23 Jul 2019

O azar de ser o presidente

Por   Sex, 31-Mai-2019

O presidente Jair Bolsonaro afirmou que a cadeira do Palácio do Planalto é sua "kriptonita". Bolsonaro sabe o que diz, melhor que ninguém.

Na ficção, kriptonita é o mineral vindo do planeta Kripton, que na Terra enfraquece o Super-homem. A matéria que enfraquece o presidente, porém, é deste planeta mesmo.

Quando começou a corrida presidencial, ano passado, provavelmente nem o próprio Bolsonaro acreditava que seria presidente. Por achá-lo tão improvável, talvez não tenha avaliado bem os riscos do sucesso.

O problema de ser presidente é a quantidade de holofotes que explodem em cima da gente. Acaba aquela sombrinha, tudo é exposto com clareza solar. Inclusive coisas obscuras, feitas no passado, quando ninguém imaginava também o grau de interesse que poderiam gerar no futuro.

E o futuro, para Bolsonaro, é hoje.

Quando Bolsonaro colou seu discurso de combate aos bandidos com a ideia de premiar PMs do Rio de Janeiro, pode ser que esses policiais na época fossem mesmo “heróis”, como definiu Flávio, filho do presidente, ex-deputado estadual fluminense e hoje senador.

Só que os heróis viraram milicianos (leia-se, bandidos), criando negócios escusos, como a exploração do mercado imobiliário, ameaçando proprietários para que vendessem imóveis a preço de banana. Um negócio denunciado pela vereadora Marielle Franco, que contrariava, portanto, seus interesses.

Os Bolsonaro, pai e filhos, acabaram associados a essa amizade que não souberam deixar para trás ou da qual, mesmo com a guinada do heroísmo para a bandidagem, não podiam simplesmente se desligar.

A proximidade dos Bolsonaro com os milicianos, assim como práticas dolosas como a da rachadinha, operada nas barbas do clã pelo seu ex-assessor, Fabrício Queiroz, são uma ameaça real ao presidente. Não apenas para a sua manutenção no cargo. Podem colocá-lo na cadeia.

O Brasil já tem dois ex-presidentes recentes que são presidiários - um fixo (Lula) e outro eventual (Temer). Vai surgindo mais um sério candidato ao xadrez.

Na campanha, Bolsonaro acreditou que colocar de vice em sua chapa alguém que ninguém queria, como uma espécie de espantalho, seria uma garantia de não sofrer mais tarde, no governo, um processo de impeachment. Mourão, um militar de verdade, recém saído de uma roupa verde-oliva, no lugar dele? Nem pensar.

Acontece que, uma vez no Planalto, Mourão mostrou mais agilidade e inteligência política que o próprio Bolsonaro. Encarnou o bom senso, a moderação, o bom trato com a imprensa, o respeito com a oposição e as instituições da República.

Os militares ganharam fama de serem a parte que funciona no governo. E Bolsonaro viu uma figura antes temida como o diabo passar a ser vista como um perigo menor que ele próprio.

O presidente não pode mudar o passado - o dele, nem de seus filhos. Não dá mais para esconder Queiroz, o ex-homem de confiança do presidente. A lista de parentes e outros funcionários fantasmas que repassavam seus salários de volta aos Bolsonaro sem trabalhar. Os 24 mil reais depositados pelo ex-assessor na conta da primeira dama Michelle Bolsonaro. O enriquecimento imobiliário de Flávio. A presença de parentes de milicianos empregados no gabinete.

O pior, porém, é não saber lidar com o presente, deixando o velho Bolsonaro para trás.

Como o presidente sabe, até o super-homem tem seu ponto fraco. E, com kriptonita, pode sucumbir.