24 Ago 2019

Não chore por eles

Por   Qui, 18-Jul-2019

Os eleitores de Bolsonaro não se penitenciam, como julga a oposição

Certo ditado garante que cachorro velho não aprende truque novo. A intenção não é abrir discussão com adestradores, pois os há que garantem ensinar truque
novo até para cachorro morto. O que se quer destacar é a impossibilidade de certos jumentos de duas patas, habituados às próprias ideias de jerico, tirarem conclusões originais de situações novas.

Jair Bolsonaro foi eleito em boa parte por gente que nele acredita. Esses eleitores, cerca de um terço dos cidadãos que foram às urnas no segundo turno, não se deixam levar pelas picuinhas da oposição nem pelos deslizes do presidente ou de seus filhos.

No essencial, estão com o presidente, mesmo quando não gostam de alguma atitude, medida ou frase infeliz. São ideológicos. Mas parece que isso não convence seus opositores. Para estes, quem votou no homem se deu mal por nele acreditar, e agora deve estar sofrendo, arrependido.

Dizem que Bolsonaro coloca a democracia em risco e quem votou nele se sente culpado. Que bobagem. Os eleitores ideológicos estão onde sempre estiveram. Apoiam Bolsonaro, desdenham da nossa democracia, e não enxergam razão para ser diferente. Além desse terço, há os conservadores tradicionais e os liberais, um contingente não desprezível, que aplaude o programa de reformas do governo.

Sobram para motejo dos que esconjuram o Coiso os eleitores não ideológicos. São os que escolheram dos males o menor - sendo o candidato petista e a continuidade do petismo no poder o mal maior - que se juntaram ao terço ideológico, aos conservadores tradicionais e aos liberais, nas urnas.

Além dos que queriam apenas se vingar do PT. Vê-lo longe do poder, morrendo à míngua. É a esses que os anti-Bolsonaro podem dirigir seu sarcasmo: “Bem feito!”.

Dentre os que esfregam o desarranjo bolsonarista na cara dos que votaram no capitão, os mais sectários são aqueles cujos candidatos broxaram na largada, mas no segundo turno decidiram ficar com o candidato de esquerda, o perdedor. Ou seja, permaneceram, também, onde sempre estiveram. Boi preto reconhece boi preto. Bolsonaro foi a desculpa que esperavam para votar na esquerda, mesmo sendo ela representada pelo partido da boquinha, do mensalão e do petrolão.

Mas, voltemos à vaca fria dos que optaram por derrotar a esquerda, pois aqui ainda é preciso considerar algumas coisinhas. Mesmo que estejam achando Bolsonaro um saco de encrencas, o que perderam, por enquanto? O PT continua na pior, as reformas estão andando, a Bolsa subindo e melhoram as expectativas em relação à recuperação econômica. Por que estariam arrependidos?

Essa gente não gosta nada da indicação do filho para a embaixada em Washington, do escândalo do Queiroz, do histrionismo de certos ministros. Mas já não gostava de bandalha nos governos do PT. É um povo cujos candidatos ficaram com 3 pontos ou menos no primeiro turno das eleições, não tem motivo algum para se sentir decepcionado com o candidato vencedor, que não é o seu. É o que os ideológicos chamam de “as velhas da kombi”.

Portanto, não espere a oposição que haja muito choro e ranger de dentes entre os que votaram no homem. Eles têm motivos de sobra para achar que fizeram a coisa certa, o que não significa que concordem e aplaudam tudo o que o homem faz e não se preocupem, embora sem paranóia, com projetos não confessados do presidente e de sua turma.

Entre o governo que entrega a direção econômica a um Paulo Guedes e o derrotado, que ameaçava o país com um replay da Nova Matriz Econômica, estão na maioria convencidos de ter feito a coisa certa. Apesar de tudo.