por   Qua, 08-Abr-2020
O Conselheiro: fanatismo trágico O Conselheiro: fanatismo trágico

Antonio Conselheiro de circo conduz seu rebanho ao ridículo

O uso da cloroquina, como de outras drogas, está em curso nos hospitais públicos e privados. Como ainda não há pesquisa consolidada quanto à sua eficácia nem endosso da Anvisa e do Conselho Federal de Medicina, é correto o comportamento cauteloso do ministro da Saúde e do infectologista David Uip, responsável médico pelo combate à pandemia em São Paulo.

Quando David Uip se recusa a dizer se usou a droga ou não, no tratamento a que se submeteu para se livrar da covid-19, ele está preocupado em não endossar seu uso ou condená-lo precocemente, pois o peso de sua palavra poderia induzir à condenação ou aprovação do uso generalizado da droga. Esse comportamento precavido se dá em nome do respeito à acurácia da pesquisa científica, que tem protocolos a ser ser seguidos.

Uip dizer que usou a droga e se curou vale tanto quanto o testemunho da moça da feira que conta o caso da tia de uma conhecida que tomou chá de alho com gengibre a se livrou do mal. David Uip pode ter sido curado pelo uso da clorotina. Ou poderia ter-se curado mesmo não usando. Como saber? Não tem como ter certeza do agente da cura de apenas um indivíduo. É simples assim. Não há porque tanta polêmica. Nunca houve esse tipo de bate-boca em situações semelhantes.

O que ocorre na presente polêmica é que o celerado que nos preside e que acha que basta enfrentarmos essa gripezinha como homens (as mulheres que se danem?) cismou que entende do riscado e quer meter goela abaixo dos especialistas o uso indiscriminado do remédio. Seria só mais um arroubo, mais um delírio de uma mente autoritária, não fosse seus seguidores tomarem a si a defesa fanática e irracional da droga, gerando mais um fla-flu num momento de crise profunda, que cobra de todos a solidariedade e sensatez.

Defensores de São Bolsonaro, muitos deles pessoas até outro dia com os pés no chão, tomaram a verborragia do líder como palavra de ordem de luta contra quem pensa diferente. Agem como as hordas petistas do início da crise do partido, que se negavam a reconhecer os erros políticos e crimes variados perpetrados por suas lideranças.

Se prestam a manter a estratégia do presidente de se promover uma guerra permanente, como quem se alimenta do atrito, do confronto, da caça eterna ao inimigo, que pode variar com o passar dos dias. Confrontados com o seu fanatismo, alegam que defendem a nova ordem e acusam os que deles discordam de querer voltar aos tempos da corrupção petista ou entregar o poder aos corruptos do parlamento.

Fazem da irracionalidade um mantra e agem como seguidores de um Antonio Conselheiro de circo que conduz seu rebanho para o paraíso através do sacrifício e das sombras da lona. Apesar do comportamento insano de líder e liderados, as drogas vão sendo testadas, sempre com a anuência do paciente, e só serão empregadas universalmente depois de passarem por todas as etapas estabelecidas e consagradas da boa pesquisa científica. O resto é a velha indigência mental à qual os brasileiros adoram se dedicar como esporte nacional