6 Jun 2020

Nossa Senhora da Cloroquina

Por   Ter, 19-Mai-2020

Virou religião, sem base científica, e uma legião de bolsonaristas só reza pela droga

Não são poucos os estudos e observações clínicas que dão conta da ineficácia e dos perigos do uso da cloroquina em pacientes achacados pela Covid-19. Todos os dias os jornais revelam novos testes e pesquisas nesse sentido. A droga já está disponível para uso a critério médico e com a anuência do paciente, em casos mais graves e avançados da enfermidade. Então, o que leva um grande público a insistir no uso da droga logo no início do aparecimento da doença? Com base em quê?

Com base na pregação monocórdica do presidente Bolsonaro e na informação da amiga da empregada de uma vizinha que tomou e se salvou. Ou seja, sem base nenhuma, muita gente acredita na chorumela presidencial.

O que une essa legião de fiéis do culto de Nossa Senhora da Cloroquina? Uma coisa só: são todos seguidores cegos do presidente. Gente que vai se fanatizando à medida que o governo vai afundando em desmandos de um líder desequilibrado.

No documento Diretrizes de Tratamento Farmacológico do Covid-19, elaborado pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira, Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Pneumonologia e Tisiologia, especialistas escrevem: “Sugerimos não utilizar hidroxicloroquina ou cloroquina de rotina no tratamento da Covid-19”.

Estudos tem demonstrado que além de não ter efeito sobre a doença a cloroquina tem causado outros problemas de saúde. Por esta razão, hospitais da Suécia aboliram o uso da droga contra o coronavírus. Mas o que sabem os médicos suecos diante da sabedoria incontestável do nosso brilhante presidente?

Na Bahia, o médico Gilmar Calasans, de 55 anos, morreu depois e se automedicar am casa com a cloroquina. O uso da droga não está proibido, só precisa ser monitorado minuto a minuto para que em caso de efeito nocivo possa ser suspensa sua administração. Foram constatadas de arritmias cardíacas a perda de visão periférica em pessoas que tomaram o remédio, e não foram poucos os que morreram.

No Amazonas, um grupo de pesquisa parou de utilizá-lo depois que vários pacientes tiveram esse fim. Mas Bolsonaro insiste na mesma tecla, não se sabe bem por quê. O presidente Maduro, algoz da Venezuela, e Donald Trump, o homem laranja lá do Norte, fazem coro com ele, o que não é bom sinal.

“Recomendação médica deve ser feita por especialistas e não por políticos”, diz o doutor Magnus Gisslém, professor da Universidade de Gotemburgo. Estudos realizados com outros medicamentos têm apresentado avanços no tratamento. Mas não há interesse presidencial no assunto. Ele se fixa na cloroquina e leva com ele sua legião de abestados.

Essa postura do governante brasileiro, associada ao seu boicote ao distanciamento social, colocou o país como uma espécie de pária no mundo. Neste exato momento estamos correndo o risco de ficar por último a receber os benefícios de uma futura vacina.

O Brasil ficou de fora de uma iniciativa global para aceleração do desenvolvimento de uma vacina. Trata-se de uma iniciativa séria reunindo as maiores nações, empresas privadas e órgãos internacionais. Nos Estados Unidos avança o processo de criação de uma vacina genética. Talvez esta nos chegue, dado o grau de puxassaquismo de nosso presidente em relação ao colega gringo. Mas eu não confiaria nisso.

O homem laranja não tem correspondido ao amor que Bolsonaro lhe dedica.